OPINIÃO
16/08/2020 05:00 -03 | Atualizado 16/08/2020 05:00 -03

'Lovecraft Country' acerta ao transformar o racismo em terror lovecraftiano

Grande aposta da HBO para 2020, a série criada por Misha Green e Jordan Peele estreia neste domingo (16).

Transportar as histórias de H. P. Lovecraft (1890 - 1937) para as telas é um desafio dos mais complexos. Por mais que a obra do escritor americano tenha grande influência em outras mídias além da literatura, como nos games, por exemplo, traduzir em imagens seu “terror cósmico” (ou lovecraftiano), em que a ameaça – o monstro – é algo além da compreensão humana, se transforma na ruína de milhares de produções.

Mas esse não é o caso de Lovecraft Country, uma das grandes apostas da HBO para 2020 que estreia neste domingo (16) no canal e em sua plataforma de streaming, o HBO GO. O motivo para que a série seja bem sucedida nessa tarefa tão complicada é não cair no erro de materializar essa ameaça incompreensiva para nossas capacidades limitadas em algo físico. Aqui, o monstro é o racismo.

É bem verdade que essa solução não se originou na série criada pela roteirista Misha Green (Sons of Anarchy, Heroes) e o cineasta Jordan Peele (Corra!, Nós), mas no livro de mesmo nome em que ela se baseia, escrito por Matt Ruff e lançado em 2016. Nele, o autor americano usa os elementos característicos das tramas de seu conterrâneo famoso para se apropriar de uma característica sombria do próprio Lovecraft, que era sabidamente racista.

Divulgação
Jonathan Majors como o jovem protagonista Atticus Freeman.

Assim, temos como protagonista Atticus Freeman, um jovem rapaz negro veterano da Guerra da Coreia muito fã de literatura pulp, especialmente H. P. Lovecraft. Ao retornar à sua Chicago natal, no verão de 1954, ele se junta ao seu tio George e à sua amiga Letitia para buscar seu pai desaparecido em uma pequena cidade no sul segregacionista dos Estados Unidos.

No piloto da série a que o HuffPost teve acesso antecipado, boa parte do terror não está ligado aos seres viscosos e tentaculares lovecraftianos, mas ao constante estado de vigilância que os negros sofriam (e ainda sofrem, infelizmente) em uma sociedade essencialmente racista. 

Muito desse horror não tem nada de excepcional, muito menos sobrenatural. São coisas corriqueiras, assustadoramente banais. Como o fato do tio George – na série interpretado por Courtney B. Vance – ser um colaborador do Green Book, um guia de viagem que indicava caminhos e paradas seguras para viajantes negros durante o boom das viagens pelas estradas interestaduais americanas, entre as décadas de 1950 e 1960.

Divulgação
Na série, o tio de Atticus, George (Courtney B. Vance), é um colaborador do famoso Green Book.

Outra dessas ameaças que aparece como destaque no piloto é quando Atticus (Jonathan Majors), Leti (Jurnee Smollett) e George são parados de forma intimidadora por um policial no meio de uma estradinha de terra no interior de Massachusetts. Assim que os avista, ele lhes avisa que aquele município segue a lei das Sundown Towns, ou seja, cidades de população 100% branca que tinham como regra proibir a circulação de negros após o pôr do sol. Em lugares assim, se qualquer pessoa negra fosse pega na rua à noite, as autoridades locais estavam autorizadas a executá-las. Parece algo saído de um filme de terror, mas isso realmente acontecia.

É claro que há, sim, os elementos de ficção científica e terror clássicos tão familiares às tramas de Lovecraft, e eles podem ser vistos já no piloto da série, mas o que faz de Lovecraft Country uma experiência única é o fato de ela subverter o racismo do próprio escritor a seu favor, transformando, ironicamente, esse elemento no âmago do terror lovecraftiano. E, pelo menos até aqui, faz isso com extrema destreza.

Com produção executiva de Green, Peele e J.J. Abrams (Lost, Star Wars - A Ascensão Skywalker), Lovecraft Country estreia na HBO e HBO GO neste domingo (16), às 22h.