28/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 28/01/2019 00:00 -02

Mafê Albuquerque, a responsável por mudar como a publicidade vê mulheres e cerveja

“Não adianta só não objetificar a mulher se não tiver um novo olhar."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Mafê Albuquerque é a 327ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Faz parte do seu dia a dia. Alguns amantes da bebida podem achar que é muita sorte. Talvez seja, realmente. Mas estamos falando de trabalho. Coisa séria. Há mais de uma década está na área. Nesse período, acompanhou muitas mudanças e novas construções no mercado de publicidade e de consumo de cerveja no país. E, mais do que isso, pode participar ativamente desses processos. Maria Fernanda Albuquerque, a Mafê, 35 anos, fala com orgulho de todo esse período, que também foi de muitas mudanças para ela.

Hoje diretora de marketing da Skol, Mafê entrou na empresa para tocar marcas menores, passou por diversas outras do grupo Ambev, circulou por áreas do marketing e pode atuar também na parte institucional da empresa antes de assumir a liderança em Skol, principal nome do grupo. “Isso é muito legal porque você passa a viver uma coisa muito nova quando muda de marca, uma coisa muito diferente. Engravidei da minha filha e também teve uma coisa interessante porque voltei promovida para tocar outra marca, e depois passei a olhar mais o institucional, como a empresa se relacionava com o mundo e voltei para Skol para liderar a marca e as mudanças”.

 

Está sobre os mesmos princípios que sempre tive, de desafiar o padrão, mas antes quebrar o status era uma coisa e passa a ser outra.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje diretora de marketing da Skol, Mafê entrou na empresa para tocar marcas menores e provocou mudanças muito maiores.

As transformações tinham relação com o posicionamento, a forma de comunicação e publicidade e representatividade. Na verdade, tinha a ver com olhar para o mundo. O processo começou internamente, ela bem lembra, e esse período em que cuidou do marketing na área institucional foi essencial para todas as outras mudanças que ainda estavam por vir. “A gente de marketing tem bem o olhar do consumidor, o que está lá fora, os movimentos, mudanças, buscar propósito, ser mais diverso, ter um olhar mais autêntico, respeitar quem as pessoas são de fato e começamos a fazer um trabalho interno e sabíamos que só poderíamos levar para o mercado quando tivesse minimamente consolidado internamente, que fosse mais do que um discurso”.

Esse era o objetivo principal e assim começou. “Minha paixão é marketing, envolver a companhia inteira, pensar na frente, como é nossa imagem para fora, então foi muito legal e acho que foi quando estabelecemos os gaps”. Foi o momento de reflexão, olhar sobre as pessoas que compunham o grupo e de fazer perguntas que até aquele momento ainda não haviam sido feitas. “Não tínhamos noção direito... Quantas mulheres têm na companhia? Quantas estão na liderança? Quantos negros temos? Quantos na liderança? E criamos grupos de afinidades, que foi um passo importante para começar um diálogo, as pessoas começarem a falar como se sentiam, onde se sentiam desrespeitadas, milhares de coisas e pudemos criar uma cartilha de treinamento interno, fazer com que a altíssima cúpula abraçasse esse princípio, tinha que ser verdade e tinha que ter sentido”.

Colocar a mulher sempre servindo e nunca consumindo, sem ser parte do papel é revisar isso. E a mulher é só um dos recortes.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Entre as quebras que Mafê provocou, está a mudança da representação da mulher nas propagandas dos produtos.

Assim foram sendo implementadas políticas de diversidade e inclusão e quando Mafê retornou para Skol, já como diretora de marketing, ocorreu um novo movimento de comunicação que tinha tudo a ver com o trabalho que ela havia participado. “A gente entendeu que seria um momento para levar para fora. Faz sentido para a marca, uma marca provocadora, que se propôs a quebrar regras e padrão. Falam que fiz um reposicionamento e eu não acho. Está sobre os mesmos princípios que sempre teve, de desafiar o padrão, mas o que muda é o olhar da sociedade. Antes quebrar o status era uma coisa e passa a ser outra”.

Entre as quebras, está a mudança da representação da mulher nas propagandas. Mafê conta que a companhia já tinha como regra não objetificar mulheres na publicidade, mas ainda se tratava de um movimento recente e esse tipo de postura sempre foi muito forte, então a mudança não ocorre de uma hora para outra. “Temos que entender a relação da categoria com a mulher, sempre machista e que objetificava a mulher e como desconstruir? Isso ainda era muito presente. Existiam ações importantes de quebra, mas não adianta só não objetificar se não tiver um novo olhar, se colocar a mulher sempre servindo e nunca consumindo e parte do papel é revisar isso. E a mulher é só um dos recortes”.

Outra ação que ela destaca foi o movimento de patrocinar a parada LGBT de São Paulo. “O patrocínio da parada foi bem significativo. Sabíamos que não seria fácil e queríamos algo grande, era ousado pegar a principal marca para isso, mas tinha que ser assim. Quando fomos conversar com os organizadores a gente não sabia como ia ser e foi muito legal porque estavam abertos, eles queriam a expertise que tínhamos do carnaval e depois outras marcas chegaram para apoiar também”. Fora isso, essa ação para o mercado reverteu também no dia a dia das equipes. “Foi um movimento interno, foi legal neste momento, teve uma importância para a companhia o patrocínio, foi um momento relevante das pessoas falarem sobre isso na empresa”.

A beleza está em ter que ouvir de volta.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
O desafio agora está em continuar com a disposição de encarar as novidades, as críticas e transformações.

Claro que todas essas mudanças não foram simples. Ainda mais nos últimos anos, onde a sociedade passou a dialogar muito mais com a publicidade e a criticar propagandas e comunicações não inclusivas ou preconceituosas de alguma forma. Para Mafê, não se trata de uma importância maior da publicidade, mas de uma mudança de relação com o público. “A sociedade passou a ter mais voz. Antes era uma propaganda em que só a marca falava e ninguém falava de volta. Acabava ali. E a beleza está em ter que ouvir de volta. E isso significa ouvir críticas. E isso quer dizer que você pode ter falado algo errado, atingido alguém e passar a ouvir mais as pessoas muda tudo quando você fala de marketing”.

E muita coisa foi mudando. Aos poucos. “São etapas e erramos e acertamos, trouxemos gente de fora, pessoas negras, consultores LGBT e foi muito relevante porque apesar do meu time ser diverso, no fundo a gente não representa o total e passamos a ter mais empatia. Isso magoa alguém? Pode tocar alguém de uma forma errada? Foi um processo longo da gente aprender e vejo que hoje os consumidores veem quase a marca como uma pessoa, que fala, responde nas redes sociais e que também pode cometer erros. É diferente de mentiras. Estamos em uma era da transparência e quando entendem que você queria fazer, que era genuíno, mas tropeçou e fez de um jeito que não era o melhor, mas está querendo melhorar, as topam. Isso é legal”.

Tanto que comemora os resultados atuais: internamente, olhando para as mudanças da empresa, e em relação aos consumidores que entenderam as mensagens e identificam as mudanças. O desafio agora está em continuar com a disposição de encarar as novidades, as críticas e transformações.

E isso não falta. Ainda mais para quem tem experiência de causa. “Entendo e curto muito cerveja. É uma parte relevante da minha vida [risos]”.

Com certeza é.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

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