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09/11/2019 01:00 -03 | Atualizado 09/11/2019 19:50 -03

Lula evitará polarização, mas vai bater no pedido de suspeição de Moro

Aliados apostam que ex-presidente tentará reorganizar oposição ao governo Bolsonaro com tom de unificação dos brasileiros.

ASSOCIATED PRESS
Ex-presidente Lula entre a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e a namorada, Rosângela da Silva.

Em liberdade desde a última sexta-feira (8), após passar 580 dias preso na sede da Polícia Federal em Curitiba, o ex-presidente Luiz  Inácio Lula da Silva vai se dedicar a percorrer o Brasil para se reaproximar dos brasileiros para refazer a imagem do PT e reorganizar a oposição ao governo de Jair  Bolsonaro. Essa é a avaliação de aliados próximos a ele ouvidos pelo HuffPost.

Antes disso, porém, Lula deve passar alguns momentos mais próximo e dedicado à sua família em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. A expectativa é que o petista compareça ao Congresso Nacional do PT, que será realizado no fim de novembro, e, possivelmente, visite algumas cidades do Nordeste ainda em 2019, mas sem confirmação de agenda.

“O Lula ficou cerca de 600 dias em uma cela minúscula, isso é um trauma de qualquer forma. É preciso ter calma em relação a ele também”, afirma o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) ao HuffPost Brasil.

O partido aposta que Lula solto vai reforçar a oposição ao governo de Jair Bolsonaro. Nomes próximos a ele explicam, porém, que o petista não responderá a possíveis provocações nem incentivará um discurso de vingança. O tom de suas falas, segundo as lideranças, será em prol da unificação do País.

“Os bolsonaristas não precisam ficar preocupados. Esse discurso de que a soltura do Lula reforça polarizações é uma fábula”, acrescenta o deputado Paulo Pimenta (PT-RS), líder do partido na Câmara. 

No entanto, as críticas à Operação Lava Jato devem continuar contundentes. Uma grande preocupação do ex-presidente é acompanhar o julgamento do pedido de suspeição do ministro Sergio Moro no STF.

“Isso é o mais importante porque na prática significaria que o Lula teria direito a um novo julgamento, dessa vez justo, e que [por meio disso] ele restabeleceria novamente os seus direitos políticos”, avalia o líder do PT.

Nesta semana, os advogados de Lula, Cristiano Zanin e Valeska Martins, reforçaram a necessidade de o STF para julgar habeas corpus em prol de anular todo o processo que levou à condenação do ex-presidente. Eles alegam a suspeição do então juiz Sergio Moro e dos procuradores da Operação Lava Jato.

Neste ano, o site The Intercept Brasil revelou uma série de áudios mostrando uma relação muito próxima de Moro e procuradores da operação.

Em seu primeiro discurso fora da prisão, Lula atacou o que chamou de “lado podre” da Polícia Federal, do Ministério Público e da Receita Federal que, segundo ele, buscou criminalizar o PT, a esquerda e ele próprio.

A previsão é de que a 2ª turma do STF analise até o final deste mês o pedido de suspeição de Moro.

Caravana pelo Brasil

Petistas próximos ao ex-presidente contam que Lula recebeu a notícia do pedido de soltura sem qualquer euforia.

Para o petista, o mais importante agora é começar a percorrer as cidades do País com um discurso à esquerda e de inclusão dos mais pobres nas políticas sociais. “Ele vai estar em contato com o povo, com certeza”, aposta Paulo Pimenta.

Em seu discurso, Lula confirmou que pretende fazer uma caravana pelo Brasil. Mas ele deverá conciliar o plano político com uma agenda pessoal: o casamento com sua atual namorada, Rosângela da Silva.

A Justiça Federal ordenou na tarde da última sexta-feira (8) a soltura do ex-presidente com base na decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que derrubou a prisão depois de condenação em segunda instância. O juiz que assinou o despacho foi Danilo Pereira Júnior, da 12ª Vara Federal de Curitiba.

O ex-presidente estava preso desde abril do ano passado por ser condenado em 2ª instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá, investigado na Operação Lava Jato.

O que o STF decidiu antes? 

Essa foi a terceira vez em que o STF mudou seu entendimento sobre prisão após condenação em segunda instância. Desde a promulgação da Constituição atual, em 1988, condenados eram presos após a segunda condenação. Em 2009, o Supremo passou a exigir o trânsito em julgado, ou seja, quando não restam mais recursos.

Já em fevereiro de 2016, a corte permitiu a prisão de uma pessoa do estado de São Paulo que ainda tinha recursos pendentes. Em dezembro daquele ano, a mudança foi consolidada no julgamento de um recurso com repercussão geral reconhecida, quando a decisão passou a ser seguida por todos os tribunais do País.

Em 4 de abril de 2018, o plenário negou um habeas corpus preventivo ao ex-presidente Lula. No dia seguinte, o juiz Sergio Moro determinou a prisão do petista.