OPINIÃO
04/08/2020 03:00 -03 | Atualizado 04/08/2020 03:00 -03

Como cuidar de quem cuida (começando por você)?

Uma reflexão sobre a centralidade das mulheres nas profissões e nos papéis de cuidado e sobre a urgência de cuidar de quem cuida.

Vivemos momentos que testam as nossas ideias, os nossos valores e as nossas práticas. E se quisermos olhar para o futuro sem medo, este é precisamente o momento de cuidar. Pois para sairmos desta crise mais fortes, precisamos cuidar dos mais fracos. Para termos comunidades mais saudáveis, precisamos cuidar dos doentes. De forma especial, precisamos reconhecer e cuidar das mulheres e meninas, responsáveis por mais de três quartos do cuidado não remunerado e que compõem dois terços da força de trabalho envolvida em atividades de cuidado remuneradas.

Talvez exista algo que todos nós possamos fazer. Começando por reconhecer que estamos privados de algo que é parte de nossa humanidade: o convívio social, pelo menos em sua forma presencial. O confinamento necessário neste momento, aumenta a nossa vulnerabilidade emocional e as sensações de ansiedade e de medo são naturais. A primeira coisa que cada um de nós pode fazer, para nos redimir da solidão, é nos disponibilizarmos a escutar. Escutar sem julgamentos é uma forma de dizer, sem a intermediação das palavras: eu te reconheço, eu te valorizo, eu te acolho.

Se conseguirmos realmente fazê-lo teremos desenvolvido uma nova apreciação por aquelas mulheres e meninas que invisivelmente fazem isto, por meio da linguagem do cuidado, desde sempre.
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"O Rabino Jonathan Sacks propõe um exercício simples e transformador. Que tal começar por uma mudança de linguagem?"

Cultivar um ambiente acolhedor é separar momentos na agenda para falar com aquelas pessoas que fazem toda a diferença do mundo na nossa vida apenas para perguntar: como você está? Quem são essas pessoas? Aquelas com quem você sai de uma conversa se sentindo mais leve ou mais instigada ou até desafiada. Pense naquele grupo das pessoas, diferentes de você, que te fazem crescer, assim como aquelas que compõem o seu espaço de segurança. Tomara que ao sonhar com as pessoas que você adoraria encontrar após a pandemia estejam aquelas que você escolheu justamente porque pensam diferente de você, mas com quem você compartilha aspirações.

Enfatize a força e a potência das comunidades. O Rabino Jonathan Sacks propõe um exercício simples e transformador. Que tal começar por uma mudança de linguagem? Começando agora, faça a experiência de toda vez que você encontrar o sufixo ‘auto’, substituí-lo por ‘outro’. Autoajuda por ajuda ao outro, autoestima por estima ao outro. Se conseguirmos realmente fazê-lo teremos desenvolvido uma nova apreciação por aquelas mulheres e meninas que invisivelmente fazem isto, por meio da linguagem do cuidado, desde sempre. Teremos então começado a criar as bases da nossa autorredenção como uma sociedade em que todos se sentem em casa.