ENTRETENIMENTO
25/11/2019 04:00 -03

'Acho que estou atolado nos anos 1990', diz Liam Gallagher ao promover seu novo disco

Em entrevista ao HuffPost, ex-vocalista do Oasis fala sobre 'Why Me? Whay Not', seu irmão e o impacto duradouro de sua antiga banda.

Tom Beard
"Não estamos curando o câncer. Estamos fazendo música e curtindo", diz um revigorado Liam Gallagher.

Liam Gallagher sabe exatamente onde se encaixa no mundo da música. O ex-vocalista do Oasis tem as raízes plantadas firmemente no rock’n’roll, com um grande aceno em direção ao passado.

Ele tem plena consciência de que assim que abre a boca para cantar, fica difícil separá-lo das canções do Oasis que o tornaram famoso. E, para ele, tudo bem.

Aquela voz tão conhecida está em toda parte em Why Me? Why Not, o segundo álbum solo de Liam, seu primeiro lançamento solo desde As You Were, de 2017. Ele co-escreveu as faixas do álbum, que canaliza influências que vão dos Beatles ao The Who, passando por T. Rex.

Será que Liam gostaria que o Oasis se reformasse? Claro que sim. Mas, como bem sabem os fãs, suas brigas públicas com seu irmão e co-fundador do Oasis, Noel Gallagher, são históricas. Então Liam está contente em voar solo por enquanto. Afinal, por que não?

Liam falou com exclusividade ao HuffPost sobre suas músicas novas, seu irmão e o impacto duradouro do Oasis.

HuffPost: As pessoas andam dizendo coisas boas sobre o álbum. O que você acha disso? Você presta atenção a esse tipo de coisa?

Liam Gallagher: Não saio em busca procura de elogios, mas se as pessoas me dizem que o álbum está sendo bem recebido, claro que presto atenção. Na realidade, eu avalio através dos fãs. Se os fãs gostam, fico contente, porque em última análise são eles que vieram ouvir a música ou comprar o álbum ou sei lá o quê. Se eles estiverem curtindo as músicas, então fica bem mais fácil para mim subir ao palco e cantar.

Este é seu segundo álbum solo. Como você abordou o trabalho desta vez, comparado ao último? 

Simplesmente mergulhamos de cabeça. Achamos que as canções precisavam ser um pouco melhores. As You Were foi bom, mas havia lugares onde podíamos fazer melhor, sem dúvida alguma. Acho que foi um pouco melhor comigo mesmo fazendo minhas próprias canções. Era isso que faltava, o instinto certeiro. E essas canções são todas co-escritas. Acho que por conta disso o álbum é melhor. 

Jeff Spicer via Getty Images
Liam Gallagher recebeu o troféu de Ícone do Rock no MTV European Music Awards 2019.

Como você descreveria o som deste álbum?

É um pouco de glam rock. É música clássica, só isso. Não estou querendo reinventar a roda. Estou feliz com nossa música rock’n’roll para guitarra. Não sou eu quem vai inovar. Para mim, não é preciso mudar nada. O mundo parece estar em situação pior agora. Seria de se imaginar que haveria mais teens aí fora quebrando tudo.

Como a indústria da música mudou nos últimos anos, para você?

Eu mantenho distância disso. Acho que só usei o Spotify uma vez na vida, e não pretendo repetir a dose. Nem sei como usar. Não faço a menor ideia. Parte disso é porque o desconhecimento é ótimo. Eu não tomei conhecimento de todas essas novas maneiras de ouvir música, e estou contente assim. Pode dizer que estou atolado nos anos 1990. Ainda ouço músico no toca-discos. 

Ando lendo algumas das resenhas de seu novo álbum. Uma delas o compara a seus tempos de glória com o Oasis. Como você se sente quando ouve algo assim?

Fico superfeliz. Muita gente acha que estou atolado nos anos 1990. Estou, obviamente. Não estou louco para me afastar correndo do som quem me converteu em quem sou. Estou feliz com esse som. Eu poderia cantar uma canção de reggae e ainda teria o som do Oasis. Algumas pessoas parece que pensam que tudo tinha a ver com Noel. Noel escrevia as canções, mas era a minha voz naquelas canções. Então ela sempre vai fazer você se lembrar do Oasis. Essa é a minha voz. Não tenho um problema com isso.

Mick Jagger poderia fazer alguma outra coisa, mas ainda soaria como os Rolling Stones. Sei que há algumas pessoas aí fora dizendo “o sujeito ainda está parado na década de 1990”. Não estou parado em lugar algum. Estou em 2019, estou me destacando por ser diferente e tenho orgulho disso.

Por que você acha que se destaca por ser diferente?

Porque tenho 47 anos. Não estou nem aí. Uso as mesmas roupas que usava quanto estava no Oasis. Não estou aderindo à festa. Ainda sou um pouco punk. Não estou jogando o jogo. 

Não acho que 47 anos seja tão velho assim.

60 anos também não é. Portanto, ainda tenho 13 anos pela frente. Você só é jovem na medida em que sua visão do mundo é jovem, e eu me sinto como se tivesse 18 anos. Gosto de me cuidar. Não sou obcecado por ser super saudável. Se eu quero correr, eu corro. Se quero sair para o pub, vou ao pub.

Como você se mantém fiel a si mesmo em seu próprio dia a dia e em sua música?

É fácil. Sei quem sou. Durmo bem à noite. Muitas pessoas parecem ainda estar tentando se encontrar. E quanto à música, não canto nada que não mexa comigo. Acho que sou meio parecido com as pessoas que vêm me ver cantar. 

E por falar nisso, como são seus shows hoje em dia? Você vê gente que está se interessando por sua música pela primeira vez?

Sim, vejo gente se interessando pelo trabalho do Oasis. Vejo um monte de jovens de tipo 16 anos vindo aos shows, muitos rostos jovens. E eles trazem um pouco de vibe. É bacana ter gente jovem pulando e fazendo um pouco de barulho. O Oasis era uma banda grande e tinha um impacto grande. Acho que temos sorte porque recebemos os benefícios disso, com muitas gerações diferentes vindo para nossos shows. 

Quando você olha para trás e pensa no impacto que vocês tiveram, no que você pensa?

Não sei, cara. Só Deus sabe. Canções boas. Obviamente as pessoas da banda eram singulares. Não éramos tímidos. Púnhamos a boca no trombone, falávamos e ainda falamos muito palavrão. Boa música. Cantávamos bem. Nosso visual era cool. A gente falava o que estava pensando e o que nos preocupava; acho que é isso que faz falta hoje. Acho que não há muitas canções boas aí fora. E hoje em dia todo o mundo toma cuidado com o que fala, para não ser trolado. Acho que se você fala muita besteira, de vez em quando vai soltar alguma coisa um pouco genial.  

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Os irmãos Liam e Noel Gallagher formaram o Oasis em Manchester em 1991.

Na última vez que conversamos, em 2017, eu te perguntei o que seria preciso para o Oasis se reunir de novo, e você disse que para isso acontecer seria preciso você e seu irmão se gostarem. Alguma coisa mudou desde então? 

Não mudou nada. Está tudo exatamente na mesma. Ele ainda acha que é o chefe, que é o máximo. O ego dele está fora de controle. Eu tenho tido algum sucesso solo, mas preferiria muito estar na banda, porque era uma banda boa. Seria bacana tocar todas essas canções. Todo o pessoalzinho jovem está vindo ouvir. Mas não vai acontecer. Ele está fazendo as coisas dele. Eu estou fazendo as minhas. E ainda falamos mal um do outro. Então é isso, como você pode ver, não vai acontecer.

Que conselho você daria a alguém que está despontando na música hoje? 

Não forme uma banda com seu irmão. Não, estou brincando. Falando sinceramente, faça o que sua inspiração lhe manda fazer. Descubra o que você gosta e então procure se esmerar nisso. 

Você está trabalhando solo há alguns anos já. Você antevê outro disco solo mais para frente?

Com certeza. Eu quero. Eu estaria disposto a lançar outro álbum no ano que vem. Quando as coisas estão indo bem, isso é bom, certo? Não preciso que me arrastem para um estúdio contra minha vontade. Não estamos curando o câncer. Estamos fazendo música e curtindo. Além disso, estou escrevendo com outras pessoas, então o trabalho avança muito mais rápido. Por que não? Além disso, não há mais nada para eu fazer. Há um limite a quanto tempo você aguenta ficar parado dentro de casa. A única coisa que sei fazer é essa: fazer e cantar música. A gente nunca sabe quando a sorte vai mudar, então agora, enquanto todo o mundo está se divertindo, vamos fazer mais música, cara.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.