LGBT
18/06/2020 01:00 -03 | Atualizado 18/06/2020 10:16 -03

Dos bicos no subúrbio do Rio à consagração como 1ª roteirista trans de TV no Brasil

Escritora e diretora Luh Maza quer garantir a continuidade para pessoas trans: "Que não seja só uma vez, só a primeira, só um evento".

Divulgação/Arquivo Pessoal
Luh Maza coleciona uma série de pioneirismos, mas quer a continuidade dessas conquistas para a comunidade trans.

Demorou um pouco, mas seu amor foi retribuído. Teve paciência e sempre soube apreciar e viver esse sentimento platônico. Gostava até, mas tinha certeza do poder do amor mútuo e, apesar de não ter todos os indícios a seu favor, acreditava que isso ia chegar para ela.

Luh Maza, 33 anos, roteirista de TV e teatro, sentia que podia acreditar nessa ideia romântica. E quando deixou sua cidade, o Rio de Janeiro, e mudou-se para São Paulo em 2007, foi por amor. E foi se apaixonando cada vez mais pela cena cultural e pelas possibilidades que via ali.

Os esforços para juntar dinheiro e comprar ingressos para espetáculos no Theatro Municipal — vez ou outra admite que comprou na galeria, mais barato, e desceu para apreciar da plateia — eram rotineiros.

Não tinha exatamente onde morar. Nem sempre teve trabalho. Um conto de fadas não era. “Mas não desisti porque sou apaixonada por essa cidade e então fui na insistência até que nos últimos tempos parece que ela começa a me corresponder mais. Amor platônico é bom, mas amor correspondido é melhor ainda”, diz a dramaturga, em entrevista ao HuffPost.  

A grande prova desse amor correspondido aconteceu há um ano. Luh foi a primeira diretora trans a ser convidada pelo Theatro Municipal a criar um espetáculo para a casa. Transtopia estreou em junho de 2019. “Foi muito simbólico estar nesse teatro que carrega o nome dessa cidade, essa cidade que me viu chorar tantas vezes, me viu sem lugar para ficar tantas vezes, que me viu desesperar tantas vezes. Então poder ser acolhida nessa casa foi muito emocionante pessoalmente, além de artisticamente. É um reconhecimento da arte que eu venho fazendo”, desabafa.

Na obra, somente artistas trans. “Colocar em cena tantas mulheres trans, tantas travestis no palco do Theatro Municipal foi histórico, o adjetivo é esse.”

Uma felicidade que é sempre agridoce, porque o pioneiro tem isso... É sempre uma sensação de 'que bom que está acontecendo agora', graças a Deusa, mas, por outro lado... Por que demorou tanto?
Divulgação
Elenco de Transtopia no Theatro Municipal só com mulheres trans.

Esse pensamento é uma constante na vida de Luh, que carrega consigo outras conquistas do tipo. Ela também foi a primeira dramaturga trans a escrever para televisão ao integrar o quadro de roteiristas da série Sessão de Terapia. Além disso, é autora de diversas outras peças encenadas no Rio de Janeiro, São Paulo e Portugal, como Três T3mpos, Restos, A Memória dos Meninos e Carne Viva. Tem orgulho de seu trabalho, mas reflete muito sobre esse lugar do pioneirismo.

“Ok, sou a primeira roteirista trans, mas e a segunda, a terceira, a centésima? Tenho batalhado pela continuidade. Que não seja só uma vez, só a primeira, só um evento. Não é um evento, não é um trabalho que vai transformar a vida de alguém, é a continuidade dos trabalhos. Então ser pioneira é maravilhoso mas tem um peso, é uma responsabilidade.”

Responsabilidade que não chegou do nada. Muito pelo contrário. Nascida em uma família pobre do Rio, ela tem contato com teatro desde muito nova. Lembra com carinho do passeio que fazia com a mãe, ainda criança. “Minha mãe, que é professora, sempre teve uma preocupação em oferecer cultura e, desde muito cedo, nós íamos ao teatro. Eu tive a oportunidade de crescer assistindo teatro, tendo o teatro como uma referência primária.” Assim, escolheu seu caminho. Aos 12 anos começou a encenar, fazer cursos, já certa de que seria essa sua profissão. 

Por vezes precisou fazer alguns bicos para complementar a renda, é verdade. Vendeu algumas coisas também, o que podia. “É até engraçado porque não deixava de ser uma ingenuidade infantil porque imagina sendo preta, pobre, do subúrbio do Rio e eu achava que seria natural e fácil fazer arte neste País e ser escritora, diretora, atriz. Depois descobri que não era fácil, mas foi meio tarde, eu já estava no caminho e segui em frente.” 

Passou a escrever as histórias que queria ver no palco, produziu muitas vezes as próprias obras, contou com ajuda da mãe e enfrentou preconceitos. Mas tinha certeza de seu lugar. “Sempre me senti muito pertencente ao teatro, apesar de me sentir algumas vezes rejeitada, preterida. Mas nunca permiti que ninguém me dissesse que ali não era meu lugar. Em algum momento achei que não tinha forças de continuar lutando pelo meu lugar, mas era uma terra que, para mim, sempre me pertenceu.”

Antes de ter o amor retribuído, foi em solo paulista que ela encontrou de fato o seu lugar - não só artístico. Após anos de teatro no Rio de Janeiro, Luh sentia dificuldade de acesso ao mercado. “Seja por ser preta, por não ser da zona sul carioca, por não ter frequentado determinados lugares, eu me sentia um pouco rejeitada no Rio, apesar das conquistas que foram muito legais. Quando eu venho para SP foi um momento muito marcante da minha vida porque significa em algum ponto um rompimento com a cidade, um rompimento em alguma esfera familiar também e me deparo ainda com mais dificuldades, sendo forasteira, chegando sem ninguém me conhecer, dependendo da boa vontade de estranhos”, recorda-se.

Porém, nesse novo palco, novas possibilidades se abriram. “Venho tentar decifrar essa esfinge que é São Paulo com a sensação de que eu amava a cidade mas ela talvez não me amasse de volta. Mas insisti tanto, eu quis tanto ficar aqui, mas não foi fácil. Venho sem suporte econômico, familiar, e felizmente meu trabalho artisticamente foi bem recebido na cidade. Eu não teria tido a mesma história se não tivesse vindo para São Paulo, sem dúvida.”

Foi também com o cenário da capital paulista que Luh resolveu, em 2017, tornar pública sua identidade de gênero. Como ela mesma explica, isso era algo que ela já vivia de maneira anônima desde sua juventude. Mas a mudança aconteceu mesmo aos 30 anos. “Eu costumo pontuar que a transição começa muito antes. O que acontece é eu me colocar publicamente sobre meu gênero, essa é a diferença, me comprometer comigo mesma e com minha real identidade.” Antes disso, ela tinha medo de tratar a questão dessa forma. Nessa época, Luh já havia conseguido desenvolver sua carreira e ocupava lugares importantes.

Consegui passar e sei o quanto foi difícil e achei que podia colocar tudo isso a perder quando eu me assumi publicamente como uma pessoa trans, como uma mulher. Tinha muito medo, isso me segurou muito.
Divulgação/Arquivo Pessoal
Luh Maza teve receio de assumir sua identidade de gênero, mas seu reconhecimento e os afetos de amigos a ajudaram na travessia.

Mas em 2016, após assinar a versão brasileira do texto canadense Kiwi, Luh ganha reconhecimento. Junto com as boas críticas e indicações para prêmios, ela se sentiu diferente. “Acontece um reconhecimento e, quando ele chega, ele também me liberta. Agora a próxima montanha a escalar era encarar minha identidade e trazer ela para minha vida. Mas, com muito medo de ser rejeitada no teatro, marginalizada, empurrada para condição de sobrevivência onde a maioria das minhas irmãs vive”.

Junto com esse processo, Luh é convidada para trabalhar em um espetáculo com o grupo Satyros, justamente uma de suas motivações para mudar para São Paulo. “Eu estava com muito medo. Imagina, depois de 30 anos você sair de salto e batom na rua, lidar com os olhares. Mas vou e ali eu me encontro com um grupo de pessoas trans que mudam minha vida completamente e se tornam minha família. Pela primeira vez recebi afetos de pessoas como eu e me legitimo nisto: nessa irmandade”, detalha.

Nesse momento, a relação com o seu ativismo — ou artivismo, como ela chama — fica ainda mais forte. “É nessa relação com a comunidade que me sinto pertencente e se torna urgente minha adesão a luta. É muito cansativo, é exaustivo, mas vai para além de uma missão, é uma necessidade, é inescapável. Não tem como eu ser uma travesti preta alienada, não tem como fechar os olhos ao que acontece com o meu povo, meu povo preto, meu povo trans, meu povo dissidente.”

Hoje defende e aborda todas essas questões em seu trabalho. E tem orgulho. Espera conquistar, cada vez mais, naturalidade e humanização do corpos trans e cuidar do caminho para as outras. “É sempre um trabalho extra. Além de escrever e dirigir, a gente precisa educar, e a educação é uma tarefa que custa, pesa e demanda... Precisa estar forte para ter a paciência para educar e ainda fazer o nosso trabalho, mostrar que somos valiosos para além desse título, para além da identidade, que nossa arte tem um valor.”

Mas isso é o seu sentimento para o mundo. Já em relação aos seus, o orgulho que sente é diferente. “Meu maior orgulho hoje é o amor transcentrado, é perceber como conseguimos construir nossos afetos e não só amor romântico e sexual, mas o amor fraterno que a gente construiu em um lugar que me senti humana, amada e amando totalmente. Meu maior orgulho é esse. O encontro potente entre dois corpos trans que se amam independentemente da cisgeneridade, do sistema que os rejeita e isso é poderosíssimo porque amando e sendo amado a gente pode tudo. 

Tenho muito orgulho dos amores transcentrados, inclusive das imperfeições que eles têm, porque são amores e amores são imperfeitos. Somos trans e não somos não-humanos.

O importante mesmo é ter o amor correspondido. Amor recíproco transcende.