NOTÍCIAS
16/04/2020 16:20 -03 | Atualizado 16/04/2020 16:35 -03

Mandetta deixa Ministério da Saúde após escalada de tensão com Bolsonaro

Divergência sobre isolamento social colocou os dois em lados opostos, rachou o governo e enfraqueceu Bolsonaro.

A queda de braço entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta em meio à pandemia do novo coronavírus teve fim nesta quinta-feira (16). Mais um alvo do tradicional método de fritura dos Bolsonaro, Mandetta disse que foi avisado de sua demissão após semanas defendendo publicamente sua posição - contrária à do presidente - em favor do isolamento social como única forma eficaz de conter a propagação do vírus que já matou mais de 1.900 pessoas no Brasil.

O mais cotado para suceder Mandetta é o oncologista Nelson Sperle Teich. Conhecido por sua atuação no Instituto COI, no Rio de Janeiro, o médico se encontrou nesta quinta com o presidente. Teich também “se pauta pela ciência”. Ele é próximo do atual secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna.

O último episódio do confronto aberto entre Mandetta e Bolsonaro foi a entrevista concedida pelo ministro ao programa Fantástico no último domingo (12), em que ele disse que era preciso que o governo unificasse o discurso e que a população não sabia se escutava o ministro ou o presidente.

A tensão entre os dois, desde o fim de março, teve outros momentos críticos, envolvendo embates em reuniões e por telefone, além de ameaças públicas de Bolsonaro de tirá-lo do cargo

Na manhã de quarta-feira (15), em meio a novos rumores de que a saída de Mandetta estava próxima, um dos principais nomes da pasta, o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson de Oliveira, pediu demissão. À tarde, no entanto, Mandetta disse a jornalistas que não aceitou o pedido: “Nós entramos juntos no ministério, estamos trabalhando juntos até o momento de sairmos juntos do Ministério da Saúde”.  

A coletiva de imprensa da quarta-feira já tinha tido tom de despedida. Mandetta, Wanderson e o secretário-executivo do ministério, João Gabbardo, deixaram claro que a saída de todos era iminente e que vão ajudar na transição para um novo ministro. “Se entrar hoje uma pessoa no Ministério da Saúde, está tranquilo para trabalhar”, disse Mandetta.

A relação entre o presidente e o ministro foi ruindo diante da forte oposição de Bolsonaro ao isolamento social — principal orientação da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de infectologistas do mundo inteiro para conter o coronavírus, e prática adotada pela grande maioria dos líderes internacionais -, mas também por sua pressão para que a cloroquina fosse adotada como método de tratamento, mesmo sem comprovação científica.

Nos últimos dias, o presidente havia afrontado a posição do Ministério da Saúde não só com declarações, mas também com gestos, como circular pelo comércio de Brasília, gerar aglomerações e apertar a mão de simpatizantes.

A entrevista do ministro ao Fantástico, uma resposta ao último “giro” irresponsável do presidente, foi mal vista por ministros militares, que até então atuavam para segurar o democrata no governo. A fala foi interpretada como uma provocação desnecessária por parte do subordinado.

O ministro, contudo, tinha amplo respaldo popular. Segundo pesquisa Datafolha publicada em 3 de abril, quando o embate entre Bolsonaro e Mandetta estava no auge, o Ministério da Saúde tinha uma aprovação mais de duas vezes superior à do presidente.

De acordo com o levantamento, 76% dos entrevistados aprovavam o desempenho da pasta no combate ao coronavírus — entre 18 e 20 de março, o percentual era de 55%. Já a gestão da crise por Bolsonaro teve aprovação oscilando para baixo, dentro da margem de erro, de 35% para 33%.

Fritura em meio a uma crise da Saúde

Enquanto os militares apoiavam o médico ortopedista, nas últimas semanas, a ala radical do governo, muito mais próxima do presidente e impulsionada por seu filho Carlos Bolsonaro - que não faz parte do governo, mas não sai do Planalto -, pressionava por sua saída.

No início de abril, o presidente disse à rádio Jovem Pan que o subordinado deveria “ter mais humildade” e “ouvir um pouco mais o presidente”. Ao saber da crítica, Mandetta falou com o chefe por telefone e ouviu dele que deveria “pedir demissão”. Respondeu: “O senhor que me demita”.

Depois disso, o ministro declarou a aliados que a situação tinha se tornado “insustentável” e ele aguardava a carta de demissão. 

No último dia 6, Mandetta teve uma reunião tensa com Bolsonaro. Sua demissão era dada como certa, mas a pressão política segurou a “caneta” do presidente. Ao dizer que ficaria no cargo, no dia, o democrata reforçou publicamente o discurso de que “médico não abandona o paciente”.

“Aprendi com meus mestres que médico não abandona paciente. Já cansei de estar no plantão e o plantonista não parecer e eu ficar 24 horas dentro do hospital. Já passei Natal dentro de hospital com filho pequeno em casa e mulher esperando. O foco é no serviço, no trabalho”, disse.

No mesmo dia, Mandetta afirmou, de forma indireta, que a tensão política com Bolsonaro atrapalhava o trabalho da pasta. “Hoje foi um dia que rendeu muito pouco o trabalho no ministério”, disse. “Ficou todo mundo com cabeça avoada se eu iria permanecer”, completou em referência a funcionários que chegaram a esvaziar gavetas e prometeram deixar a pasta caso o democrata fosse demitido.  

O ministro resistiu aos ataques do Planalto nas últimas semanas e pessoas próximas ao democrata afirmaram ao HuffPost que ele não pediria demissão e pretendia se manter firme no cargo até o fim da crise sanitária. 

ASSOCIATED PRESS
Mandetta tentou conciliar medidas para evitar colapso do SUS com exigências do presidente.

Mudança na postura

No início, o ministro tentou equilibrar o discurso de Bolsonaro contra o isolamento e as diretrizes corretas no combate ao coronavírus. Chegou a adotar um tom mais político, reforçando que o protagonismo no comando do País é do presidente e com algumas críticas à imprensa.

Em 24 de março ele criticou o “travamento absoluto” do Brasil e defendeu ajustes por parte dos governadores. “Esse travamento absoluto do País para a saúde é péssimo. Eu continuo precisando de pré-natal. Tem médico fechando consultório. Daqui a pouco, eu estou lá cuidando de um vírus e cadê o meu pré-natal? Cadê o cara que está fazendo a quimioterapia? Cadê o pessoal que está precisando fazer o diagnóstico? Cadê as clínicas de ultrassom?”, disse após se reunir, por videoconferências, no Palácio do Planalto, com o presidente e com governadores.

Após ser pressionado por secretários de Saúde, contudo, Mandetta passou a confrontar as opiniões do chefe. Em 28 de março, ele pediu à população que ficasse em casa para se proteger do coronavírus. Um dia depois, Bolsonaro ignorou a orientação do ministro e foi às ruas de Brasília e cidades satélites do Distrito Federal cumprimentar comerciantes.

Com Bolsonaro enfrentando Mandetta, o presidente havia perdido apoio dentro do próprio governo. Militares buscaram o vice-presidente Hamilton Mourão para expressar preocupação e apoio. Auxiliares de Bolsonaro no Planalto e pela Esplanada avaliaram que o presidente estava esticando a corda para além do limite.

Em 31 de março, o presidente voltou à televisão com um tom mais moderado, sem fazer qualquer menção a isolamento. ‘Fragilizado’ e ‘sozinho’ no próprio governo, se viu obrigado a mudar discurso. Mas no dia seguinte, voltou à retórica de sempre nas redes sociais.

Andressa Anholete via Getty Images
Luiz Henrique Mandetta foi demitido após série de confrontos com o chefe.
 

O apoio político de Mandetta

Mandetta contava com o apoio de diversos políticos da base e da oposição. O líder do DEM na Câmara dos Deputados, Efraim Filho (PB), disse que o ministro “tem sido um herói no enfrentamento à pandemia”, em resposta à crítica de Bolsonaro sobre a “falta de humildade” do subordinado.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) chegou a afirmar que Bolsonaro “não tinha coragem de tirar o ministro e mudar oficialmente a política de enfrentamento à pandemia”.

Mandetta chegou ao governo após conquistar a simpatia da cúpula do DEM, com ajuda determinante do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e do atual ministro da Cidadania, Onyx Lorenzoni. Ele integra ainda o grupo político da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, e tinha aval da bancada ruralista.

O ortopedista também contava com apoio interno na pasta e de secretários estaduais de Saúde e da Associação Médica Brasileira.

Com o acirramento da pressão, integrantes do DEM, partido ao qual Mandetta é filiado, se dividiram sobre a saída do governo. Parte defendeu a demissão e parte apoiava que ele continuasse tentando manter um discurso técnico, quando possível, ao mesmo tempo que adotava uma retórica mais política, para agradar o presidente.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost