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28/03/2020 21:06 -03

Mandetta confronta opiniões de Bolsonaro e pede que população fique em casa

Ministro da Saúde mandou uma série de recados políticos e criticou carreatas que pedem reabertura do comércio.

Andressa Anholete via Getty Images
Ministro da Saúde defendeu isolamento social e criticou carretas que pedem reabertura de comércio. 

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, fez um discurso distanciando-se do chefe neste sábado (28) na coletiva à imprensa para atualização diária da situação do coronavírus no País. Não só defendeu o isolamento social, como fez críticas às carreatas que ocorrem pelo Brasil desde sexta (27) pedindo reabertura de comércio, e chegou a mandar um recado à ala radical do governo e a quem minimiza o vírus, inclusive o próprio mandatário. 

“Eu espero e rezo para que aqueles que falam que não vai ser nada, que vai ser só… só… só um pequeno estresse, que isso passa logo e acaba, rezo todo dia para que estejam corretos nas suas avaliações”, afirmou Mandetta. 

Em um pronunciamento em rede nacional na terça-feira (24), Bolsonaro criticou as medidas para conter o coronavírus que vem sendo tomadas por governadores e prefeitos em todo o País. O presidente tem afirmado que a economia vai sofrer com fechamento de comércio e que trabalhadores informais ficarão sem comida, tornando o isolamento social impossível. 

Ao falar por pouco mais de uma hora, o ministro só mencionou nominalmente o ministro Tarcísio Gomes (Infraestrutura) ao referir-se à necessidade de organização logística no País, ao falar do trabalho que o colega vem implementando para organizar as entregas de insumos de saúde por estradas e aeroportos, em especial. 

Ao chefe, dirigiu-se somente no fim, quando também escalonou o Ministério da Economia, sem contudo tratar do chefe daquela pasta, Paulo Guedes. “O presidente está certíssimo quando fala que a crise econômica vai matar as pessoas. As pessoas não aguentarão a fome. Está certíssimo. E nós estamos 100% engajados em achar a solução junto com a equipe econômica”, disse Mandetta.

Ao pedir que a imprensa não “pinçaasse” um trecho de seu discurso para servir de “manchete de jornais”, Mandetta destacou que entende de política. 

A modulação no tom em relação ao que se viu durante a semana, em especial após a fala de Jair Bolsonaro ao País, deve-se a uma série críticas que o ministro recebeu desde então, em especial de aliados, governadores e secretários de saúde. 

Durante a semana, ele teve uma postura mais amena e evitou falar com clareza sobre as orientações do Ministério da Saúde a respeito do que a população deveria fazer. Isso ocorreu depois de ser emparedado por Jair Bolsonaro, que sentiu ciúmes do protagonismo do subordinado na crise do coronavírus. Segundo a colunista Bela Megale, do jornal O Globo, também o filho do presidente Carlos teve uma conversa informal com o ministro

Antes da coletiva à imprensa na qual Mandetta mandou inúmeros recados, em uma reunião no Palácio da Alvorada com ministros tentou-se definir um único discurso, com entendimento de que houve “bateção de cabeça” na última semana. Os auxiliares também pediram ao presidente que evitasse novos pronunciamentos, como, fala-se nos bastidores, já se estava nos planos de Bolsonaro. 

Contudo, segundo fontes ouvidas pelo HuffPost após a fala de Mandetta, o tom dele veio acima do esperado pelo clã bolsonarista e surpreendeu até colegas da Esplanada. Não se esperava que o ministro rebatesse ponto a ponto o que vem sido dito pelo presidente em suas redes sociais, menos ainda o que ele afirmou à nação na terça. 

Compare o que o presidente disse no pronunciamento, com o que afirmou Luiz Henrique Mandetta neste sábado: 

O sustento das famílias deve ser preservado. Devemos, sim, voltar à normalidade. Algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, como proibição de transporte, fechamento de comércio e confinamento em massa.presidente Jair Bolsonaro

Luiz Henrique Mandetta: Pedimos à sociedade. Que comporte-se. Prevaleça, primeiro, a lei, do bom senso. As carreatas, não é hora agora. Os mesmos que fizerem, serão os mesmos que estarão em casa daqui duas semanas.

O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas? Raros são os casos fatais de pessoas sãs, com menos de 40 anos de idade. 90% de nós não teremos qualquer manifestação caso se contamine.presidente Jair Bolsonaro

Luiz Henrique Mandetta: As crianças, muitas das vezes assintomáticas, vão voltar para casa e levar o vírus.

No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico daquela conhecida televisão.presidente Jair Bolsonaro

Luiz Henrique Mandetta: Ainda não dá para falar pra liberar todo mundo pra sair, porque ainda não conseguimos chegar com todo o equipamento. Esta epidemia é totalmente diferente da H1N1 e há uma diferença enorme. Naquela, havia medicamento que todo mundo tinha na mão, havia diferença porque tinha perspectiva de vacina. Não há receita de bolo.

Enquanto estou falando, o mundo busca um tratamento para a doença. O FDA americano e o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, buscam a comprovação da eficácia da cloroquina no tratamento do Covid-19. Nosso governo tem recebido notícias positivas sobre este remédio fabricado no Brasil e largamente utilizado no combate à malária, lúpus e artrite.presidente Jair Bolsonaro

Luiz Henrique Mandetta: [Uso de cloroquina] Não é panacéia, não veio para salvar a humanidade. É um estudo incipiente que está sendo feito mundo afora. Por que não abre para o cara que está no primeiro dia? Se tomada [cloroquina], pode dar arritmia cardíaca e paralisar a função do fígado. Poderíamos ter mais mortes por mal uso do medicamento do que pela virose.