OPINIÃO
24/09/2020 01:00 -03 | Atualizado 24/09/2020 01:00 -03

O Brasil sempre teve cotas para brancos e agora precisa de ações afirmativas para negros

A visibilidade dada aos programas de reparação de desigualdade racial de empresas como Magazine Luiza causou a fúria de uma banda reacionária de políticos ultradireitistas e anti-iluministas que literalmente confundem e deturpam o conceito de racismo.

Divulgação
Programa de trainee da Magazine Luiza em 2021 é exclusivo para candidatos negros.

O Brasil é um país, no mínimo, curioso, por assim dizer. Um exemplo: as universidades públicas brasileiras, em tese, deveriam ser um espaço democrático no que diz respeito ao acesso gratuito da população mais precarizada ao ensino superior. E, justamente por se tratarem de instituições públicas, tais universidades deveriam ser povoadas pela população advinda das escolas públicas e das camadas mais baixas da sociedade — que, sabemos, são formadas em sua maioria, por pessoas negras, certo?

Errado, erradíssimo. No país das desigualdades sócio-raciais, lugares como as universidades públicas, ao contrário das escolas públicas — das primárias ao ensino fundamental — oferecem, em muitos casos, uma formação de excelência. Vide casos de instituições de ponta como USP e UFRJ. Mas, infelizmente, o acesso a essas instituições para aqueles advindos do precário ensino das escolas públicas é praticamente uma via impossível de ser conquistada.

Competir num Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) ou num vestibular com os filhos das classes altas, brancos em sua maioria, advindos de boas escolas particulares e exclusivos cursinhos pré-vestibulares, por uma vaga em qualquer curso que seja numa universidade pública, é praticamente um sonho impossível para a maioria dos jovens pobres e negros.

Daí que como resultado tais instituições centenárias vem sendo geridas ao longo de décadas com a ajuda dos impostos pagos da maioria pobre e preta da população, das quais muitas jamais sequer viram um único membro de nenhuma geração de suas famílias se beneficiar do cursos superiores das universidades públicas brasileiras. Até bem pouco tempo atrás, a presença desses “corpos estranhos” nos ambientes acadêmicos era vista apenas de forma subalternizada esfregando corredores e banheiros, atuando como vigias e preparando as refeições das cantinas universitárias dos prédios seculares — muitos dos quais foram construídos por mãos negras escravizadas,  como a unidade da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro outrora conhecida como “Universidade do Brasil”.

A rigor, os mais ricos, justamente por serem mais ricos, deveriam pagar para terem acesso ao ensino superior, tal qual fazem durante o período escolar em escolas particulares. Mas não, os mais ricos no Brasil (leia-se: brancos) preferem desde sempre usufruir de todos os benefícios e privilégios que o racismo estrutural lhes possibilita.

Se as escolas públicas são ruins, elas devem servir somente aos pobres e pretos. Mas, se as universidades públicas são boas, elas devem ser tomadas por brancos e ricos. Com isso, temos game over na estrutura social. Os brancos e ricos têm as melhores formações, conseguem os melhores trainees, os melhores empregos e recebem vergonhosamente 72,5% a mais que pretos e pardos no Brasil, conforme aponta o IBGE.

É para combater tamanha injustiça e desigualdade que universidades públicas passaram a instituir ações afirmativas no início do século 21. E que, na terceira década deste século, algumas empresas resolveram colocar em prática o conceito do antirracismo. Foi o caso da rede varejista Magazine Luiza. A Magalu, como é popularmente conhecida, divulgou na semana passada a iniciativa de direcionar seu programa de trainees apenas a candidatos negros. E ela não estava só. Bayer, Vivo e Diageo são algumas das companhias que também anunciaram tais ações afirmativas para diminuir os efeitos do racismo estrutural brasileiro.

As ações afirmativas e políticas públicas inclusivas estão previstas na lei do Estatuto da Igualdade Racial. Tais ações significam a criação de programas em empresas do setor público e privados que dão acesso a candidatos negros por meio das reservas de vagas ou cotas. Tais medidas são importantes e necessárias para a construção de uma sociedade justa, democrática e igualitária no combate à discriminação racial, étnica, religiosa e/ou de gênero.

Trata-se de uma reparação histórica num país cujas bases da riqueza foram construídas, desde sua fundação, na base do saque e da exploração do patriarcado branco em detrimento dos povos subjugados hoje minorizados. E segue sendo assim até os dias de hoje.

A visibilidade dada aos programas de reparação de desigualdade racial de empresas como Magalu e cia trouxe bons ventos e elogios, porém causou a fúria de uma banda reacionária de políticos ultradireitistas e anti-iluministas que literalmente confundem e deturpam o conceito de “racismo”. Dizem que “tais medidas vão utilizar como critério de avaliação a cor da pele e não a capacidade das pessoas. O nome disso é discriminação e preconceito”, como afirmou o vereador paulistano Fernando Holiday (Patriota-SP), confundindo racismo estrutural com a falácia do racismo reverso, coisa que nunca existiu.

O racismo é um sistema de opressão historicamente inventado por pessoas brancas; ele não pode ser praticado por outras etnias, uma vez que só os brancos detêm poder institucional para serem racistas. Lembrando que o Brasil sempre ofereceu cotas para pessoas brancas, a saber: pagou, incentivou e patrocinou a vinda de imigrantes de baixa renda e baixa escolaridade para fomentar projeto de embranquecimento da população no pós-abolição com oferecimento de terras, casas e trabalhos.

Um século depois, eles se tornaram os detentores do poder na sociedade brasileiro, tamanho investimento dado pelo País. Já os que aqui estavam e os que para cá foram sequestrados e explorados gratuitamente ao longo de 4 séculos não tiveram direito a nada.

Já não era hora de essa realidade mudar?!

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