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20/10/2020 08:00 -03 | Atualizado 20/10/2020 08:00 -03

Como a esquerda volta ao poder na Bolívia e quais seus principais desafios

Aliado de Evo Morales, Luis Arce teve a vitória para a Presidência reconhecida pela oposição.

Ueslei Marcelino / Reuters
Luis Arce, ao lado do candidato à vice David Choquehuanca.

Um ano após uma sequência de conflitos que culminou com a renúncia coletiva de lideranças políticas, incluindo o então presidente Evo Morales, a esquerda ― ao que tudo indica ― sai novamente vitoriosa nas eleições presidenciais da Bolívia. A virtual eleição do correligionário de Evo, o candidato Luis Arce ou Lucho Arce, do MAS (Movimento ao Socialismo), no atual contexto, indica uma reconfiguração de forças políticas na América Latina e reflete esperança de retorno dos tempos de bonança da esquerda do início do século.

De acordo com especialistas ouvidos pelo HuffPost, há 2 fatores principais que explicam o resultados das eleições na Bolívia: estratégia do partido de Arce e erros da oposição. Diferentemente do que ocorreu no Brasil quando Fernando Haddad foi candidato do PT à Presidência e insistiu em mostrar a influência que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria em seu governo, Arce tentou ao máximo se descolar da figura de Evo.

Professor do Departamento de Relações Internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Maurício Santoro explica que Arce reconheceu o aliado como figura histórica, mas condenou algumas atitudes, como ataques à imprensa e se posicionou contra sua reeleição. Foi após Evo tentar se eleger pelo 4º mandato consecutivo que estourou a crise política do ano passado.

Além disso, neste período de um ano, enquanto esteve no poder, a oposição não conseguiu se organizar e tomou atitudes que geraram incômodo na população, como uma resposta precária à pandemia de coronavírus e ataque a símbolos indígenas. 

Internacionalistas lembram que a Bolívia passou por uma “profunda transformação” após a primeira eleição de Evo Morales, em 2005. “Houve um enorme ganho de poder político de comunidades que tradicionalmente não tinham acesso, como as indígenas e camponesas”, explica o professor de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getulio Vargas) Pedro Brites.

“É importante pensar que o MAS é um partido amplo, complexo, que retoma contato com essas comunidades campesinas, com trabalhadores urbanos e é o contrário de outros políticos como Carlos Mesa [do Comunidade Cidadã, que já foi presidente e foi adversário de Arce nesta disputa], que é mais ligado a setores empresariais e grupos mais ricos.”

Para ele, o resultado deste pleito deixou claro que o MAS é maior que a figura do Evo Morales e que os protestos que levaram à renúncia dele eram mais concentrados em alguns setores da sociedade, mais conservadores, ligados a forças policiais e da igreja. “Também é interessante pensar que nos anos de Evo Morales a Bolívia conseguiu manter um ritmo de crescimento interessante, mesmo nos últimos anos quando a América Latina estava patinando”, diz Brites. 

Um dos responsáveis pelo crescimento de outrora foi Arce. Quando Evo assumiu o comando do país, em 2006, Arce foi escalado para ser ministro da Economia e Finanças. A partir de então o país ostentou por mais de uma década um crescimento médio de 5% ao ano. Em sua campanha, Arce destacou, entre outros, que foi no governo Evo que o índice de pobreza caiu de 59,9% para 34,6%, de acordo com o Banco Mundial.

Desafios para Luis Arce

O cenário, no entanto, mudou, como afirma Santoro, que é autor de A Outra Volta do Bumerangue: Estado, Movimentos Sociais e Recursos Naturais na Bolívia (1952-2006), que faz parte do livro Bolívia: de 1952 ao Século 21. O especialista destaca que o país hoje vive em uma condição internacional adversa.

“A gente não tem mais aquele cenário de um boom de commodities, que beneficiava a Bolívia. Não tem mais um cenário de ampla rede de partidos de esquerda na América Latina, que apoiava as medidas do Evo Morales. Tem uma relação muita tensa com o Brasil, que é principal parceiro comercial, e a Venezuela, que é outro parceiro, está mergulhada em sua própria crise. É um cenário bem mais complicado para exercer a presidência da Bolívia.” 

David Mercado / Reuters
Enquanto Arce foi ministro da Economia e Finanças nos governos de Evo Morales, a Bolívia teve uma média de crescimento de 5% ao ano. 

Além disso, ele pontua que Arce “não tem o carisma, a história e a capacidade de mobilização que o Evo tem”. “Existe essa expectativa de que ele vai trazer de volta os anos de crescimento, mas é um momento muito mais difícil na América Latina”, enfatiza.

Denilde Holzhacker, cientista política e professora de Relações Internacionais da ESPM-SP, também destaca o papel que Arce teve no governo de Evo e que a memória do crescimento econômico teve papel decisivo na hora do voto. “É um aliado que teve papel importante no período do governo dele de crescimento econômico e de outro lado a situação econômica também foi importante para decisão do voto”.

Ela afirma que o governo de Jeanine Añez, presidente interina da Bolívia que assumiu após a crise de 2019, foi marcado por problemas econômicos. “O governo teve muitas críticas, tanto a forma como ela reagiu contra os grupos de oposição pelo período interina quanto na condução da economia e pandemia. O país tem sofrido. O país que vinha de período de redução da pobreza volta à pobreza, desemprego”, avalia.

Para ela, o futuro presidente terá pela frente mais um desafio que é recuperar as instituições, que estão fragilizadas, em meio a uma polarização muito intensa.

Relações com o Brasil

A provável eleição de Arce sinaliza isolamento do Brasil entre os países vizinhos da América Latina. Santoro relembra que Evo tentou uma relação pragmática com o Brasil. Esteve, por exemplo, na posse de Bolsonaro. “O que não deu muito certo, o governo brasileiro comemorou com muito entusiasmo a queda dele”, recorda. Holzhacker acrescenta que o governo Bolsonaro mantinha um bom relacionamento com a presidente interina e apoiava não-oficialmente Luis Fernando Camacho, que teve uma votação pouco expressiva.

“O que acontece é que vai ter um fortalecimento da aliança entre Alberto Fernandez, presidente da Argentina, e Arce. O Brasil vai ter que reorganizar o perfil com os países da América do Sul. Inclusive, a proposta do Acer é que volte a Unasul, para ser um bloco de integração sem os Estados Unidos. Vale lembrar ainda que o vice de Acer, David Choquehuanca, foi ministro das Relações Exteriores e vai ser uma peça importante nessa reconfiguração mais à esquerda”, avalia a especialista.

Papel de Evo

A incógnita é sobre o papel que Evo Morales exercerá no governo de seu “pupilo”. Arce chegou a defender que o ex-presidente volte para a Bolívia para se defender em seu país. Mas não há expectativa concreta de retorno do político, que está refugiado na Argentina desde o fim do ano passado. 

JUAN MABROMATA via Getty Images
Para Evo Morales, “a vitória eleitoral contundente [de Arce] demonstra que, em 2019, não houve fraude, mas sim um golpe de Estado".

Na tarde de segunda-feira (19), após o reconhecimento pela oposição da vitória de Acer, o ex-presidente comemorou o resultado.“Com Lucho Arce levantaremos novamente, unidos, a Bolívia. Mais uma vez lideraremos o crescimento econômico da região, porque o MAS-IPSP é o único partido político com um programa e uma visão de país que sempre integrou campo e cidade, oriente e ocidente”, disse.

Para ele, “a vitória eleitoral contundente demonstra que, em 2019, não houve fraude [na eleição que venceu], mas sim um golpe de Estado. Esse triunfo do povo boliviano é dedicado aos nossos avós, Túpac Katari y Bartolina Sisa. Queriam nos banir, mas ressuscitamos”.

O resultado ainda não foi confirmado pelo Tribunal Eleitoral da Bolívia, mas a OEA (Organização dos Estados Americanos) e até Carlos Mesa, o principal adversário no pleito, já reconheceram a vitória de Arce.