LGBT
07/07/2019 12:13 -03

LGBTs e moda: Um caldeirão de influências recíprocas

Sempre na vanguarda do mundo fashion, LGBTs conhecem as artimanhas do que vai cair no gosto popular logo, logo.

Charles Sykes/Invision/AP
Com seu reality show, RuPaul lançou holofotes sobre a cultura drag, que está influenciando decisivamente a moda desta década.

De Alexander McQueen a Gianni Versace, de Giorgio Armani a Marc Jacobs. Passando por Yves Saint Laurent, Jean Paul Gaultier, e o recém-falecido Karl Lagerfeld, a lista de estilistas gays ainda daria para uma extensa passarela. Mas não é só na alta costura que a relação entre LGBTs e a moda se aproxima.

“O caminho é transversal, uma energia simultânea que vem da rua e da passarela”, afirma o fashionista Dudu Bertholini. “Eu acredito cada vez mais no viés democrático [da moda]. Ela vem de muitos lugares, mas tem uma relação muito forte com a cultura LGBT, que por sua vez sempre teve um grande apreço pela moda”, diz.

André do Val, consultor de estilo masculino, defende que este é também um grupo mais antenado e aberto a propostas inovadoras: “O público gay é muito sensível a mudanças de comportamento. Tem necessidade de quebrar padrões ao buscar novas identidades ao longo da vida”, explica.

Não é de hoje que LGBTs servem ora de termômetro, ora de farol fashion. “Lançamos tendências desde sempre em tom de resistência e experimentação”, lembra do Val, referindo-se à disco dos anos 1960; ao movimento nova-iorquino do voguing, da década de 1980, que foi inspiração máxima para a revolução sexual de Madonna; e, atualmente, com os holofotes sobre a cultura drag.

RuPaul’s Drag Race é a maior fonte de disseminação da cultura drag, só que o retorno de RuPaul e seu sucesso se devem a uma necessidade urgente, a partir de 2010, de romper com o binarismo, de se explodir ideologias de gênero, falar de cultura queer, e o drag agora vem associado a isso”, reflete Bertholini.

Não há como esquecer que todo esse caldeirão cultural onde borbulha o caldo da moda passa hoje por fenômenos de comunicação de massa com a internet, o Instagram, o Pinterest e suas múltiplas referências globalizadas. “É para onde a moda anda apontando ultimamente: estampa, cores, tudo o que chamar atenção de imediato”, aposta do Val.

 

Para Bertholini, mais do que o universo LGBT ou a passarela, é a internet que constrói as pontes. Como ela “encolheu” o mundo, na medida em que diminuiu distâncias, a moda vive uma fase de expressivo dinamismo.

Bertholini entende que modismos recentes abraçados pela comunidade e depois adotados em larga escala pela sociedade, como a pochete, o glitter e a camisa de viscose estampada, surgem de uma necessidade da própria moda de se questionar e reciclar. “Mas o universo LGBT tem uma capacidade enorme de potencializar essas ideias e informações, sim”.

Referências de Bertholini

Dudu Bertholini destrincha suas referências pessoais para o que considera que está na moda:

1. Independente

“Aqui no Brasil eu olho para coletivos independentes. Sou muito fã do Brechó Replay, das Estileras, e do que aparece na festa Mamba Negra.” 

2. Alma de artista

“A Alma Negrot é uma drag, mas preste atenção à sofisticação do que ela faz. Tem uma estética tão forte e longe do óbvio que a gente entende por drag.”

3. Gucci é Gucci

“No contexto internacional, a Gucci (@gucci) está provocando questões de gênero, sobrepondo ideias, bom gosto, mau gosto, distante da moda que dita aquilo que você tem que usar. Propõe caminhos e rumos para que você aprimore seu estilo pessoal.”

Tendências, segundo André do Val

1. 1990 é agora

“Conexões com a década: óculos redondo pequeno, calça baggy, cinto de cadarço, tênis branco.”

2. Traje: Esporte

“Roupas para prática de esportes como calça com faixa lateral, agasalhos com brasões de agremiações, tênis de performance, óculos espelhados e com formato aerodinâmico.”

3. Can I get an amen?

“O buchicho hoje está em torno das drags que viraram estrelas pop e promovem o vestir feminino e maquiagens. Atenção para o elenco de RuPaul’s Drag Race e o sucesso de brasileiras como Pabllo Vittar, Gloria Groove, Aretuza Lovi, Lia Clark.”

4. Menino veste azul e menina veste rosa

“O movimento de gêneros não-binários. Lojas sem divisão de masculino e feminino, banheiros comuns, isso influencia esteticamente. Essa ambiguidade volta a ser tratada como símbolo de beleza na moda e abre espaço para um estilo agênero, de formas soltas do corpo.”