ENTRETENIMENTO
19/09/2020 01:00 -03 | Atualizado 19/09/2020 01:00 -03

Louise Fletcher, uma estranha no ninho de Hollywood

Com sua personagem mais famosa, a Enfermeira Ratched, ganhando uma série na Netflix, a atriz premiada com o Oscar reflete sobre sua carreira.

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost; Photos: Getty
 Louise Fletcher, vista aqui em "Uma Escola Muito Doida", "Heroes", "Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine" e "Um Estranho no Ninho".

Duas palavras imortalizaram Louise Fletcher na cultura popular: Enfermeira Ratched. A vilã de Um Estranho no Ninho ainda é o papel definitivo da carreira de Fletcher, uma personagem cujo próprio nome traz à mente a imagem de uma burocrata correta e apavorante. Sua voz pausada e calma fazia Ratched parecer racional, sendo que na realidade era abusiva e louca por poder.

Baseado num romance popular de contracultura escrito por Ken Kesey, Um Estranho no Ninho foi o grande vitorioso dos Oscar em 1976, conquistando o Oscar de Melhor Filme e estatuetas também para Fletcher, Jack Nicholson e o diretor Milos Forman. Em 2003 o American Film Institute nomeou Ratched a quinta melhor vilã de todos os tempos.

Nesta sexta-feira (18) a enfermeira mais assustadora do cinema ganhou uma história de origem sob a forma de Ratched, a série mais recente de Ryan Murphy na Netflix. Sarah Paulson faz o papel de Fletcher.

A trama começa em 1947, quando Ratched consegue um emprego num hospital psiquiátrico experimental na Califórnia. Ao longo de 8 episódios seu passado tenebroso vem à tona, incluindo seu interesse crescente por lobotomias. Ratched adota uma abordagem mais patológica da personagem, algo que fará sentido para os fãs de Murphy, mas pode frustrar alguns dos admiradores puristas de Um Estranho no Ninho.

Louise Fletcher nunca encontrou outro papel que a distinguisse tanto quanto o da Enfermeira Ratched, mas sua carreira seguiu adiante depois de Um Estranho no Ninho. Ela havia saído da indústria uma década antes disso para criar seus dois filhos, retornando quando Robert Altman a persuadiu a fazer um papel em Renegados até a Última Rajada (Thieves like us), que foi produzido pelo marido de Fletcher.

Os pais da atriz eram surdos, e vendo Fletcher comunicar-se com eles pela língua dos sinais no set inspirou Altman a criar um papel para ela em sua obra máxima, Nashville. No último minuto, porém, o diretor entregou o papel a Lily Tomlin, fato que magoou Fletcher profundamente e lhe ensinou o quanto a indústria do entretenimento pode ser volúvel.

Nos anos subsequentes Fletcher atuou em O Exorcista II: o Herege, Projeto Brainstorm, Chamas da Vingança (Firestarter), O Jardim dos Esquecidos (Flowers in the Attic), Jogo Perverso (Blue Steel), Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine, Assassino Virtual, Uma escola Muito Doida (High School High”) e Segundas Intenções. Foi indicada ao Emmy por participações em Picket Fences e Joan of Arcadia e também foi vista em Heroes, ER, Shameless e Girlboss. Apesar desse currículo todo, fica claro que Hollywood não soube muito bem o que fazer com Fletcher depois de Um Estranho no Ninho. Agora, ela está com 86 anos e não se incomoda com isso.

Fletcher me telefonou antes da première de Ratched para discutir sua personagem mais famosa, o fato de ter atuado no último filme de Natalie Wood, o feedback desdenhoso que recebeu de executivos homens e o fato de ter perdoado Robert Altman.

HuffPost: Sem ter assistido à nova série sobre a Enfermeira Ratched, o que você pensa dela?

Louise Fletcher: Torço por eles. Espero que a série seja um sucesso. E será com certeza, porque Ryan Murphy tem o toque de Midas. Acho que não será nem um pouco como o que eu teria imaginado se alguém me tivesse encarregado de criar uma prequela para a Enfermeira Ratched. Minha intenção seria criar uma personagem em quem se poderia acreditar, comparada ao livro. Quando você lê o livro, não sabe nada sobre Ratched, nem uma única informação. No roteiro, tampouco. Milos Forman queria um clima natural. Queria que fosse 100% o tipo de coisa em que você pode acreditar sem dificuldade. Depois de quase cada tomada ele perguntava: “Soou natural?” Porque ele não confiava em sua compreensão da linguagem americana coloquial.

Silver Screen Collection via Getty Images
Louise Fletcher em "Um Estranho no Ninho".

Como atriz, isso te possibilita criar muito você mesma. Imagino que isso nem sempre seja o caso. Como você queria que as pessoas encarassem a Enfermeira Ratched?

Queria que elas vissem uma pessoa do tipo que vemos no nosso dia a dia: uma professora, uma telefonista, cobradora de ônibus, senadora ou presidente – uma pessoa que está convencida de que tem razão e que o que estão fazendo é o melhor para você. “Sente-se e fique calada.” “Acredite o que estou dizendo, porque é uma grande gentileza que estou lhe fazendo.” Não há nada mais assustador que a velhinha do apartamento ao lado que tem poder. O que você não sabe é que há uma pessoa amarrada no porão da casa dela. Estou pensando naquela personagem de Kathy Bates.

Sim, em Louca Obsessão (Misery).

Sim. Uma pessoa familiar, alguém que tem aparência normal. Ela tem cara de que pode ser enfermeira, vive distribuindo sorrisos. Ela diz coisas gentis, mas se você a contrariar, acabou. Você está ferrado.

Tem toda razão. Annie Wilkes em Louca Obsessão e Enfermeira Ratched em Um Estranho no Ninho têm características semelhantes. Muitos vilões do cinema são bombásticos e exagerados. Acho que sua atuação como Ratched inspirou uma abordagem muito mais sutil... 

Uma das maiores dificuldades que tive na minha carreira foi quando fiz um papel em um filme chamado O Jardim dos Esquecidos. Foi um momento infeliz da minha vida, porque não me deixaram converter a personagem em um ser humano. Ela tinha que ser tipo um espantalho, uma bruxa. “Me deixe morrendo de medo” – essa era a orientação que me davam. Tive que refilmar muitas tomadas, porque eu simplesmente me sentia muito pouco à vontade. Aquilo contrariava meu jeito de trabalhar. 

Ratched é tão calma e sutil, especialmente quando está cercada pelo caos da ala psiquiátrica. Você teve medo de que o seu trabalho ficasse à sombra de Jack Nicholson e todos os outros homens, com suas atuações tão fortes?

Tive, mas principalmente por conta de minha voz. Tenho um jeito suave de falar, e não consigo mudar isso de repente, sem mais nem menos. Depois da primeira semana, falei para o mixador de som: “Eles falam tão alto, e suas vozes são fortes. A voz de Jack é forte e clara. Como vai ficar a comparação? Minha voz está muito fraca?”. Ele respondeu: “Acho que você não tem com que se preocupar”.

Michael Ochs Archives via Getty Images
Jack Nicholson e Louise Fletcher nos bastidores do Oscar em 1976.

Em que momento você percebeu que tinha acertado quando decidiu como representar Ratched?

Fomos a Chicago para acompanhar a primeira sessão do filme num cinema da cidade. Foi a primeira vez que assisti ao filme junto com uma plateia grande. Quando McMurphy [o personagem de Nicholson] agarra Ratched pela garganta, as pessoas se levantaram para aplaudir.

E como você se sentiu?

Achei fantástico.

Quando você tomou a decisão de parar de trabalhar como atriz, depois de ter feito muitos trabalhos para a TV nos anos 1950, os produtores estavam dizendo que você era alta demais para ser atraente na tela. Ouvir comentários desse tipo, presumo que vindo da boca de homens, contribuiu para sua decisão de abandonar a indústria, depois de ter engravidado no início da década de 1960?

Não. Não teve nada a ver com minha decisão. Fui à Warner Bros umas 12 vezes antes de me chamarem para fazer um papel. Isso foi na época em que faziam muitos seriados de TV. Havia Maverick, Sugarfoot, 77 Sunset Strip, coisas desse tipo. Eu tinha um carrinho meio capenga Chevrolet que comprara por US$ 90. Foi o primeiro carro meu na vida. Fui nesse carro de West Hollywood à Warner Bros 12 vezes antes de conseguir meu primeiro papel.

Cada vez eu tinha que passar pelo mesmo processo. Primeiro você tem um encontro com o produtor da série e depois com os dois homens, Bill Orr e Hugh Benson, que chefiavam o departamento de televisão da Warner Bros. Cada vez eu ficava pensando: “Meu carrinho não vai aguentar refazer este trajeto mais uma vez”. E cada vez Hugh Benson ou Bill Orr dizia: “Qual é sua altura?” E eu respondia: “Tenho 1 metro e 78”. “Puxa, você é alta”. John Russell (o astro de Lawman) tinha 1 metro e 91. James Garner, o Maverick, 1 metro e 88. E daí?

Bom, 11 vezes me perguntaram “qual é sua altura?”. E nunca me davam o papel. Na 12ª vez, decidi que seria a última vez que eu iria até lá. Quando ele me perguntou “qual é sua altura?”, peguei um lápis, fiz uma marca na parede e falei: “Essa é minha altura. Da próxima vez que vocês quiserem que eu venha aqui, é só olhar essa marca”. E ganhei o papel.

Ouvir um feedback como esse, ou saber que foi aquilo que contribuiu para você não ganhar aqueles papéis, isso não...

Olha, é o seguinte. Eu já era casada. Meu marido [Jerry Bick] trabalhava na indústria e sabia bem mais do que eu sobre ela. Depois daquele dia no escritório deles, a Warner Bros me ofereceu um contrato de sete anos, e eu recusei. Não acredito que realmente fiz isso.

Por que você fez?

Porque meu marido disse: “Eles querem mão de obra barata, só isso”.

Ele provavelmente tinha razão... 

“Querem passar você de uma série para outra e te pagar US$ 750 por semana. Acho que você não deveria fazer.” E não fiz. Pode apostar que meus agentes não gostaram nem um pouco. Um ano depois disso, mais ou menos, tive um filho. E engravidei pela segunda vez muito pouco tempo depois. Eu saía de casa pela manhã quando meus filhos ainda estava dormindo, e quando voltava à noite eles já estavam dormindo de novo. Não consegui mais continuar fazendo. E não me arrependi nem um pouco. Eu fiquei realmente feliz fazendo o que estava fazendo e pelo fato de eu poder fazer e meu marido ter condições de nos sustentar. Não houve plano algum. Só fui voltar 11 anos mais tarde, e eu não tinha nenhum plano de voltar. Simplesmente aconteceu, quase como se fosse meu destino.  

Sunset Boulevard via Getty Images
Max von Sydow, Linda Blair e Louise Fletcher em “Exorcista 2: O Herege”.

E você não voltou, simplesmente – voltou primeiro com um filme de Robert Altman, um cineasta tão notável, e depois para fazer a Enfermeira Ratched e ganhar um Oscar pelo papel. Você deve ter adorado. Mas Nashville, de Altman, também foi celebrado no Oscar daquele ano. Lily Tomlin foi indicada pelo papel que Altman havia criado para você, devido à sua ligação com a linguagem de sinais. Como foi isso para você?

Foi uma coisa bem ambígua. Eu estava ali no palco, olhei para baixo e lá estava Robert Altman sentado embaixo, gesticulando para mim como se estivesse falando na linguagem dos sinais.

Ele estava zombando de você?

Não, acho que estava feliz por mim. Mas o fato é que ele tinha um senso de humor muito peculiar. 

Você fez uma ponta em O Jogador, o filme maravilhoso de Altman de 1992. Isso quer dizer que você conseguiu perdoá-lo?

Acho que sim. Foi por isso que fiz o filme, só para assinalar que “tudo bem”. Meu marido produziu dois dos filmes dele, Renegados até a Última Rajada e O Perigoso Adeus, então nós o conhecíamos muito bem. É um relacionamento longo, e aconteceu alguma coisa que eu não conseguira engolir. Acho que Lily nem sabia de nada. Foi simplesmente uma dessas coisas que acontecem. Acho que Robert simplesmente ficou fascinado com Lily Tomlin. Ele tomou uma decisão com base no que ele quis fazer, não no que eu queria fazer.

Um filme em que você trabalhou depois de Um Estranho no Ninho foi Projeto Brainstorm, que estava à frente do seu tempo. Sua personagem é poderosa e inteligente, e com isso conseguimos ver você demonstrando as características que tornaram a Enfermeira Ratched tão eficaz, mas sem ser uma vilã. Comparado com os outros trabalhos que você estava fazendo na época, foi um projeto instigante para você?

Gostei demais de fazer aquele filme porque adorei meu papel e eu gostava muito de Doug Trumbull [o diretor], e também por todas as razões que você acaba de citar. Eu estava querendo representar uma espécie de heroína. Ela é uma personagem de quem as pessoas gostam, apesar de ter seus problemas. Pude passar uma semana inteira sozinha com a equipe de filmagem, sendo a única atriz no set. Foi uma loucura. Isso nunca antes tinha acontecido comigo.

O filme acabou sendo ofuscado pela morte de Natalie Wood, sua co-estrela, que morreu enquanto vocês ainda estavam filmando.

Perdê-la daquela maneira foi trágico. Foi uma coisa que nunca deveria ter acontecido. E acho que, por conta disso, a MGM deveria ter desistido do filme, em vez de lançá-lo. Desde então, fiquei muito amiga de Robert Wagner [o marido de Natalie Wood, que mesmo considerado inocente no acidente que a matou, ainda é apontado por muitas pessoas como culpado de assassinato]. Fizemos um filme juntos sobre Dennis, o Pimentinha. A gente se divertiu muito. Pude conhecê-lo melhor e me sinto muito próxima dele. Lembro que a partir do dia que ela morreu, ele ficou completamente destroçado.

Projeto Brainstorm foi prejudicado porque a MGM decidiu que preferia recuperar seu dinheiro do seguro. A empresa ouviu depoimentos de diversos departamentos, atores e de Doug Trumbull e decidiu que o filme poderia ser concluído. Mas os efeitos especiais pelos quais Doug Trumbull é conhecido saíram prejudicados, porque não sobrou dinheiro para isso. Foi um milagre o filme ter sequer saído.

Mais ou menos nessa época, você ou recusou ou não foi chamada para alguns papéis que ficaram famosos pelas mãos de outras atrizes. Estou pensando especificamente no papel da mãe em Carrie, a Estranha, Norma Rae, e no papel que Shirley MacLaine fez em Laços de Ternura. Olhando para trás, você fica imaginando o que poderia ter acontecido?

Sabe de uma coisa, é a vida, só isso. Há concorrência e rejeição em nosso setor. As pessoas me dizem: “Quero ser atriz. O que você me aconselha?”. Meu conselho é: “Não faça isso”.

CBS Photo Archive via Getty Images
Fletcher em um episódio da série “Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine”.

Nos anos 1990 você fez um papel recorrente em Jornada nas Estrelas: Deep Space Nine. Você comentou certa vez que podia se divertir no papel porque estava embutida nele a possibilidade de representar bombasticamente, de modo muito teatral. Você fez esse trabalho pelo dinheiro?

Claro. Acho que sim. Com a maioria dos meus trabalhos, preciso do dinheiro. Nunca estive numa situação que me possibilitasse não me importar com o dinheiro. Nunca tive muito dinheiro. Eu não saberia o que fazer com ele. Mas o salário é uma grande ajuda.

Mas Jornada nas Estrelas foi tão divertido porque a equipe era o grupo de pessoas mais profissionais com quem já trabalhei na vida. O modo como elas trabalham juntas é quase como um balé. Todos estão super familiarizados com o gênero e já sabem o que prever. Ficar observando isso funcionar é simplesmente uma coisa bela. É claro que a gente trabalhava muitas horas seguidas, mas isso era por conta da maquiagem e do cabelo. Mesmo assim, achei divertido demais.

Não sei se você sabe até que ponto Segundas Intenções é relevante para uma geração em particular. Qualquer pessoa que era adolescente em 1999, quando esse filme saiu, mais ou menos adora o filme. Sei que seu papel foi pequeno, mas você tem consciência do legado que deixou?

Sei, até certo ponto, por causa das cartas que recebo. As pessoas me escrevem e mencionam certos filmes. Segundas Intenções é citado mais que outros. Não mais que Um Estranho no Ninho, Projeto Brainstorm ou Jornada nas Estrelas, mas é citado. Às vezes é o único filme citado na carta. São pessoas de uma certa idade. É verdade, reconheci isso.

Você estava trabalhando com um elenco muito jovem e descolado. Você criou um vínculo maior com alguém no set?

Não muito, porque eles eram praticamente adolescentes na época e estavam todos super envolvidos uns com os outros [risos]. A ligação entre eles três [Reese Witherspoon, Sarah Michelle Gellar e Ryan Phillippe] era tão forte que eu não passava de alguém de fora.

Aquela foi a última vez que andei a cavalo. Na vez anterior, eu não estava filmando, mas estava na França. Uma amiga minha tinha cavalos e me pediu para cavalgar com ela para ver a vista. Fui com ela. Andamos no meio de um milharal que acabava de ser ceifado. Não sabíamos que havia uma colmeia de abelhas ali. Levei 70 picadas, caí do cavalo e sofri choque anafilático. Acordei e percebi que estava morrendo no meio de um milharal, que meus filhos iam ler no jornal que eu morrera de picadas de abelha. Fiquei mal. Passei quatro dias no hospital.

Nossa! Espero que andar a cavalo em Segundas Intenções não tenha sido tão traumatizante quanto essa experiência. Falando de modo bem geral, o que você pensa da situação atual de Hollywood em termos das oportunidades que estão sendo oferecidas às mulheres?

As coisas melhoraram muito para as mulheres, e isso me alegra. E acho que há muito mais material no mercado hoje do que jamais houve, graças a como as pessoas estão encarando o entretenimento. 

Que tipo de conversas você anda tendo com seus agentes ou com qualquer pessoa na sua vida sobre o tipo de trabalho que pode querer fazer?

Estou com 86 anos. Teria que ser algo muito especial, porque não tenho a energia física que eu tinha no passado. Não sei se vou voltar a trabalhar de novo. Teria que ser a coisa absolutamente certa para mim. Os atores não precisam se aposentar, porque sempre há a possibilidade de a coisa certa aparecer. Lionel Barrymore passou quantos dos últimos anos de sua carreira numa cadeira de rodas?

NBC via Getty Images
Deanne Bray e Fletcher em um episódio de “Heroes”.

Você disse em outra ocasião que enxergou muito de Richard Nixon na
Enfermeira Ratched. Pensando nisso desde a perspectiva de hoje, você pensa o mesmo em relação a Trump? Ou você acha que Trump é mais como McMurphy (Jack Nicholson), regido pela testosterona? 

Quando falei em Nixon, é porque ele abusou de seu poder. Em qualquer situação em que uma pessoa exerce poder sobre outra, sempre haverá abuso de poder. Sempre há vilões que fazem a coisa errada. Richard Nixon abusou de seu poder, fez coisas erradas e tentou justificá-las. Se há alguma diferença em relação a Trump? A diferença é que Trump é uma personalidade extrovertida, alguém que se projeta tremendamente. Ele ampliou nossa visão de como pode ser um narcisista. Ando assistindo a sitcoms turcas só para calar a voz dele em meus ouvidos.

Antes de encerrar, você me permite soltar alguns spoilers de Ratched? Já assisti a cerca de metade da primeira temporada e adoraria te perguntar o que você acha dessa interpretação da personagem.

Posso te fazer uma pergunta primeiro?

Claro.

É um pouco como um filme de terror?

Sim, é bem isso. 

Vi um pouco do trailer, e para mim, pareceu que eu estava vendo um trailer de um filme de terror, então achei que não tinha nada a ver com Um Estranho no Ninho

Bom, isso é interessante, porque sei que foi você quem deu à Enfermeira Ratched seu primeiro nome, Mildred, que não é citado nem no livro nem no roteiro. A série, que por razões óbvias cita o livro de Ken Kesey e o filme de Milos Forman como seu material de origem, também usa Mildred como o primeiro nome de Ratched. Quer dizer que a série se posiciona dentro do mesmo mundo de Um Estranho no Ninho. Ratched ainda é enfermeira que trabalhou na Segunda Guerra Mundial, mas uma coisa é bem diferente de como você a representou: ela é patológica. Ela se dispõe a matar para conseguir o que quer. Isso contradiz muito do que você fez com a personagem.

Acho que não precisamos falar muito mais sobre o fato de que as duas representações têm pouco a ver uma com a outra, mas eu pelo menos me sinto tranquila com uma coisa: não vai acontecer nada com o filme. Só posso dizer que todos os dias quando estávamos no set, Milos Forman enfatizava a importância do comportamento natural. Ele não queria que doença mental fizesse parte da vilã. Tive vários encontros com Milos ao longo de um ano inteiro antes de fazer o filme, então quando me deram o papel, que foi no último minuto, eu já conhecia a história a fundo.

A lista de mulheres que foram cogitadas para o papel é longa: Ellen Burstyn, Anne Bancroft, Angela Lansbury. Você sabia, na época, que elas também estavam sendo consideradas?

Não. Só tomei conhecimento disso quando já tínhamos feito tipo um terço do filme. Um repórter me perguntou como eu me sentia por ter aceito um papel que tinha sido rejeitado por outras atrizes, citando cinco atrizes famosas. Fiquei chocada. Não sei a quem eles pensaram que tinham oferecido o papel. Só pensei: “Este é meu papel. É meu.” Mas, se eu não tivesse recebido, tudo bem também. Eu teria entendido se fosse Angela Lansbury que o fizesse, ou Jane Fonda ou qualquer outra pessoa. Estou contente que você me falou da série. Eu receava que ela fosse interferir com minha personagem de alguma maneira, mas não vai porque é totalmente diferente.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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