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14/04/2020 18:17 -03

'A gente continua trabalhando', diz Mandetta sobre permanência no Ministério da Saúde

Ministro afirmou que desconforto no governo após entrevista ao Fantástico foi ‘questão de comunicação’.

Após semanas de confrontos políticos com o presidente Jair Bolsonaro sobre a condução do enfrentamento à pandemia de covid-19, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, disse mais uma vez que continua no cargo. “A gente continua trabalhando”, afirmou nesta terça-feira (14), ao ser questionado por jornalistas em coletiva de imprensa. Ele repetiu o lema “foco, disciplina e ciência” e disse que o inimigo é o coronavírus.

De acordo com Mandetta, há uma tensão geral. “Não é uma questão do Ministério da Saúde. É o planeta Terra inteiro. É uma coisa que vai estar escrita nos livros de História para o resto da vida da humanidade como algo que foi dramático. A gente sabe bem o tamanho da nossa responsabilidade. Vamos trabalhar”, comparou.

Questionado sobre desconfortos na cúpula do governo devido à entrevista que concedeu ao Fantástico no domingo (12), o ministro negou que tenha sido uma provocação ao presidente. “Não vejo nesse sentido, não. É mais uma questão de comunicação, nada além disso”, afirmou.

Sem citar nominalmente o presidente Jair Bolsonaro, o ministro disse à TV Globo que a falta de uma “fala única” do governo acaba gerando uma dubiedade para o brasileiro. “Ele não sabe se ele escuta o ministro da Saúde, se ele escuta o presidente, quem é que ele escuta”, destacou Mandetta.

A intenção era confrontar as recentes atitudes de Bolsonaro, que na Sexta-feira Santa promoveu aglomeração, coçou o nariz e depois cumprimentou apoiadores — entre eles, uma idosa (integrante do grupo de risco da doença). Um dia antes, foi a padaria e posou com fãs.

Mandetta deu uma indireta ao presidente na TV Globo: “Quando você vê as pessoas entrando em padaria, entrando em supermercado, fazendo filas uma atrás da outra, encostadas, grudadas, pessoas fazendo piquenique em parque, isso é claramente uma coisa equivocada”.

EVARISTO SA via Getty Images
Mandetta: Coronavírus "é uma coisa que vai estar escrita nos livros de História para o resto da vida da humanidade como algo que foi dramático".

A queda de braço se acirrou devido à pressão de Bolsonaro contra o isolamento social — prática defendida por Mandetta, apregoada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e infectologistas do mundo inteiro e defendida pela maioria dos líderes internacionais, inclusive o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ídolo do mandatário brasileiro.

O tom usado pelo ministro na entrevista foi criticado pela cúpula do Planalto. Militares entenderam a entrevista como uma insubordinação de Mandetta a Bolsonaro. O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, foi o único a tentar colocar panos quentes.

No início da semana passada, Mandetta teve uma reunião tensa com Bolsonaro. Sua demissão era dada como certa, mas a pressão política segurou a “caneta” do presidente.