ENTRETENIMENTO
12/11/2019 19:28 -03

‘Los Espookys’ é a melhor comédia da atualidade sobre a vida no trabalho

Empregos já são estranhos. A nova série da HBO só os torna ainda mais bizarros.

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"Los Espookys" mostra verdades do ambiente de trabalho numa premissa surreal.

A melhor comédia sobre trabalho que vi em anos não se passa num escritório corporativo típico. Los Espookys, série da HBO criada pelos comediantes Julio Torres, Ana Fabrega e Fred Armisen, trata de pessoas que estão tentando se dedicar às suas paixões, mas, neste caso, a paixão é criar cenas de terror sobrenatural.

Los Espookys é o nome da empresa de quatro amigos. Eles criam cenas falsas de terror para cliente que incluem um padre que quer encenar um exorcismo quando sua popularidade começa a cair, uma mulher misteriosa que quer um “susto de herança” e uma pesquisadora que precisa de alienígenas reais para uma apresentação que vai fazer para o governo.

A série se passa em um país não-identificado da América Latina, onde o sobrenatural é coisa do dia a dia e a embaixadora dos Estados Unidos é uma loira que pode ser subornada e depois presa num mundo paralelo por acidente, quando uma das cenas dos Espookys dá errado.

Conflitos criativos entre Renaldo (Bernardo Velasco) e seus sócios mais pragmáticos, Andrés (Torres) e Úrsula (Cassandra Ciangherotti), se desenrolam enquanto eles ainda eles estão pintados de verde (resquícios de um trabalho). A comédia é que, por mais absurdo que seja o pedido do cliente, o desafio sempre é encarado de forma séria e sincera.

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Mais um dia de trabalho para 'Los Espookys'.

Mas a premissa surreal da série também mostra verdades reais sobre o trabalho e a nossa relação com ele.

A série destaca a estranheza da economia do frila 

O terror não é a paixão de Tati (Fabrega), quarta sócia da empresa e irmã excêntrica de Úrsula, mas ela continuam com Los Espookys. Tati se torna a principal cobaia do grupo. Eles a vestem de monstro marinho ou garota possuída que precisa ser exorcizada.

Ser parte do grupo é apenas um dos vários trabalhos de Tati, e Fabrega é um dos destaques da série. Tati é uma mulher perdida, porém determinada; em seus outros bicos, ela opera um ventilador manual para resfriar o padre, gira os braços de um relógio, amacia sapatos novos para outros, entra num esquema de estelionato envolvendo nutrição e funciona como um FitBit humano, acumulando passos para um cliente não identificado.

Se você já fez algum tipo de trabalho que paga pouco, mas exige muito, pode se reconhecer em Tati. A certa altura, ela reclama com Andrés: “Vocês todos sabem o que estão fazendo com suas vidas, mas... O que eu estou fazendo? Onde vou parar? Não posso ficar amaciando sapatos. Não consigo andar pelos outros. Não posso ajudar as pessoas a perder, ganhar ou manter peso. Não sou relógio. Tudo que tento dá errado”.

O trabalho mais difícil de Tati é o mais realista do programa. Ao concordar em vender suplementos nutricionais, ela acaba devendo 200 mil pesos ao Hierbalite, um esquema de pirâmide que depende do recrutamento de pessoas vulneráveis. “Sou minha próprio chefe, decido meus horários e me pago o salário que mereço”, é o discurso do presidente da Hierbalite, Mark Stevens, para as presas.

Já ouviu algo parecido? Fabrega disse que a empresa é um aceno proposital à Herbalife, um esquema de marketing multinível que é popular em países da América Latina e que em 2016 fez um acordo com o governo americano que envolvia o ressarcimento de 200 milhões de dólares para pessoas que perderam dinheiro com base em falsas promessas de ganhos.

O que Tati está disposta a fazer pelo trabalho não segue a lógica típica de pessoas que querem ganhar dinheiro, mas muito do  capitalismo pode ser inexplicável e estranho. No capitalismo sem limites, a fortuna de uma pessoa normalmente vem à custa de outras.

O que mais curto na busca eterna de Tati por um propósito é que ela se recusa a aceitar o status quo. Ela simplesmente não está na mesma frequência em que nós operamos. “Vivo o passado, o presente e o futuro ao mesmo tempo”, diz Tati, explicando seu jeito de ser.

Isso me lembra uma performance semelhante mencionada no livro da crítica Jenny Odell, How To Do Nothing: Resisting the Attention Economy (como não fazer nada: resistindo à economia da atenção, em tradução livre). Odell relembra uma peça de performance de 2008 em que a artista finlandesa Pilvi Takala montou em uma empresa de contabilidade na qual ela foi empregada como trainee de marketing, usando um nome falso.

No ambiente de trabalho frenético, Takala se sentava a uma mesa vazia e olhava para o nada. Quando perguntavam o que ela estava fazendo, ela respondia que estava fazendo “trabalho de pensamento”. Ela andava de elevador para cima e para baixo para “ver as coisas de uma perspectiva diferente”. A performance deixou os colegas de trabalho pouco à vontade e resultaram em e-mails urgentes sobre o comportamento da artista.

“No ponto mais alto, essas recusas [de seguir o status quo] podem significar a capacidade do indivíduo de ação autodirigida contra o fluxo permanente; no mínimo, elas interrompem a monotonia do cotidiano”, escreve Odell.

Trabalhar por si mesmo é uma lição sem preço

Se você já conheceu um de seus ídolos e ele ficou aquém da sua expectativa, sabe que querer um relacionamento seja algo que não é uma decepção comum na vida profissional.

Para Renaldo, o gótico otimista dos Los Espookys, essa experiência vem com a esperada oportunidade de trabalhar como maquiador para sua heroína, a diretora de cinema americana Bianca Nova. Renaldo é o coração mole do programa, assumindo trabalhos extras com clientes difíceis, lutando para conseguir um visto para uma viagem aos Estados Unidos e, no fim das contas, largando o Los Espookys – tudo isso para trabalhar com Bianca.

Mas ela acaba sendo uma diretora ríspida e exigente, que acha que feedback é crítica inútil. Ela o chama de Reynaldo de propósito, mesmo depois de ser corrigida. Renaldo mantém a atitude positiva e aguenta tudo calado, dizendo que A Mulher Sem Olhos, de Nova, mudou sua vida. Ela corta bruscamente essa janela de vulnerabilidade, afirmando: “Não tenho tempo para o fardo que são seus sentimentos”.

Depois dessa, Jacqueline, colega de Bianca, dá um choque de realidade em Renaldo. O trabalho que deu a diretora o status de de ícone do terror “foi trabalho de equipe”, diz Jacqueline. “Precisamos de um exército para executar o brilhantismo dela. Um exército de ajudantes sem rosto que fez isso acontecer. Você tem de se perguntar: você quer ser uma engrenagem da máquina Bianca?”

Ele não quer. “Estou aqui só vivendo o sonho de outro”, diz Renaldo a Bianca, quando ele diz para a diretora que está voltando para seu antigo trabalho com seus amigos. É a lição que cada um dos membros do Los Espookys aprende à sua maneira. E uma lição que nós também podemos aprender.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.