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17/11/2019 08:33 -03

Lula deve apelar a discursos menos inflamados após pedidos de prisão por 'incitação a crime'

Petista está contrariado, mas tende a seguir orientação de advogados e amigos dada depois também de Bolsonaro invocar lei de segurança nacional para prendê-lo.

Amanda Perobelli / Reuters
Lula em discurso após ser solto no início deste mês.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva confere, a partir deste domingo (17), um novo tom a seu discurso. Após 580 dias preso, Lula arrancou aplausos, gritos e até lágrimas da militância com a retórica que nunca lhe faltou, mas o que mais chamou atenção foram suas falas duras contra o governo, atacando a política econômica, ligando a gestão do presidente Jair Bolsonaro com milicianos e, claro, sem esquecer a Lava Jato e o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. Esse fervor deve arrefecer um pouco. 

Em Recife, ele vai falar para as mais de 10 mil pessoas esperadas no Festival Lula Livre neste domingo. Esse é, porém, apenas o primeiro discurso do petista da semana. O mais esperado talvez seja o da sexta-feira (22), quando o ex-presidente abre o Congresso Nacional do PT, em São Paulo. Ano passado, como ele estava preso na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, ele não participou do principal encontro dos petistas.

Em cada uma de suas declarações públicas, Lula tende a adotar um tom distinto, próprio para cada ocasião. Mas ambos os discursos devem ser mais leves do que aquele do dia 8 de novembro, quando ele deixou PF, ou o do dia seguinte, quando chegou ao seu reduto político, em São Bernardo do Campo, São Paulo, na frente da Sede do Sindicato dos Metalúrgicos. 

Tanto neste domingo, como a partir de então, a tendência é de um Lula com falas menos inflamadas, mais controlado nos ataques contra as instituições que o prenderam. Em contrapartida, mais saudações e agradecimentos aos militantes que lhe deram apoio durante os 580 dias em que ficou preso. 

O líder petista está contrariado, mas interlocutores dizem que ele deverá seguir os conselhos dados por pessoas próximas, entre amigos políticos e advogados. Isso ocorreu após o presidente Jair Bolsonaro levantar a possibilidade de invocar a Lei de Segurança Nacional e os pedidos de prisão preventiva por “incitação ao crime”, motivados pela contudência das declarações dele. 

Lula, a estrela petista

Apesar dos contratempos dos bastidores, a militância petista está em polvorosa por ver Lula de perto. O Nordeste é a região de maior impopularidade de Bolsonaro. A confirmação da presença do ex-presidente obrigou a organização do Festival Lula Livre a transferir o evento de local, do Cais da Alfândega, para a Praça Nossa Senhora do Carmo, no centro de Recife.

Segundo o Comitê Lula Livre, há caravanas a caminho de Pernambuco partindo de Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e mesmo outras regiões.

Além da população, são esperados também deputados e senadores petistas. Em viagem à Europa por conta do Consórcio Nordeste, nenhum governador da região estará no palco - eles visitarão França, Itália e Alemanha entre 17 e 22 de novembro em busca de investimentos em infraestrutura, turismo, saúde, saneamento, energia.

Amanda Perobelli / Reuters

Contudo, Lula se reuniu na quarta (13) com três chefes de Estado nordestinos, todos de seu partido: Rui Costa (Bahia), Wellington Dias (Piauí) e Fátima Bezerra (Rio Grande do Norte). E já está em negociação uma data para reunir todos os nove governadores da região com o ex-presidente. Faltou o também petista Camilo Santana (Ceará), além de Renan Filho (MDB), em Alagoas; Flávio Dino (PCdoB), no Maranhão; João Azevedo (PSB), na Paraíba; Paulo Câmara (PSB), em Pernambuco; e Belivaldo Chagas (PSD), em Sergipe. Onde o PT não está no comando do estado, integra a chapa vencedora. 

Especula-se em privado que o ex-presidente fará, após o festival em que será aclamado no centro de Recife, uma visita à viúva do ex-governador pernambucano Eduardo Campos, Renata. O encontro deverá ocorrer na casa da família e não poderá ser acompanhado pela imprensa. 

De olho em 2020 e 2022

Depois de Recife, Lula deve seguir direto para São Paulo, onde começará a se preparar para o 7º Congresso do PT. Nesse encontro, a expectativa é que o ex-presidente dite os rumos da legenda para o próximo ano, quando haverá eleição municipal. Correligionários e aliados de outras siglas aguardam do líder petista, inclusive, anúncio de nomes preferenciais para disputar o pleito em algumas regiões. 

Na ocasião, haverá também a recondução da atual presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), ao cargo. Embora muito criticada internamente no início da sua gestão, ao fim de 2017 e meados de 2018, Gleisi foi uma das principais apoiadoras de Lula e ganhou o aval do petista para permanecer na cadeira por mais um biênio.

É de olho no pleito municipal, mas já com foco também na eleição presidencial, cujo debate tem sido antecipado por Jair Bolsonaro, que Lula tem tido dias intensos desde que deixou a prisão.

Ao contrário do que esperavam os partidos de esquerda, que viam nele a força política para unir esse campo da oposição, Lula tem reforçado o papel de protagonismo do PT. Na quinta (14), em reunião da Executiva Nacional da legenda, em Salvador, Bahia, o ex-presidente afirmou que “o PT vai polarizar em 2022”. “São poucos outros partidos nacionais como o PT, por isso nós vamos sempre polarizar.”

Apesar disso, ainda é cedo, avaliam aliados e até mesmo parlamentares de outras legendas, para fazer uma análise madura da situação. “Não tem 10 dias que o presidente deixou a prisão. Ele está no afã do momento. União e alianças se constroem. É claro que nenhuma porta está fechada”, disse um petista. 

Na terça (12), Lula se reuniu com Ricardo Coutinho, presidente da fundação João Mangabeira, que é braço ideológico do PSB. O partido tem dialogado com o PT no Congresso e parlamentares pessebistas afirmaram ao HuffPost que, apesar do “tom elevado de Lula”, 2020 deve render “bons acordos, como de costume”. 

Até mesmo o PDT, uma das legendas esquerdistas que saiu mais abalada na relação com Lula da eleição de 2018, vê espaço para diálogo. O presidente, Carlos Lupi, disse ao HuffPost que, assim como visitou o ex-presidente na prisão, não “vê problemas em dialogar”. 

Já o ex-presidenciável da sigla, Ciro Gomes, que teve apoio negado pelo petista no início da campanha e, no segundo turno, em contrapartida, recusou aliar-se a Fernando Haddad (PT), não tem poupado críticas ao ex-presidente

O ex-presidente estava preso desde 7 de abril de 2018 após condenação em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá, investigado na Operação Lava Jato. Ele foi solto na esteira da decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que decidiu pela liberdade até esgotadas as possibilidades de todos os recursos.