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22/01/2019 12:43 -02

Mãe e esposa de chefe do Escritório do Crime foram empregadas no gabinete de Flávio Bolsonaro, diz jornal

Em nota, Flávio Bolsonaro afirmou que não pode ser responsabilizado por atos que desconhece.

MAURO PIMENTEL via Getty Images
Para o senador eleito Flávio Bolsonaro, há uma campanha difamatória da imprensa para atingir o governo do presidente Jair Bolsonaro.

A mãe e a esposa do capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, alvo do Ministério Pública pela suspeita de chefiar o Escritório do Crime, foram empregadas no gabinete do senador e ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). A organização, especializada em assassinatos por encomenda, é investigada pela morte de Marielle.

Adriano é amigo de Fabrício de Queiroz, o ex-assessor de Flávio envolvido no escândalo do Coaf. De acordo com o jornal O Globo, a mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, e a mulher, Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, teriam sido indicadas para o gabinete por Queiroz. 

Segundo o Ministério Público, o ex-assessor é suspeito de recolher parte do salário dos funcionários do gabinete. O relatório do Coaf cita Raimunda como uma das funcionárias que fizeram repasses para a conta de Queiroz. Segundo o levantamento, ela depositou R$ 4,6 mil na conta de Queiroz. Raimunda e Danielle recebiam salário de R$ 6.490,35, ambas foram exoneradas em 13 de novembro do ano passado.

Ainda, segundo o Globo, a mãe de Adriano é sócia de um restaurante que fica em frente à agência na qual foi feita a maior parte dos depósitos de dinheiro em espécie na conta de Queiroz. Foram feitos 17 depósitos não identificados no total de R$ 91.796. Os valores das transações variaram entre R$ 4,2 mil e R$ 4,6 mil.

Em nota, Flávio confirmou que a funcionária que aparece no relatório do Coaf foi indicação de Queiroz. Ressaltou, entretanto, que era ele quem supervisionava o trabalho dela. “Não posso ser responsabilizado por atos que desconheço, só agora revelados”, disse.

Tenho sido enfático para que tudo seja apurado e os responsáveis sejam julgados na forma da lei. (…) Aqueles que cometem crimes devem responder por seus atos.Flávio Bolsonaro

O senador eleito disse ainda ser vítima de uma campanha difamatória, com objetivo de atingir o governo do seu pai, o presidente Jair Bolsonaro.

Homenagem

Adriano foi homenageado duas vezes pelo senador eleito. Na primeira, em outubro de 2003, Flávio ressaltou o “brilhantismo e galhardia”. Afirmou também que o ex-capitão da PM era responsável por “serviços à sociedade desempenhando com absoluta presteza e excepcional comportamento nas suas atividades”.

Dois anos depois, em julho de 2005, a nova homenagem veio em forma de um adereço, a Medalha Tiradentes. Na ocasião, Flávio destacou a atuação de Adriano em uma operação no Morro da Coroa, em 2001. A ação prendeu 12 suspeitos, apreendeu 4 fuzis, outras 3 armas de fogo, uma granadas e munições.

Além de Adriano, recebeu honrarias de Flávio o major Ronald Paulo Alves Pereira, outro alvo da operação desta terça-feira (22) e também tido como integrante do Escritório do Crime. Na homenagem, o então deputado estadual ressaltou uma ação no Complexo da Maré, que deixou 3 mortos, apreendeu fuzis e granadas.

Ex-integrante do Bope, Adriano foi preso em 2011, quando era capitão da PM, na operação Dedo de Deus, de combate ao jogo do bicho. Na nota à imprensa, em relação às homenagens, Flávio afirmou que sempre atuou na defesa de agentes de segurança pública e já concedeu centenas de homenagens.

Escritório do crime

Tanto Adriano quanto o major Ronald, alvos da operação Os Intocáveis, são suspeitos de integrar o Escritório do Crime, uma ramificação da milícia de Rio das Pedras.

Segundo o Ministério Público, essa milícia explora o mercado imobiliário ilegal, com a regularização de bens. A denúncia argumenta que os integrantes do grupo são responsáveis por extorquir os moradores, cobrar taxas ilegais, falsificar documentos públicos, ocultar bens.

Os suspeitos também praticam outras atividades comuns de milícias para controle de território, como ligações irregulares de água, luz e serviços de TV a cabo, chamados de gatonet. Serviços como esses foram denunciados por Marielle e pelo deputado Marcelo Freixo, quando comandaram a CPI das Milícias.

No fim do ano passado, o então secretário de Segurança Pública do Rio Richard Nunes afirmou Marielle e Anderson foram mortos por milicianos envolvidos com grilagem de terras. Nunes ressaltou que Marielle “estava lidando em determinada área do Rio controlada por milicianos” que atuam “muito em cima da posse de terra”.

“O que leva ao assassinato da vereadora e do motorista é essa percepção de que ela colocaria em risco naquelas áreas os interesses desses grupos criminosos”, disse o então secretário.

O Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), com o apoio da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil, escalou 140 policiais para cumprir 13 mandados de prisão preventiva contra a milícia.