MULHERES
24/03/2019 11:28 -03 | Atualizado 24/03/2019 11:30 -03

Malala conta em livro que aprendeu o que é ser ‘lutadora’ com garotas da América Latina

Leia com exclusividade trecho de "Longe de Casa - Minha Jornada e Histórias de Refugiadas pelo Mundo", novo livro da ativista Malala Yousafzai.

Divulgação/MalalaFund/Alicia Vera
Malala ao lado de María, em foto de divulgação publicada no site da ONG Malala Fund. As duas se conheceram em 2017, no México. 
Aprendi o que significava ser obrigada a migrar ainda pequena, embora não conhecesse o termo oficial.María

A frase acima é de María, jovem colombiana que, diante da violência de seu país ― que culminou no assassinato de seu pai ― se transformou em uma “deslocada interna” ― termo usado para designar refugiados que não cruzaram fronteiras, mas são obrigados a deixar suas casas e se realocam dentro do próprio país.

Ela conta que lembranças de sua infância não “tiveram a chance de se enraizar”. Quando María tinha 4 anos, seu pai foi assassinado e sua mãe, por medo, levou sua família de Iscuandé, na região rural de Nariño, para Cali, segunda maior cidade colombiana, buscando uma vida segura e livre de ameaças.

“Não entendia por que não podíamos voltar para casa. Não entendia que não tínhamos mais casa”, ela lembra em depoimento para o livro Longe de Casa - Minha Jornada e Histórias de Refugiadas pelo Mundo,da ativista paquistanesa Malala Yousafzai, lançado no Brasil pelo Seguinte, selo da Cia. das Letras.

No livro, a mais jovem ganhadora do prêmio Nobel da Paz amplifica voz a outras 11 garotas, do Oriente Médio à América Latina que, assim como ela, tiveram que deixar para trás o único lar que conheciam. Elas fazem parte das cerca de 70 milhões de pessoas em situação de refúgio no mundo, segundo dados da ACNUR (Agência da ONU para Refugiados).

O ativismo de Malala

Foi em 9 de outubro de 2012 que tudo mudou. Malala voltava para casa em um ônibus escolar depois de um dia letivo, ao lado de outras meninas, e foi alvo de um ataque a tiros por membros do Talibã. À época a jovem morava no Vale do Swat, uma região no norte do Paquistão, e defendia publicamente, em um blog, o direito à educação para meninas em seu país ― pensamento que os talibãs não compartilham.

 

Malala foi atingida na cabeça em um atentado que chocou o Paquistão e o mundo. Com a repercussão, entidades internacionais foram acionadas e ela foi retirada de seu país ao lado de sua família e levada ao Reino Unido. Em uma cirurgia de sucesso, médicos conseguiram salvar a vida de Malala que, hoje, terminou o ensino médio e estuda filosofia, política e economia na Universidade de Oxford.

 

Recentemente, cercada por um forte esquema de segurança, a menina que hoje é uma das maiores ativistas mundiais, retornou ao seu país de origem. “Meu sonho se tornou realidade”, escreveu em texto publicado no site do Fundo Malala. “Quando eu não voltei para casa da escola naquele dia em 2012, minha mãe se perguntou se eu um dia veria meu quarto de novo, se ela um dia teria um momento quieto com sua filha em nossa casa”.

 

Hoje, a história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã virou símbolo.

Malala justifica que o livro é importante porque “muitas pessoas não sabem que refugiados são pessoas comuns” e que o que os diferencia é “o fato de que se viram em meio a um conflito que os forçou a deixar seu lar, as pessoas que amavam e a vida que conheciam” por ser uma questão de vida ou morte.

A paquistanesa visitou uma série de campos de refugiados ao longo dos anos, o que a levou a pensar sobre sua própria condição de migrante — primeiro dentro de seu país e depois como ativista internacional, livre para viajar para qualquer lugar, exceto para o Vale do Swat no Paquistão, sua terra natal.

Diferente de Eu sou Malala, seu primeiro livro, escrito em parceria com Christina Lamb, Longe de casa é ao mesmo tempo um compilado de memórias e uma narrativa coletiva em que Malala explora sua própria trajetória de vida e mostra a resiliência e superação de outras garotas como ela pelo mundo.

Divulgação
Livro da ativista paquistanesa Malala Yousafzai, foi lançado neste mês pelo Seguinte, selo da Cia. das Letras.

Em um trecho publicado com exclusividade pelo HuffPost Brasil, está o depoimento de María, a jovem colombiana que Malala conheceu em 2017 e que acredita que “ninguém pode tirar o que está dentro de nós”.

María e sua família pertencem aos 7,2 milhões de pessoas que foram obrigadas a migrar por causa do conflito armado que se desenrola na Colômbia há mais de 40 anos.

“Naquela viagem aprendi uma palavra nova: luchadora. Enquanto no ringue as mulheres lutam pela glória, aquelas meninas que conheci lutam por educação e uma vida melhor”, escreve Malala ao apresentar María ao leitor.

Divulgação/Malala Fund/Alicia Vera

 Leia trecho do livro Longe de Casa:

No verão de 2017, fui para o México e conheci muitas garotas latino-americanas que tinham migrado por causa da violência do crime organizado. Naquela viagem, aprendi uma palavra nova: luchadora. Enquanto no ringue as mulheres lutam pela glória, aquelas meninas que conheci lutam por educação e uma vida melhor.

 

María é uma delas. Ela está entre os 7,2 milhões de pessoas que foram obrigadas a migrar por causa do conflito armado que se desenrola na Colômbia há mais de quarenta anos.

 

Sempre que María se sentia oprimida, criava alguma coisa. Quando tinha dezesseis anos, fez um documentário sobre como é estar longe de casa, porque, segundo me disse, queria que as pessoas vissem como os deslocados internos viviam, como ‘se esforçavam para seguir em frente’.

 

No dia em que a conheci, ela dançou para mim antes de nos despedirmos. Foi breve, mas todas batemos palmas. Quando María sorriu, vi não só a alegria, mas também a determinação e a força que a faziam seguir em frente.”

 (Malala)

 

***

 

Gostaria de me lembrar do meu pai. Tenho dificuldade para vê-lo mesmo quando fecho os olhos. Minhas recordações dele são nebulosas, como fumaça.

 

Cresci perto da costa da Colômbia, numa região rural. Meu pai era fazendeiro. Se queríamos frutas, bastava ir até o quintal colher uma manga, uma laranja ou um chontaduro, nativo da Colômbia. Tínhamos galinhas e porcos, e uma horta de que minha mãe cuidava. Podíamos correr e brincar pelo terreno. É isso que vem à minha mente quando penso em “casa”.

 

Fomos embora quando eu tinha quatro anos, antes de muitas dessas lembranças terem a chance de se enraizar. Tais imagens são baseadas nas descrições dos meus irmãos mais velhos e da minha mãe sobre o que perdemos. Acho que me lembro, mas talvez só recorde o que me contaram.

Posso dizer o mesmo do meu pai. Minha mãe diz que pareço com ele. Temos o mesmo rosto redondo com bochechas cheias, ela insiste. Não lembro muito bem do rosto dele, mas lembro do dia em que deixamos a fazenda.

 

Minha irmã mais velha tinha dezoito anos.

 

- Por que temos que partir? — ela perguntou.

 

- Precisamos procurar trabalho — minha mãe respondeu.

 

Já era tarde, e eu não sabia onde meu pai estava. Minha mãe parecia apressada. Minha irmã perguntou:

 

- E o papai? Cadê ele?

 

- Seu pai precisa ficar. Vai nos encontrar depois.

 

Naquela mesma noite, minha mãe, eu e meus quatro irmãos pegamos um barquinho para atravessar o rio. Íamos depressa, e isso me assustava. Na época, não sabia que estávamos fugindo.

 

Quando finalmente chegamos a Cali, a segunda maior cidade da Colômbia, minha mãe me deu um ursinho de pelúcia branco e disse. 

 

- É do seu pai.

 

Seu rosto parecia pedra.

 

O que ela não estava me contando era que meu pai tinha sido violentamente assassinado um dia antes, e estávamos fugindo porque minha mãe tinha medo de que seríamos os próximos. Ela manteve aquilo em segredo por anos.

 

Não tínhamos para onde ir em Cali. Acabamos num enorme acampamento improvisado, uma cidade de tendas feitas de plástico e qualquer lixo que pudesse ser utilizado como abrigo. Era um dos muitos assentamentos informais que haviam surgido por conta da violência que se espalhava pelo país.

 

Eu odiava viver daquele jeito. Até as coisas mais simples do dia a dia, como escovar os dentes ou lavar as roupas, ficavam difíceis — havia apenas duas torneiras para 800 pessoas. Minha mãe tinha que esperar numa longa fila para conseguir água ou comida.

 

Eu perguntava:

 

- Por que precisamos esperar? Cadê as mangueiras?

 

Não entendia por que não podíamos voltar para casa. Não entendia que não tínhamos mais casa.

 

Minha mãe explicou que as coisas eram diferentes agora. Tínhamos que comprar nossa comida, então ela ia de tenda em tenda se oferecer para lavar roupa em troca de dinheiro.

 

Mesmo aos quatro ou cinco anos, eu sentia a pressão constante da pobreza e a criminalidade que se aproveitava dela, já que gangues controlavam o acampamento. Tiros eram normais, assim como a preocupação com balas perdidas. Para piorar, temos a pele mais escura que outros colombianos e falamos com sotaque do campo. Minha família e eu nos destacávamos, e as pessoas eram horríveis conosco. Éramos tratados pior que animais.

 

Aprendi o que significava ser obrigada a migrar ainda pequena, embora não conhecesse o termo oficial. Foi só depois que deixamos aquele lugar, quando estava com sete anos, que minha mãe finalmente tocou no assunto.

 

- Somos deslocados internos — ela disse. A expressão podia ser nova, mas a sensação não era.

 

Minha mãe aprendera o termo correto por meio de uma organização comunitária para famílias como a nossa. Eles nos ajudaram a nos realocar — fomos para uma casa, que, embora melhor que uma tenda, estava tão detonada que sempre que chovia entrava água.

 

Não reclamamos.

 

Através da organização, minha mãe entrou para um grupo de apoio em que todos compartilhavam suas histórias. Ela inscreveu meus irmãos e eu em um grupo de teatro infantil que se reunia semanalmente.

 

Escrevemos uma peça baseada em nossas histórias. As crianças do grupo tinham chegado de diversas partes da Colômbia, e cada uma contava sua jornada. Embora tivéssemos origens diferentes, nossas narrativas eram similares: todos fomos obrigados a partir porque corríamos o risco de morrer se ficássemos. Então cada um contou uma parte de sua trajetória de maneira a compor a história completa daqueles que estavam longe de casa, ainda que na Colômbia. O título era: Ninguém pode tirar o que está dentro de nós.

 

Depois daquela primeira casa com goteiras, passei por outras oito. Mas nunca me senti “em casa” em nenhum outro lugar além daquele que mantive vivo na minha memória, de quando eu era pequena, antes que meu mundo inteiro mudasse. Embora o governo tenha declarado que a guerra acabou, o lugar que eu chamava de lar ainda é considerado território da guerrilha. Permanece inseguro. Além disso, faz tanto tempo que fugimos que não somos forasteiros apenas em Cali, mas lá também.

 

Então, quando sonho com minha casa, sonho em pegar manga direto do pé. Sonho com tranquilidade e grama. Sonho com paz. E ninguém pode tirar isso de mim. 

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