LGBT
28/06/2020 03:00 -03 | Atualizado 28/06/2020 03:00 -03

O caminho meteórico de Majur: 'Tem mais lugares para chegar, nem saí do País ainda'

Cantora e compositora baiana começou a cantar aos 5 no coral da igreja, foi 'descoberta' nos bares de Salvador e já fez parcerias com Caetano e Pablo Vittar.

“Seja o que quiser ser. O importante é ser você”. Ela toca o teclado enquanto canta com sua voz e presença marcantes. Neste ano, Majur participou da parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo assim, cantando. Ela enviou uma música para o megaevento virtual que foi organizado. Escreveu especialmente para esse dia de manifesto.

“Eu criei uma música para esse momento que estamos passando, acho que nós, LGBTQIA+, precisamos nos enxergar mais para conseguir nossos espaços, porque ainda sinto insegurança do povo LGBTQIA+. A gente luta há muito tempo e são poucos os avanços em relação ao que acontece na sociedade. Conseguimos muita coisa que tem ajudado bastante, mas tem que encorajar as pessoas, motivar, mostrar que existe força e que está dentro da gente”.  

A cantora baiana diz ter se emocionado com a experiência e saber do simbolismo dessa presença. “Além de trazer essa música como forma de motivação, eu também estava representando uma grande parcela, que é o povo preto, as pessoas trans. Foi uma honra muito grande estar nesse lugar e tenho aprendido todos os dias”. 

E tem sido um grande intensivo, realmente. Novidades e aprendizados diários. Majur, hoje com 24 anos, viu a vida mudar e a carreira explodir com grande força há pouco tempo. Ela começou a cantar no coral da igreja evangélica aos 5 anos, mas nessa época estava longe de achar que um dia viveria de música.

Ajudou a mãe a catar material reciclável, vender picolé e brinco na praia, foi expulsa do colégio da PM em que estudava na adolescência (e cantava também no coral) e expandiu os horizontes quando começou a faculdade de design – que abandonou para se dedicar à sua arte. Nesse período, vieram outras mudanças. Passou a se apresentar de forma diferente. Às vezes se refere a si mesma mesma no masculino, às vezes no feminino. Explica que em sua fala isso se mistura mesmo, mas esclarece que prefere que os outros a tratem no feminino e se coloca como uma pessoa trans não binária. 

Thomas Hecht
Majur e sua irmã foram criadas pela mãe, sozinha. Seu pai foi embora quando ela tinha dois anos e nesse período as três se viraram e se ajudaram.

Essa última mudança ocorreu antes de decidir que era de música que tinha que viver – e a começar a se apresentar nos bares de Salvador. Majur chamou a atenção de gente conhecida, empresários e grandes nomes da música.

Hoje, já conta com parcerias e apresentações com Caetano Veloso, Maria Gadú, Liniker, Pablo Vittar, Emicida, entre outros. É agenciada pela Uns Produções e Filmes, produtora de Paula Lavigne (Majur deu uma canja na casa dela e de Caetano e os vídeos feitos por lá circularam com agilidade). Aí foi tudo muito rápido mesmo.

“Eu não tive tempo de ter esse momento e parar para pensar em tudo. Ou eu tomava aquilo na hora e encarava, vestia a camisa, ou poderia ser mais uma pessoa que chegou ali e não deu tudo de si. E eu queria mostrar que eu estava preparada, tinha profissionalismo”.

Ela guardava um pouco da energia para alguns momentos em que extravasava, confessa. “Eu corria para o banheiro para gritar! E pensava ‘estou vendo todos esses cantores, estou na frente de Caetano, minha nossa’, mas eu mantinha essa camisa do profissionalismo e precisava honrar minha oportunidade e conseguir.” 

Talvez o único ponto não tão positivo tenha sido deixar a Bahia. Quer dizer, deixar, não, porque isso não tem como. Não se tira algo que está no sangue. “Minha essência nunca deixará de ser Salvador e venho para recarregar minhas energias. O meu sonho é que Salvador pudesse oportunizar para todas as pessoas o acesso ao mercado da música, porque aqui é um berço da música, somos criados, educados na música, temos essa carga de musicalidade.” 

Majur mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a viajar muito para São Paulo também, cidades com um mercado diferente. Atualmente, em tempos de pandemia, no entanto, não tem feito esse trajeto. Escolheu seu refúgio. “Estou na casa da minha mãe, em Salvador. Foi uma grande mudança de status, de vida. O que me ajudou foi minha religião: sou de candomblé e sempre que estou aqui vou conversar com meus guias para poder tentar colocar minha cabeça no lugar. Não parei desde que saí da minha casa, minha trajetória foi crescente, estou muito feliz. E me fortalece estar aqui e poder respirar. Foi meu segredo de energia”, conta. 

Tem dado certo. E não é de hoje - Majur sempre teve fé, religiosidade e música  presentes em seu dia a dia. “Eu sinto Deus desde criança, e nunca senti que não estava comigo como diziam. Passei anos orando, fazendo jejum, porque a igreja me dizia que estava com demônio no corpo e isso é cruel. Me falaram muita coisa ali durante 7 anos e depois me libertei”, conta.

Mas tinha sido naquele espaço que ela descobriu o palco pela primeira vez. Encantou-se com as apresentações aos 3 e precisou esperar completar 5 anos para integrar o coral religioso. “Foi minha grande base para conhecer música. tive a sensação do que era sentir aquilo, aquele lugar de canal: você canta e troca, passa para as outras pessoas. Aos 13 entrei no colégio da PM e passei para outro coral.” 

Thomas Hecht
Majur começou a cantar no coral da igreja evangélica aos 5 anos, mas nessa época estava longe de achar que um dia viveria de música.

Majur e sua irmã foram criadas pela mãe, sozinha. Seu pai foi embora quando ela tinha dois anos e, nesse período, as três se viraram e se ajudaram. “Eu tenho uma deusa, não tenho uma mãe. Tudo que aprendi, sou, tudo isso é espelho do que essa mulher me criou e construiu comigo.”

A entrada no colégio da PM foi difícil por um lado, mas ajudou Majur em outros. “A educação é incrível. É surreal. Muito melhor do que o colégio público – por isso eu estava lá, por isso minha mãe batalhou para isso, para que eu tivesse acesso a outras coisas. Não me arrependo de nada, mas existem coisas internas… fui expulsa porque não conseguia entrar nos padrões que eles queriam”, diz.

O grande símbolo dessa rebeldia era se recusar a cortar os cabelos. “Descobri que o cabelo cria uma identidade. A pessoa trans, seja homem ou mulher, usa da estética do outro gênero para se entender e se enxergar como pessoa. Eu precisava do cabelo e não entendia porque eu odiava cortar o cabelo. Eu tinha que estar com o cabelo cortado. Fui expulsa do colégio por indisciplina.” 

Aprendeu o que precisava. Assim como na faculdade de design, outra etapa essencial para chegar no lugar que queria. “Quando você é pobre, imagina que a música é muito distante, porque primeiro você tem que sobreviver e, aí, talvez você possa sonhar. Mas não desisti. Fui estudar e descobrir quem eu era, e entendi que era música que eu tinha que fazer e fui muito ousada. Disse que não ia fazer design e ia para as ruas começar a cantar”. E aí a história já é conhecida. 

Atualmente, ela já prepara os novos trabalhos. Assim que possível, vai a São Paulo gravar seu disco. Quer também fazer um vídeo com a música que lançou na parada do Orgulho LGBT+. E é só o começo. “Hoje eu posso dar valor a todo o caminho que tenho trilhado, sempre lembro de tudo que aconteceu e olho onde eu estava e onde estou... e tem mais lugares para chegar, nem saí do país ainda”. Enquanto isso, segue em sua terra, recarregando energias e respirando fundo. Nutrindo sua coragem, e sendo indisciplinada.