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20/03/2020 02:00 -03

Mandetta vive delicado equilíbrio entre discurso técnico e dizer o que agrada Bolsonaro

Ministro da Saúde despertou ciúme no presidente por protagonismo, mas especialmente após aparecer ao lado de João Doria.

Andre Coelho via Getty Images
Em coletiva de imprensa, Mandetta se refere a Bolsonaro como o “grande timoneiro desse barco”. 

Médico de formação, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, vive hoje um delicado equilíbrio entre manter o discurso pragmático no momento de crise com a pandemia de coronavírus, e não desagradar o presidente Jair Bolsonaro, que já demonstrou internamente ciúme com o protagonismo que o subordinado assumiu nos últimos dias. 

O mal-estar vem desde a semana passada, quando Mandetta apareceu ao lado do governador de São Paulo, João Doria, opositor político de Bolsonaro, e se intensificou no fim de semana, quando o ministro falou a alguns órgãos de imprensa que a orientação sobre evitar aglomerações era “não” para todo mundo. 

Não à toa, na última quarta (18), quando se sentou ao lado do chefe na coletiva de imprensa no Palácio do Planalto e falou sobre o vírus, Mandetta adotou um tom mais político do que o tecnicismo que vinha imprimindo em suas falas nos pronunciamentos no Ministério da Saúde e chegou a dizer que o mandatário é o “grande timoneiro desse barco”. 

O primeiro escalado por Bolsonaro para falar na ocasião foi o presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres, e Mandetta foi deixado por último. Isso, por si só, já foi considerado por auxiliares um sinal do descontentamento do presidente com o ministro da Saúde. 

A fala de Mandetta foi recheada de gestos ao chefe, em que ele evitou mencionar diretamente a postura de Bolsonaro de três dias antes, quando o mandatário rompeu o isolamento e cumprimentou apoiadores que se manifestavam em frente ao Palácio do Planalto. 

O ministro afirmou inclusive que, “naquele domingo, a gente viu as praias do Rio lotadas, o Leblon lotado, São Paulo lotado”, destacando que as pessoas que compareceram aos protestos não foram as únicas a se reunirem, apesar das recomendações de evitar aglomerações. 

“Todo mundo começa a enxergar coletivamente. É típico de epidemias que as coisas se deem assim. É típico que, na sociedade como um todo, a gente vá gradativamente vendo a sinalização dos casos. O Brasil é um continente, não estamos falando de um País pequenininho”, disse o ministro. 

Minutos antes, Bolsonaro havia afirmado que não hesitaria em entrar em um “metrô lotado em São Paulo, numa barca em Niterói”. “Não se surpreenda se me vir entrando num metrô lotado, numa barca em Niterói. Longe de demagogia ou populismo, estou do lado do povo. (…) Tenho muito orgulho disso”, afirmou ao ser questionado se havia se arrependido de ter ido ao encontro de seus apoiadores do último domingo (15). 

SERGIO LIMA via Getty Images
Ministro foi o último a falar na coletiva de quarta-feira, no Palácio do Planalto, e fez várias deferências ao chefe. 

O Mandetta técnico

Embora se tenha visto na quarta um Mandetta tentando agradar o chefe, no dia seguinte, já se notou um ministro de volta às suas funções, na coletiva de imprensa remota, com perguntas feitas por um grupo de WhatsApp e transmitida pelas redes do ministério. Ele endossou mais uma vez, nesta quinta (19), a importância do isolamento, e destacou que o trabalho de sua equipe, como técnica e à frente da crise, é seguir trabalhando. 

“Se eu ficar doente, sairei em quarentena, trabalhando via web. Caso não possa trabalhar, tem três pessoas atrás de cada um de nós”, apontando para cada um de seus secretários.

Além disso, o ministro anunciou a intensificação de medidas de isolamento no caso da doença. Questões como essas vinham sendo minimizadas por Bolsonaro, para quem o coronavírus é “superdimensionado”. 

Interlocutores no Planalto acreditam que, embora Bolsonaro tenha afirmado que não há nenhum problema com o ministro, à medida que os elogios a Mandetta aumentam, o desgosto do chefe com ele também. Uma fonte palaciana destacou que esses dois quesitos “andam juntos”, quando se trata da personalidade do presidente. 

Foi neste contexto, inclusive, que se criou o comitê de crise interministerial, sob o comando da Casa Civil, do general Walter Braga Netto, na segunda (16). Até então, tudo sobre coronavírus estava nas mãos do Ministério da Saúde. 

Do outro lado, aliados do ministro defenderam que ele saísse do governo no domingo mesmo, assim que Bolsonaro cumprimentou e abraçou apoiadores, num claro desrespeito não apenas às orientações do Ministério da Saúde, de órgãos internacionais, mas do próprio Mandetta.