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12/04/2020 03:00 -03 | Atualizado 12/04/2020 10:04 -03

Dificuldade em aderir ao isolamento coloca Manaus como exemplo negativo no combate à covid-19

Com sistema de saúde em colapso, capital do Amazonas pode ser a primeira cidade do País a exigir medidas restritivas mais rígidas, como o bloqueio total.

O sistema de saúde em Manaus está em alerta máximo, sobrecarregado por causa da pandemia do novo coronavírus. A capital do Amazonas, que concentra os casos de covil-19 no estado, reúne os ingredientes para o colapso: estrutura hospitalar limitada e crescimento acelerado do número de infecções.

A taxa de ocupação dos leitos do estado chegou a 91%, segundo dados do governo, e o número de casos quintuplicou nos primeiros dez dias deste mês — um aumento vertiginoso. Para se ter ideia, em todo o País, no mesmo período, o número de casos dobrou. Até sábado (11), o Amazonas contabilizava 1.050 casos, com 53 mortes.

Enquanto o número de mortes quadruplicou nos primeiros dias deste mês no Brasil, o Amazonas viu seu indicador aumentar quase 18 vezes— eram 3 no dia 1º. O coeficiente de incidência da doença no estado é o mais alto do País, 250 a cada 1 milhão de habitantes — 2,5 vezes a mais que a média nacional de 98 por 1 milhão de habitantes.

Um dos fatores que têm impulsionado esse cenário trágico no estado é a dificuldade de adesão ao isolamento social. Manaus, que acumula o maior número de casos do estado, foi a cidade que registrou maior queda do distanciamento entre as capitais. O índice caiu de 64,2% no dia 29 de março para 49,9% na última terça (7). A variação, apurada pela empresa In Loco, pode representar um aumento de mais de 17 mil pessoas nas ruas.

A cidade, de acordo com o Ministério da Saúde, deve evitar afrouxar qualquer medida de isolamento. Manaus, pode, inclusive ser a primeira do País a adotar medidas mais rígidas. “A realidade de Manaus hoje talvez seja a mais próxima de uma tomada de decisão mais incisiva, caso a população permaneça não aderindo as orientações das autoridades de Saúde locais”, diz o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira.

Ele ressalta que o local convive com duas epidemias ao mesmo tempo. “Estamos vendo uma sobreposição de duas epidemias, a de coronavírus junto com a de influenza e outros vírus respiratórios.” Influenza, rinovírus e outros vírus respiratórios, de acordo com ele, são comuns nesta época do ano na região Norte do País.

Entre as medidas que podem ser tomadas está o lockdown, no qual ficam abertos somente os serviços essenciais, como supermercado, farmácia e aqueles para sobrevivência e manutenção da ordem social, mas com restrição mais intensa do acesso a esses serviços.

“A diferença entre o distanciamento social ampliado e o bloqueio total é que no bloqueio total há o cerceamento, a polícia, na saída de uma cidade ou um bairro”, diz o secretário. Ele ressalta que este tipo rígido de bloqueio ainda não foi adotado em nenhum local do Brasil.

Miguel Schincariol via Getty Images
Em todo o País o número de casos confirmados da covid-19 passa de 20 mil, com 1.124 mortes registradas.

De acordo com o secretário-executivo da pasta, João Gabbardo, a curva de casos na cidade está muito próxima da linha de atendimento. “Chegamos em um ponto em que se não tomarmos nenhuma medida o número de casos vai ultrapassar nossa capacidade de atendimento e aí não vai ter leito, não vai ter respirador e as pessoas poderão ficar desassistididas”, alerta. 

Para que a cidade não chegue a esse ponto, o governo prevê reforçar medidas de contenção social e também aumentar a capacidade de atendimento. Foi determinada liberação de recursos para construção de um hospital de campanha e também será liberada verba para que o hospital de referência no atendimento da covil-19, o Delphina Aziz, amplie sua capacidade em 350 leitos.

Gabbardo acrescenta que Manaus recebeu 20 respiradores e vai receber outros 20; que médicos intensivistas de outras cidades do País, onde o número de casos ainda está tranquilo, vão ajudar no atendimento de pacientes. A cidade vai colocar o Amazonas como o primeiro estado em que voluntários, médicos e enfermeiros, serão convocados para incrementar o atendimento. “Se a gente não conseguir achatar a curva, vamos tentar elevar nossa capacidade de atendimento”, diz.

Por outro lado, a maneira mais efetiva de achatar a curva, segundo o secretário de Vigilância da pasta, é reforçar o distanciamento social, lavar as mãos com frequência, cobrir rosto ao tossir, usar máscara e ficar em casa se estiver doente. “Higiene e distanciamento social são as únicas e mais eficientes armas que dispomos no momento”, diz Oliveira.

Higiene e distanciamento social são as únicas e mais eficientes armas que dispomos no momento.Wanderson Oliveira, secretário em Vigilância de Saúde

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, tem feito apelos constantes para a população ficar em casa. Neste sábado (11), ele intensificou o pedido. “Ficar em casa não é um gesto de covardia, é um gesto de coragem, de sabedoria, de persistir e acreditar que vamos usar a tática correta para deixar o vírus longe de nós.” Sair às ruas, na avaliação dele, é “um gesto de destempero, de desamor pela vida”. “Coloque a faca nos dentes e resista”, completou.

Virgílio ressaltou que o ministro Luiz Henrique Mandetta relacionou a cidade entre as que resistem em alguns de seus bairros à necessidade do recolhimento à casa para evitar propagação do vírus e que mais pessoas adoeçam. “Abrir tudo é um gesto irresponsável, achando que com isso o crescimento econômico volta, mas mais pessoas adoecem e mais demorada ficará restauração”, ressalta.

O colapso no sistema de Manaus é um alerta para outras cidades do País. De acordo com boletim diário do Ministério da Saúde divulgado no sábado (11), há outros quatro estados, além do Distrito Federal, em emergência. O DF, Amapá, São Paulo, Ceará e o Rio de Janeiro também estão com coeficiente de incidência da covid-19 em 50% acima da média nacional.

Além de Manaus, o secretário em Vigilância do ministério destacou que as medidas de isolamento não podem ser afrouxadas em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza. Caso façam isso, esses municípios podem precisar de medidas drásticas de restrição como o lockdown. Cabem aos gestores locais decidir quais medidas tomar e quanto aperta-las ou afrouxa-las.

Em São Paulo, o prefeito Bruno Covas avalia a possibilidade de fechar ruas, praças e avenidas para evitar que as pessoas continuem saindo de casa. O governador João Doria também tem afirmado que se o índice de isolamento não elevar, medidas mais rígidas serão tomadas. Para que seja efetivo no estado, o isolamento tem que ter taxa acima de 60%, mas este índice vem caindo. Levantamento do governo mostra que no domingo (5) atingiu o ápice de 59%, mas teve queda e está em 49%.

Em todo o País o número de casos confirmados da covid-19 passa de 20 mil, com 1.124 mortes registradas.