OPINIÃO
28/02/2020 06:24 -03 | Atualizado 28/02/2020 06:24 -03

'Locke & Key' tinha tudo para ser a nova grande série da Netflix, mas não consegue

Ao mudar drasticamente o tom da HQ original, "Locke & Key" é prejudicada por roteiro capenga e atuações fracas.

À primeira vista, adaptações parecem ser um trabalho mais simples do que criar um material original do zero, mas a tarefa de transportar um texto de uma mídia para outra é cheio de armadilhas e Locke & Key - série que estreou na Netflix no começo de fevereiro - cai em algumas delas.

Produção baseada em uma série de quadrinhos escrita pelo premiado Joe Hill (filho de ninguém mais, ninguém menos que Stephen King) e desenhada pelo chileno Gabriel Rodríguez, Locke & Key tenta se equilibrar entre ser o mais fiel possível ao texto original e mudar de forma drástica o tom da história para agradar uma audiência maior - muito por conta do sucesso de Stranger Things.

São duas formas distintas de se trabalhar com uma adaptação em um só produto que resulta, claro, em uma obra confusa, sem foco. Mesmo que traga alguns bons momentos.

É claro que não há uma fórmula infalível quando se trata de adaptações. Ser extremamente fiel ao material de origem ou usá-lo apenas como uma base de sustentação para uma história que busca outro caminho são estratégias que podem dar muito certo ou muito errado. O que vale mesmo é o bom senso para se perceber o que pode funcionar em uma mídia e não ser eficiente em outra. Aqui, no caso, quadrinhos e televisão.

Nos quadrinhos, Locke & Key é uma obra adulta, violenta, com forte carga emocional e que se utiliza de elementos fantásticos com muita moderação. Já a série é voltada a um público infanto-juvenil, tenta amenizar ao máximo as situações mais violentas e o drama de seus protagonistas, e usa e abusa dos elementos fantásticos da trama: chaves que possuem, cada uma delas, um poder mágico específico.

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A família Locke tenta curar seus traumas com uma ajudinha mágica de uma misteriosa mansão centenária. 

A história central tanto da HQ quanto da série é, basicamente, a mesma. Após o assassinato do conselheiro estudantil Rendell Locke (Bill Heck), morto por um aluno da escola em que trabalhava, sua esposa Nina (Darby Stanchfield) e seus três filhos, Tyler (Connor Jessup), Kinsey (Emilia Jones) e Bode (Jackson Robert Scott) se mudam de Seattle para a pequena Matheson, uma bucólica cidade litorânea na Nova Inglaterra onde fica a mansão da família Locke. 

O plano é curar suas feridas do trauma em um novo ambiente, reformar a casa antiga e vendê-la por um bom preço para que eles pudessem recomeçar em outro lugar. Mas, chegando lá, o pequeno Bode descobre que há algo estranho na centenária mansão. Ao explorar o local, ele conhece uma suposta garota que vive dentro de um poço, que conta para ele que naquele local há chaves com poderes mágicos.

As chaves aqui são - com o perdão do trocadilho - o elemento-chave na relação conflituosa entre a HQ e a série. Na produção da Netflix, elas são usadas sem a menor cerimônia. Só para se ter uma ideia, no primeiro livro da HQ conhecemos apenas uma das chaves mágicas. Já no primeiro episódio da série somos apresentados a duas delas, e, até o quinto, conhecemos pelo menos umas seis.

Há uma chave que te transporta para qualquer lugar no mundo, uma que permite ver o que há dentro de sua mente, uma que te transforma em um fantasma, outra que muda a sua aparência... Acredite, são muitas. E todas elas são jogadas na história de forma tão acelerada que esses poderes são banalizados, tirando todo o peso da carga emocional dos dramas pessoais dos membros da família Locke.

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Laysla De Oliveira como a vilã Dodge.

Para complicar ainda mais essa equação, o roteiro é tão perdido que busca soluções exdrúxulas com o único objetivo de esticar a trama, pois alguns problemas poderiam ser resolvidos em questões de segundos usando uma chave específica.

Isso é algo que acontece com frequência com a vilã Dodge (Laysla De Oliveira), que fica presa a uma regra simplesmente ridícula para que toda a trama não acabasse em cinco minutos. Poderosa e esperta, ela é constantemente derrotada por Bode, um menino de 12 anos, porque ela só pode ter as chaves quando alguém as entrega a ela de bom grado.

Outro ponto fraco da série é o elenco. Com exceção do garoto Jackson Robert Scott, todo o resto do cast é, ou sem sal, ou muito canastrão. 

Dito tudo isso, a série ganha quando se agarra ao material de Hill, único motivo para que não se transforme em um desastre. No final das contas, a história base salva a produção, mantendo a curiosidade do espectador com alguns (poucos) bons cliffhangers e abrindo possibilidades interessantes para o futuro, como a história de origem das chaves mágicas, por exemplo.