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16/04/2020 18:20 -03 | Atualizado 16/04/2020 18:26 -03

'Não tenham medo', diz Mandetta à equipe ao deixar Ministério da Saúde

"Nada tem significado que não seja uma defesa intransigente da vida, do SUS e da ciência", disse ex-ministro.

Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Luiz Henrique Mandetta foi demitido do Ministério da Saúde nesta quinta-feira (16).

Em seu último pronunciamento à frente do Ministério da Saúde, Luiz Henrique Mandetta agradeceu à equipe da pasta, ao Congresso Nacional e ao STF (Supremo Tribunal Federal) e reforçou o discurso de defesa da ciência no combate à pandemia do novo coronavírus. “Não tenham medo. Não façam um milímetro diferente do que vocês sabem fazer. Deixo esse Ministério da Saúde com muita gratidão ao presidente por ter me nomeado e permitido que eu nomeasse cada um de vocês”, afirmou nesta quinta-feira (16).

No mesmo dia em que o Brasil contabilizou 30.425 casos confirmados de covid-19 e 1.924 mortes causadas pela doença, o presidente Jair Bolsonaro demitiu o ministro da Saúde. Ambos viviam uma relação tensa há semanas devido a divergências sobre como conter a epidemia no País.

No início do pronunciamento, ao lado da cúpula da pasta, Mandetta foi aplaudido pelos servidores do ministério. Ele pediu aos auxiliares, como o secretário-executivo, João Gabbardo, e o secretário de Ciência e Tecnologia, Denizar Vianna, para tirarem as máscaras do rosto, usadas em sinal de apoio ao ex-deputado.

O democrata citou diversos nomes, incluindo os funcionários responsáveis pela liberação de leitos de alta complexidade. “Todas as noites maldormidas em que eu gritava do quinto andar para que eles não parassem”, lembrou. “Não posso medir o tamanho do meu agradecimento pelo que aprendi com vocês. Saio daqui com uma experiência absolutamente fantástica”, completou.

Adepto da citação do sambista Paulinho da Viola, com os versos “Faça como um velho marinheiro / Que durante o nevoeiro / Leva o barco devagar”, Mandetta resolveu citar Raul Seixas, ao lembrar que mudava de opinião ao ouvir seus auxiliares. “Eu prefiro ser aquela metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, disse.

O ex-deputado também deixou palavras de incentivo e pediu que os servidores ajudassem na transição. A pasta agora será comandada pelo oncologista Nelson Teich.Eu deixo esse ministério, mas sei que deixo a melhor equipe. Trabalhem para o próximo ministro tal qual vocês trabalharam para mim. Ajudem. Não meçam esforços. Desdobrem os seus esforços para que eles tenham o melhor espaço possível para trabalhar. Alertem, conversem, dialoguem. Vocês sabem fazer isso”, disse.

Nada tem significado que não seja uma defesa intransigente da vida, do SUS e da ciência. Desses pilares vocês conquistaram tudo porque esses pilares alimentam a verdade.

Na sequência, ressaltou a defesa da ciência, em um recado indireto ao presidente. “Vocês são extremamente capazes. Este problema [saída de Mandetta] é insignificante. Nada tem significado que não seja uma defesa intransigente da vida, do SUS e da ciência. Fiquem nos três pilares que desse pilares vocês conquistaram tudo porque esses pilares alimentam a verdade. A ciência é luz. É o Iluminismo. É através dela que vamos sair. Apostem todas suas energias na ciência”, disse.

Em outra indireta a Bolsonaro, Mandetta elogiou a imprensa, embora tenha se negado a responder perguntas nesta quinta. “Sem vocês com certeza o País não teria chegado nessa primeira etapa que nós conseguimos, sem deixar aquela curva íngreme causar mais sofrimento, morte e desengano que poderia ter ocorrido. Vocês são extremamente responsáveis por terem levado essa informação clara. Só que hoje peço a vocês que não me façam pergunta. É muito difícil falar e responder num momento desse”, disse.

O então titular da Saúde disse que a equipe “lutou um bom combate” e que o trabalho conjunto foi responsável por achatar a curva de contaminação do vírus. Mandetta se colocou à disposição para ser consultado e disse que rezaria pelos servidores. “Ficarão nas minhas orações sempre pensando no que de melhor de energia eu possa mandar para cada um de vocês. Minha devoção inabalável em Nossa Senhora Aparecida vai acompanhar e proteger cada um de vocês aqui dentro”, disse.

O ortopedista também adotou um tom religioso ao falar de Bolsonaro. “Tenho certeza de que nosso senhor Jesus Cristo vai iluminar para que ele possa tomar as melhores decisões em prol do País”, afirmou. O democrata classificou como “amistosa” a conversa da demissão e disse que Bolsonaro é humanista ao se preocupar com o impacto da pandemia no setor econômico, especialmente os índices de desemprego.

Mandetta e o apoio da equipe

Além dos aplausos e das máscaras usadas pelos auxiliares, chamou atenção o abraço do secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, dado no ministro Mandetta, no meio do pronunciamento. Epidemiologista pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Wanderson é apontado como um estrategista dentro do ministério no enfrentamento à pandemia.

Ao falar de Denizar Vianna, secretário de Ciência e Tecnologia, Mandetta lembrou que se formaram juntos. “Conheço dos bancos da faculdade. Somos da mesma turma, da mesma forja”, disse, em referência ao secretário responsável por autorizar e organizar as pesquisas, protocolos e testes de medicamentos contra a covid-19.

O ex-parlamentar também agradeceu aos conselhos políticos dos ex-colegas de Congresso, José Carlos Aleluia e Abelardo Lupion, nomeados pelo democrata para atuar dentro da pasta. “Dois amigos que me foram os conselheiros das horas políticas. Sem política não se faz a condução de um ministério de tamanha complexidade”, disse.

Apesar do perfil técnico na condução da pasta, Mandetta chegou ao governo devido às suas habilidades políticas. O apoio do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, foi fundamental para o convite feito pro Bolsonaro em 2018.

Guerra fria entre Bolsonaro e Mandetta atingiu clímax

Após semanas de tensão, a demissão era esperada. O presidente vem insistindo no uso de cloroquina contra a covid-19 mesmo sem comprovação científica, enquanto o Ministério da Saúde resiste a recomendar o uso amplo do medicamento para infectados. Além disso, o presidente é favorável ao isolamento vertical, com o confinamento apenas dos grupos de risco para covid-19, como idosos e pessoas com doenças crônicas. Mandetta defende isolamento para maior parte da população do País.

Após um breve cessar-fogo na semana passada, Mandetta confrontou o presidente com sua entrevista ao Fantástico de domingo (12), após Bolsonaro provocar nova aglomeração em Brasília. Ele disse que o brasileiro não sabe se escuta as orientações do presidente ou do ministro da Saúde. E afirmou que os piores meses para a pandemia no País seriam maio e junho. Um dia antes, o presidente havia dito que “o coronavírus está indo embora do Brasil”.

Os militares viram na entrevista de Mandetta à TV Globo, um dos principais alvos de Bolsonaro, uma quebra de hierarquia e pararam de apoiar o ministro. Na semana passada, foram eles que conseguiram seguram “a caneta” do presidente para exonerar o ministro.

A questão econômica também está preocupando cada vez mais Bolsonaro, que vê no efeito colateral do isolamento social números que podem afetar sua reeleição. O ministro da Economia, Paulo Guedes disse, em reunião dos ministros na terça-feira (14), que a recessão pode ser maior que o imaginado — “com contas no vermelho pelo resto do governo”.