OPINIÃO
19/06/2020 06:00 -03 | Atualizado 19/06/2020 06:00 -03

Antirracismo Seletivo

O Brasil nunca se responsabilizou pelas vidas negras exploradas ao longo de quase 400 anos de escravidão. Agora é hora de os brancos trabalharem por este país também.

Bogdan Kurylo via Getty Images
A luta antirracista está em voga em todo o mundo. Mas e no Brasil? 

Mal chegamos na metade do ano e praticamente TUDO já aconteceu. O ano de 2020 definitivamente será lembrado como o ano em que a civilização moderna finalmente parece ter avançado ao tão esperado século 21. E não somente isso. 2020 já se revela também como o ponto final de um projeto global iniciado ainda no século 15. Explico.

Ao longo dos últimos séculos o que vimos foi a perpetuação sistemática do conceito racista — conceito esse inventado, fomentado e embasado por europeus pseudo-intelectuais, cientistas e, sobretudo, a Igreja Católica, para justificar a subjugação pela Europa de praticamente todo o sul global, no que viria a ser uma das maiores e mais longínquas ações genocidas já vistas em toda a História da humanidade. 

E foi graças ao apogeu tecnológico da expansão marítima de pequenas nações europeias como Portugal, Espanha, Inglaterra e França (comparada à corrida espacial dos dias de hoje) que o sul global conheceu a desgraça, a submissão, as doenças do “homem branco” e o racismo que se perpetua até os dias de hoje, sobretudo com a diáspora negra espalhada pelo mundo.

Mas, de volta a 2020, o que vimos no primeiro semestre do ano que provavelmente não terá fim, foi o colapso de um sistema falido. Uma pandemia global que, pela primeira vez neste século, colocou metade do planeta — incluindo os países ricos — em quarentena, e, com isso, desestruturou todos os alicerces dos maiores setores do capital. Até poucos meses atrás, esses setores eram tidos como inabaláveis. 

Crise financeira, mortes, desesperança. Pela primeira vez o norte global sentia na pele as agruras do legado colonial do qual apenas as ditas nações subdesenvolvidas padeciam. 

Mas a crise não foi só epidêmica. 

Mais um assassinato de um homem negro por um policial branco nos EUA acabou catapultando a questão do racismo para o protagonismo da crise global. 

Filmadas por um celular, as imagens tétricas do lento assassinato do cidadão negro George Floyd, sufocado com requintes de sadismo e crueldade pela bota do policial Derek Chauvin, levaram muito menos do que seus quase 9 minutos de agonia para se espalharem pela internet. Foi o bastante para que, pela primeira vez, a pauta do racismo instantaneamente ganhasse aderência global.

Milhares de pessoas têm saído diariamente em protestos do movimento Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”) e continuam tomando as ruas dos Estados Unidos. As manifestações em território americano em pouquíssimo tempo acabaram atravessanso oceanos... Londres, Paris, Berlim, Amsterdã, Bruxelas, passando por Tóquio, Seul, Rio de Janeiro e São Paulo. O mundo todo clama pelo antirracismo.

E, junto com as manifestações, iniciou-se também nas capitais europeias o movimento de rechaço a monumentos públicos de homens brancos escravocratas, colonizadores, traficantes de africanos escravizadas e figuras reais nefastas como o Rei Leopoldo II da Bélgica — um dos personagens mais assombrosos da História da humanidade e responsável direto por atrocidades indizíveis, como o genocídio do Congo Belga, que chegou a ser sua propriedade particular. 

O que está por acontecer é uma revolução global antirracista, anticolonialista e antissupremacia branca. Pela primeira vez, não somente negros, mas uma maioria branca entendeu que o racismo é o grande paradigma secular que divide o mundo entre desenvolvidos e subdesenvolvidos, atravessando questões que perpassam a economia, educação e relações pessoais. 

Mas e o Brasil?

No Brasil os brancos olham admirados com a aderência maciça de pessoas não negras na maioria dos protestos nos quatro cantos do globo. E a razão de tal estupefação é triste; sendo um dos últimos países do mundo a abolir a escravatura, o Brasil, de fato, nunca se responsabilizou pelas vidas negras exploradas ao longo de quase 400 anos de escravidão e responsáveis pela construção deste país. Pelo contrário, o Brasil incentivou um projeto de embranquecimento patrocinando a vinda de imigrantes europeus para desempenharem as mesmas funções que os negros escravizados realizaram forçadamente.

O racismo estrutural brasileiro foi meticulosamente arquitetado por meio de ações práticas. Senão, vejamos: a falta de reparação no pós-abolição, a marginalização sistêmica, o projeto de embranquecimento da nação, a farsa da mestiçagem, a eugenia nos anos 1930 utilizada na constituição do País, usando a escola como ferramenta de propagação do racismo, e um projeto audacioso de supremacia branca no audiovisual, ao longo de décadas no cinema e na TV (sem contar em outras artes), são apenas algumas das razões que fazem que pessoas brancas brasileiras ainda se admirem nos dias de hoje com a informação de que a luta antirracista é uma causa que lhes pertence. 

E, para sairmos da vanguarda do atraso mundial e adentrarmos de vez a nova, é necessário tirarmos o peso da responsabilidade do racismo dos ombros cansados das pessoas negras brasileiras. Porque afinal é hora de os brancos trabalharem por este país também. 

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.