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Por que sentimos luto quando morre alguém que não conhecemos?

A morte de Caroline Flack gerou um sentimento de perda até mesmo para quem não a conhecia. Perguntamos a terapeutas por que o ‘luto pelas celebridades’ é tão intenso.

Depois da trágica morte de Caroline Flack por suicídio, amigos e familiares publicaram várias homenagens comoventes e expressaram seu luto. Na semana passada, o programa Love Island exibiu uma mensagem emocionante do narrador do programa, Iain Stirling. “Você era uma amiga de verdade”, disse ele. “Sentirei sua falta, Caz.”

Mas as redes sociais também estão repletas de mensagens de fãs arrasados com a morte da apresentadora, a maioria dos quais reconhece que nunca esteve pessoalmente com Caroline – e, ainda assim, tem uma sensação profunda de perda.

“Você pode ficar triste com a dor sentida por aqueles que realmente conheciam a pessoa”, diz a psicoterapeuta Lucy Beresford. “Mas você próprio pode sentir esse vazio, um sentimento que precisa ser reconhecido e trabalhado.”

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Quando morre uma pessoa conhecida, há um momento de luto coletivo, diz a psicoterapeuta Nora Allali-Carling. “Para ficar apenas em alguns casos, a princesa Diana, Michael Jackson e David Bowie [causaram essa reação]”, afirma ela.

Os sinais de luto pela morte de uma celebridade podem variar, mas geralmente são relacionados a sentimentos de choque ou descrença, explica ela. Isso pode ser acompanhado por uma procura obsessiva por notícias relacionadas à celebridade.

<i>Flores deixadas na porta da casa de Caroline Flack, no norte de Londres.</i>
Flores deixadas na porta da casa de Caroline Flack, no norte de Londres.

Podemos sentir tristeza pela morte de pessoas famosas, mas que não conhecemos pessoalmente, porque é normal haver uma sensação de vínculo com elas, explica Beresford. Se você acompanha a carreira de um ator ou um atleta, por exemplo, essa pessoa se torna parte de sua “vila interna”, afirma a especialista, “a tribo que você constrói em sua psique”.

“Você criou laços emocionais com essa pessoa, mesmo que não haja essa ligação na carne”, continua Beresford. “Quando ela morre, sua tribo interior sofre uma perda genuína.”

Dentro dessa “tribo interior”, as celebridades que admiramos muitas vezes são colocadas num pedestal, acrescenta a psicóloga Chloe Paidoussis-Mitchell, especializada em traumas. “Elas representam nossos ideais, nossos valores, nossos sonhos, aspirações, desejos e intenções”, diz ela.

A dor pode ser mais intensa no caso de celebridades que estão em nossas vidas há muito tempo, diz Allali-Carling. Alguns britânicos acompanhavam Caroline Flack na TV desde a infância da apresentadora ― ela começou no programa infantil TMi, em 2007, antes de passar para programas no horário nobre, como The X-Factor e Love Island.

“Observamos a pessoa crescer, mudar, se desenvolver. Tudo isso ajuda a criar laços”, diz Allali-Carling. “[A morte dessas pessoas] também pode representar uma perda de parte do nosso passado, uma parte que estava conectada a essa forma de entretenimento. Isso intensifica os sentimentos de perda.”

A maneira como morrem as celebridades também pode afetar a dor que sentimos. Os terapeutas concordam que “o choque e a brusquidão do suicídio” provavelmente afetam quem fica sabendo da notícia. Essas mortes também podem servir como um lembrete de nossa própria fragilidade ou enfatizar a perda em nossas vidas.

O primeiro passo para processar a tristeza é reconhecer seus sentimentos e entender que eles são válidos, afirmam os três terapeutas ao HuffPost UK. “Permita-se ficar triste, sentir luto”, diz Allali-Carling.

Tente e encontre uma maneira de expressar o que está sentindo. Paidoussis-Mitchell diz que, para alguns, isso pode ser escrever um diário. Para outros, pode ser simplesmente chorar ou visitar o túmulo de uma pessoa querida.

“É muito importante perceber que, embora o luto seja uma jornada pessoal, também é algo sentido coletivamente”, acrescenta ela. “Entrar em contato com amigos e familiares para compartilhar o impacto da perda é algo importante. O compartilhamento faz nos sentirmos validados, abraçados e apoiados. Encarar sozinho os problemas nunca é a resposta.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.