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18/10/2019 14:59 -03 | Atualizado 18/10/2019 18:40 -03

Informada de saída da liderança pela imprensa, Joice chama Bolsonaro de 'ingrato'

Deputada também alfinetou o filho do presidente, chamou Eduardo de 'menino'.

Amanda Perobelli / Reuters

Um dia após saber pela imprensa que foi destituída da liderança do governo no Congresso, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) afirmou que o presidente Jair Bolsonaro foi “ingrato e mal educado”. “Mas eu conheço o jeitão e não esperava qualquer tipo de gentileza”, disse ao chegar para a reunião da Executiva Nacional do partido, em Brasília. 

“Eu tirei um grande peso das minhas costas. Tem coisas que a gente sacrifica muito quando é líder, engole muito sapo e defende coisas que você nem acredita, porque são ossos do ofício. Estou realmente muito tranquila, porque entreguei o que tinha que entregar. Ninguém fez mais pela reforma da Previdência do que eu”, desabafou. 

Ela completou, dizendo que não apenas trabalhou pela Previdência, como ajudou a aprovar um projeto de lei do Congresso (PLN) que autorizou a liberação de crédito extra de R$ 248 bilhões ao governo. “Ninguém entregou um PLN na história de R$ 248 bilhões ao presidente, o que deu a ele aquele fôlego inclusive para escapar de um eventual processo de impeachment”.  

O PLN liberou verba para o governo seguir com programas, como Bolsa Família, que estavam sem dinheiro. Em entrevista a O Globo publicada nesta sexta, a deputada destacou que, sem isso, “o presidente teria que cometer pedaladas, como Dilma cometeu para pagar esse benefícios sociais” e “estaria com o pescoço na guilhotina para um processo de impeachment a depender de eventuais desgastes de popularidade”. “Com o PLN, retiramos essa guilhotina do pescoço do presidente. E quem coordenou fui eu”, afirmou ao jornal carioca. 

A relação entre Bolsonaro e Joice já vinha estremecida com a aproximação da deputada do governador de São Paulo, João Doria, presidenciável pelo PSDB. O presidente chegou a dizer a interlocutores que a ex-líder estava “com um pé lá, outro cá”, referindo-se a um possível desembarque dela do PSL e ida para o tucanato. 

Desde semana passada, com o agravamento da crise no PSL, quando um grupo de deputados assinou uma lista em defesa do presidente e o nome de Joice não estava lá, contudo, os descontentamentos ficaram mais explícitos. Em suas redes sociais, a parlamentar chegou a criticar a iniciativa da ala bolsonarista da sigla, afirmando que aquilo expunha o mandatário e que assuntos internos do partido deveriam ser tratados dentro da legenda. 

A gota d’água veio após a interferência de Bolsonaro, na quarta (16) para destituir da liderança da Câmara o Delegado Waldir (GO). Joice Hasselmann ficou do lado do líder e acabou tendo sua “cabeça servida em uma bandeja”, como descreveu nesta sexta. 

“O presidente da República é o presidente de todos nós. Ponto. Creio que erra o presidente ao se meter em uma questão partidária. Ele como presidente é a entidade máxima deste País. Ele não pode descer dois, três degraus, porque isso desmerece o presidente e o enfraquece. Mas acho que ele tem que ficar no PSL. O PSL precisa do presidente e o presidente precisa do PSL. Ele tem que fazer papel presidente, não de articulador para derrubar líder”, avaliou. 

Para a deputada, é natural que haja disputas internas, que ela chamou de “balaio de gato”, e disse acreditar que o PSL “sai mais forte”. “Estamos separando o joio do trigo. Estamos vendo quem são os oportunistas. Começa a ver quem são adultos, crápulas e crianças mimadas. Temos que fazer essa divisão. Maioria do partido está unida e está conseguindo segurar as pressões. E não é qualquer pressão. É a estrutura do Palácio do Planalto, o filho do presidente da República.”

Filhos do presidente

Ela chamou Eduardo Bolsonaro de “menino” e disse que tudo o que ele conseguiu até hoje “foi à sombra” do pai. “Não vou sacrificar minha palavra botando um menino na liderança que não consegue nada sozinho. Mesmo agora, à sombra do presidente, consegue ser líder. E se conseguir, porque a pressão continua, não vai ser legitimado, porque um líder busca a liderança, exerce a liderança. Não é alguém ligando e dizendo:  ‘assina aqui porque eu estou mandando’. Lutei contra Lula e Dilma. Não vai ser meia dúzia de moleques que vai me intimidar”. 

Questionada sobre o quanto os filhos do presidente e a influência deles prejudicam a articulação do governo, ela ponderou que o senador Flávio Bolsonaro é  mais “maduro”, “mas está com suas encrencas”, em referência à investigação no Ministério Público do Rio de Janeiro de que havia um esquema em seu gabinete de “rachadinha”. “Acho que a investigação tem que seguir. Pau que bate em Chico, também bate em Francisco. Não pode ter uma legalidade e moralidade seletiva”, frisou e acrescentou: “Os meninos mais midiáticos atrapalham desde o inicio do governo. Lá vem um tuíte e mela tudo. Tirei folga do papel de bombeira.”

Logo após subir para a reunião na Executiva nesta sexta, ela criticou posts da ala bolsonarista que estão circulando com insinuação sobre sua índole.