OPINIÃO
06/04/2020 11:15 -03 | Atualizado 06/04/2020 11:20 -03

Bate-papo com as Five: Malhação Viva a Diferença retorna como 'esquenta' para nova série

“As áreas mais relegadas e sucateadas pelo governo estão sendo as mais importantes nessa quarentena”, afirma Gabriela Medvedovski.

Ramon Vasconellos/TV Globo
Gabriela Medvedovski (Keyla), Ana Hikari (Tina), Heslaine Vieira (Ellen), Daphne Bozaski (Benê) e Manoela Aliperti (Lica): as Five. 

A Globo reestreia nesta segunda-feira (6) a temporada Viva a Diferença de Malhação, originalmente exibida entre 2017 e 2018. Escrita por Cao Hamburger, com direção artística de Paulo Silvestrini, a novela foi um dos maiores sucessos da TV dos últimos tempos, vencedora do prêmio Emmy Internacional Kids 2018. Ainda sem data confirmada, o Globoplay lançará um spin-off: As Five, sobre o destino das cinco protagonistas com uma passagem de tempo.

A convite da Globo, participei de um bate-papo virtual com as cinco protagonistas - Ana Hikari (Tina), Daphne Bozaski (Benê), Gabriela Medvedovski (Keyla), Heslaine Vieira (Ellen) e Manoela Aliperti (Lica) - em que elas responderam perguntas minhas e de outros jornalistas, de vários meios de comunicação. Seguem algumas perguntas feitas e extratos mais relevantes das respostas.

Passaram-se dois anos desde que Viva a Diferença terminou. Na época vocês estavam embevecidas pelo sucesso do programa, talvez a ficha não tenha caído naquele momento. Depois de dois anos, como vocês enxergam hoje - mais maduras inclusive - o sucesso do programa e a importância dele na televisão e em suas vidas?

Gabriela: A gente foi entendendo essa responsabilidade e recebendo as respostas. Vieram os prêmios, a série, e fomos entendendo o que era a gente estar falando do nosso próprio tempo e que isso vira documento, que as cenas que gravamos são eternizadas na tela. Então era muito importante compreender que o dia que a gente chegava no set para trabalhar era o que ia ficar registrado. Fomos entendendo a responsabilidade da entrega de nosso trabalho e da dimensão de que isso tudo fica registrado.

Ana: Na época, não tínhamos a visão completa da novela, mas acho que a gente conseguia minimamente entender no que estava inserida. Recebíamos os capítulos e falávamos, caramba, tá contando a nossa história, tá falando da nossa realidade!

Daphne: Acho que cada vez mais que o tempo vai passando, a gente fala, nossa, estávamos ali tão envolvidos e hoje consigo ver o tamanho, responsabilidade e importância que isso teve na vida de todas nós.

Divulgação/TV Globo
Cena do parto de Keyla (Gabriela Medvedovski) em "Malhação". 

Qual a importância do audiovisual nesse momento de isolamento social?

Gabriela: Acho que as áreas mais relegadas e sucateadas pelo governo estão sendo as mais importantes nessa quarentena. Quem não está consumindo arte, audiovisual, série, música? E quem não está torcendo para que a ciência encontre uma solução para a pandemia? Estamos falando de pesquisadores que tiveram bolsas do Capes cortadas nos últimos anos. Tem gente que está atrás da solução para a pandemia, mas quando se corta a bolsa dessas pessoas ninguém se impõe, ninguém se posiciona. Acho que a pandemia está sendo uma baita lição sobre essas áreas que no cotidiano não são valorizadas.

Qual o aprendizado tiraram e o que esperam tirar revendo a novela?

Manoela: Reflexão. Novela trata de assuntos muito relevantes de nosso tempo e atemporais. Então rever vai ser importante porque nesses últimos dois anos não somos mais as mesmas. As personagens também.

Gabriela: A demanda de trabalho era muito intensa, quase todos os dia da semana, quase todas horas possíveis. Mas isso foi bom porque foi uma escola e aprendemos muito. E o ambiente de trabalho era muito propício para o aprendizado. Eu, particularmente, nunca tinha trabalhado com audiovisual. Então para mim foi importante porque me transformou como artista e profissionalmente. Foi minha escola.

Daphne: Acho que quando gravávamos a novela, tínhamos a preocupação de fazer bem feito, se a cena tinha ficado boa. Então, a gente se cobrava muito. Acho que agora, não temos essa reponsabilidade. Mas acho que vamos acabar nos julgando do mesmo jeito. E sem poder mudar.

Ana: Para mim vai ser uma baita exercício de autoestima porque eu me julgo muito.

Reprodução
Os personagens Anderson (Juan Paiva) e Ellen (Heslaine Vieira).

Há características que aprenderam com suas personagens que vocês carregam hoje?

Heslaine: Ellen era bem observadora. Por conta do contexto em que ela vivia, ela aprendeu a ouvir mais do que falar. Para mim é bem difícil! (risos)

Daphne: Benê era de um universo que eu não tinha nenhum contato. Eu tinha uma visão caricata do autismo, de ser algo grave, em que a pessoa não consegue falar ou se desenvolver. Benê era uma autista de alta funcionalidade, que conseguia trabalhar, estar na sociedade, ter amigos e se relacionar amorosamente. Acho que quebrei um grande preconceito e aprendi a lidar com as diferenças das outras pessoas (depois de estar nesse lugar em que as pessoas te olham com essa diferença). Acho que consegui ter esse olhar menos julgador e mais aberto.

Ana: Existe algo que só fui entender de uns anos para cá: de que existe uma negação de descendentes asiáticos no ocidente, de negar as suas origens, por aceitação ou preconceito. Apesar de minha descendência, eu não entendia nada de cultura japonesa, não conhecia música, k-pop, nada. Fui pesquisar por conta da Tina. Aprendi que não precisava negar as minhas origens como passei tanto tempo negando. Foi um aprendizado não só cultural, mas também pessoal.

Manoela: Lica me deixou sua determinação, no fato de ela ir atrás do que acreditava sem se importar com a opinião dos outros.

Reprodução
"Limanta": Lica (Manoela Aliperti) e Samanta (Giovanna Grigio).

Quais qualidades vocês acham importantes na vida real para que cada jovem seja protagonista de sua própria vida?

Gabriela: Como mulheres, vivemos numa sociedade machista, criadas dentro de padrões patriarcais. Ser mulher é saber que todo dia você passará por batalhas, que é cerceada, que tem dificuldade de ser ouvida. Ser protagonista feminina é mostrar uma força importante, dar luz a um assunto que já é tendência, já que cada vez mais falamos do papel da mulher. O fato de serem cinco meninas protagonistas é apropriar de um discurso e mostrar que somos capazes de mostrar nossas próprias histórias.

Manoela: O que mais me atraiu na Lica foi o desprendimento que ela tinha com a vida. É uma característica muito importante para caminhar de forma verdadeira e confiante. A determinação faz com que a gente acredite mais em nós mesmas, independente do que os outros falam.

Heslaine: Ellen vinha de uma família matriarcal, criada pela avó e mãe, e de outro contexto social. O fato de Ellen escolher abandonar certos padrões, no sentido de ir no contraponto da Lica, também é um ato de libertação muito grande, uma atitude firme de posicionamento.

Ana: Sobre Tina, o fato de ela ter de lutar muito pelo que acreditava era importante para que outras meninas se inspirassem. Ela vinha de um contexto muito tradicional. A cultura asiática tem um rigor, principalmente sobre as mulheres, e Tina trazia esse posicionamento, esse lugar de quebrar o silêncio e se posicionar. Acho que ela foi inspiração tanto para mim quanto para muitas meninas.

O grupo das Five existe entre vocês, por meio de uma rede social, ou um grupo, para saírem juntas, por exemplo?

Daphne: Existe: é o grupo Amigas das Five. Ficamos um ano gravando juntas e convivendo. Depois da novela, não tinha como separar. Temos a nossa cumplicidade e as nossas diferenças. Nesse grupo falamos de muitas coisas, sobre a nossa vida, sobre trabalho.