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Caroline Lima for HuffPost
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LGBT
17/06/2019 01:00 -03 | Atualizado 24/06/2019 00:36 -03

A busca pelo acolhimento

"Mães de pessoas mortas por LGBTfobia estão com a gente porque não querem que outros pais sofram com essa dor."

Fotos por Caroline Lima

Ela é pura energia. Tem força. Fala com a propriedade de quem tem experiência e não só defende uma causa há anos, como a veste da cabeça aos pés. As cores da bandeira LGBT estão desde o detalhe nos cabelos, passando pelo manto de tricô, até a sapatilha. Ela diz que os acessórios são novos, mas que sempre se entendeu como uma mãe aliada da diversidade.

“Eu me achava descolada, só que não adiantou nada. Na hora em que ele [seu filho] me falou [que era gay], o chão se abriu embaixo de mim, por mais que eu já soubesse. Eu senti medo. Ele já foi espancado duas vezes.” André Giorgi contou para a mãe, aos 14 anos, que era homossexual.

O amor e medo passaram então a mover Maju Giorgi, de 53 anos. Ela transformou o pavor de perder seu filho para a violência em força para mudar a vida de LGBTs, conversando com outras mães.

Uma luta que é coletiva, ela deixa claro. Há cerca de 8 anos, ela coordena e tem o título de presidente do coletivo nacional “Mães pela Diversidade”. O que começou com uma única mulher hoje soma um exército de cerca de 2 mil mães envolvidas nas 27 unidades da federação. “Eu não quero que ninguém passe pelo que eu passei”, afirma.

Em sua maioria, o coletivo é composto por mães de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, além de outras famílias que perderam seus filhos para a LGBTfobia. ”É transformar o luto em luta. Essas mães fazem isso. Elas estão com a gente porque não querem que outras mães sofram o que elas sofreram”, diz Maju.

Ela cita como exemplo Angélica Ivo, uma dessas mães. Em 2010, Alexandre Ivo, de apenas 14 anos, foi encontrado morto, com sinais de tortura e o rosto desfigurado, em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Ele foi atacado por defender amigos gays. O crime ganhou repercussão internacional e, em 2013, virou objeto do documentário Out There, da BBC, dirigido por Stephen Fry.

É para que outros filhos não sejam vítimas de violência que Maju e tantas outras mães seguem trabalhando. A ideia principal é que toda mudança tenha início dentro de casa, para que o lugar seja de acolhimento, e não de rejeição.

“A primeira coisa que eu fiz quando ele [o filho] me contou, foi acolhê-lo. Depois disse pra ele ficar tranquilo. Fui até a casa da minha mãe e disse para todo mundo: ‘Meu filho é gay e nenhum preconceito será tolerado’”, lembra.

Ela conta que sempre se entendeu como feminista e que sua família não relutou em acolher André. “Meu marido demorou um pouco. Ele dizia: ‘não precisa falar pra todo mundo, né?’, mas depois isso passou e hoje os dois têm uma relação muito próxima.”

A tarefa de cada integrante do “Mães pela Diversidade” é ser uma multiplicadora dessa postura inclusiva. ”A missão da que chega é arrumar outra, porque assim, cada vez mais, a nossa voz vai crescer”.

A dor como motor

Maju sabe da importância de seu trabalho porque já viveu na pele a dor de ver um filho ser espancado por ser gay. André saía de um pré-carnaval, sozinho, vestido com uma calça colada ao corpo quando dois homens o abordaram e o agrediram com chutes. A família atribui a violência às roupas que o jovem usava, que o “denunciaram”.

“Foi há mais ou menos 2 anos, quando ele estava saindo de um pré-Carnaval na [avenida] Paulista. A sorte é que sempre aparece um anjo. Um motorista de táxi gritou que tinha chamado a polícia e os agressores correram. Ele chegou em casa muito machucado.”

Maju conta que seu filho não quis prestar queixa na delegacia. ”É como acontece com as mulheres [vítimas de violência doméstica]. Por que ir até um lugar que vai te fazer passar, novamente, por uma violência? Como ele ia provar que estava parado e começaram a bater nele por ele ser gay?”, diz.

Essa foi a segunda vez que André foi alvo de violência. Na primeira, conta Maju, ele estava com o então marido na praia da Pipa, no Rio Grande do Norte. “Cinco caras pegaram os dois, na praia. Assim, gratuitamente. Chegaram falando um monte de coisas pros dois e partiram pra agressão”, lembra.

O caso de André, que preferiu não prestar queixa em nenhum dos casos, está longe de ser uma exceção. Pela falta de denúncias e de políticas públicas, os dados que tendem a medir a LGBTfobia com um pouco mais de precisão não são oficiais.

O Grupo Gay da Bahia, que elabora um relatório há 38 anos com base em notícias de jornais, mostra que, em 2017, foi registrado o maior número de mortes relacionadas à LGBTfobia. Segundo o levantamento, 445 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais foram mortos em crimes motivados por discriminação LGBTfóbica naquele ano - o equivalente a uma vítima a cada 19 horas.

Para falar abertamente sobre a proximidade entre os dados e a vivência de pessoas LGBTs, foram criados grupos de apoio em cada estado em que o coletivo está presente. Neles, não só mães, mas outros integrantes da família aprendem a como dar suporte a quem é LGBT e também a lidar individualmente com a questão.

“Precisei criar um núcleo de psicologia no ‘Mães’. Existem muitas mães que passam por diversas questões e processos longuíssimos. E eu entendo demais. O meu chão também se abriu. Meu filho ia para a balada e eu ficava dando voltas no quarteirão até ele sair. Eu simplesmente enlouqueci. Eu precisava protegê-lo e coloquei ele em uma redoma.”

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"É transformar o luto em luta. Essas mães fazem isso. Elas estão com a gente porque não querem que outras mães sofram o que elas sofreram."

Redoma esta em que outras mães também colocam seus filhos. E buscam cada vez mais espaços em que possam falar sobre seus medos e jeitos de mudar a realidade de forma franca e segura.

“Se eu faço uma chamada nas redes sociais, pelo menos 40 mães vêm falar com a gente, demonstram interesse, querem participar. E acho que isso acontece também porque o ‘Mães’ está ficando cada vez mais conhecido.”

Junto com as mães, pais também começaram a se aproximar. “Começamos a fazer eventos mais atrativos. Churrascos, karaokês… E os pais também começaram a aparecer”. Um deles, o jornalista e apresentador Marcelo Tas, pai de um jovem transexual. 

Por esta razão, ela conta que já pensou em mudar o nome do movimento para “Família” ou “Pais” pela diversidade. Mas manter o elemento “mãe” também vem carregado de estratégia. Para ela, a premissa de que, na figura de mãe, será mais ouvida ao falar de homofobia de que seu filho, que é gay, é, em parte, verdade.

“O que o Jair Bolsonaro fala é verdade, a nossa cultura é judaico-cristã. E, nela, a mãe é sagrada. O que os assusta é a figura da mãe. O que uma pessoa leiga no assunto vai dizer para uma mãe? O conhecimento empírico é propriedade particular nossa.”  

Um dos trabalhos realizados pelo ‘Mães’ e que proporciona mais prazer a Maju é dar palestras ou consultorias a empresas que querem aumentar ou até iniciar a discussão sobre diversidade e violência nos escritórios.

“Esse, na minha visão, é um dos trabalhos mais importantes. Porque falar para convertido é ridículo, é cômodo, é fácil. E é algo que qualquer um faz. Além de ser uma coisa egóica também. Porque onde todo mundo concorda com você, você sempre será aplaudido. O desafio, hoje, está em se fazer ouvir por quem só pensa em atacar e não está nem aí para a questão.”

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"O desafio, hoje, está em se fazer ouvir por quem só pensa em atacar e não está nem aí para a questão.”

Ela salienta que um dos caminhos mais importantes para combater a violência é a promoção de cidadania e da empregabilidade. “Você precisa combater o preconceito na escola para evitar a evasão. A própria evasão já leva à margem. E não existe outra forma de combater isso se não na escola. Promover cidadania é combater a violência.”

Como representante do coletivo, Maju recebeu, no ano passado, a chamada “Salva de Prata”, uma honraria da Câmara Municipal de São Paulo a pessoas e grupos com atuação significativa na cidade. Neste ano, mais uma vez, o “Mães pela Diversidade” abrirá a maior Parada LGBTQ+ do mundo, realizada em São Paulo, no próximo domingo (23). Atualmente, o coletivo também conta com o apoio de 6 patrocinadores.

″É um trabalho de formiguinha”, diz. “Eu criei um monstro e não parei para organizar”, brinca, ao dizer que, no início, não tinha ideia de que o “Mães” cresceria tanto. “Às vezes eu paro, penso e me pergunto: ‘Meu Deus, para onde eu vou?’, porque eu estou meio sem rumo. Agora tenho as mães em 27 estados e elas precisam de mim, precisam de orientação. O que eu tenho, de verdade, são outras mulheres que me ajudam a tocar esse bonde enorme.” 

As consequências de uma vida turbulenta em prol de uma causa têm sido duras. “Minha vida virou uma loucura. Fumo 3 maços de cigarro por dia”, contou à reportagem, enquanto acendia mais um. Mas não pense que cansaço, ansiedade e agitação fazem com que ela fique longe ou deixe seu ativismo de lado. Maju diz que só precisa dar um tempo para realinhar as energias.

“Minha função hoje no ‘Mães’ é a diplomacia. É para que todas essas mães, juntas, tenham voz. E também para que em todo lugar ― por isso que eu vou muito para o interior, vou muito para comunidades ― tenha pelo menos uma que grite por direitos, que defenda, que acolha esses meninos e meninas. Eles precisam disso.”

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