LGBT
13/08/2020 19:31 -03

População LGBT luta para recuperar centros de apoio que foram destruídos em Beirute

Ativistas estão organizando campanhas de arrecadação de fundos para instituições que realizavam acolhimento às pessoas LGBT no país.

A explosão que atingiu Beirute, no Líbano, na semana passada, também destruiu centros de apoio à comunidade LGBT, além de bares e cafés que eram vitais para uma comunidade que já vive de forma vulnerável no país. 

A ONG Helem (Proteção Libanesa para Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros, em tradução livre), principal entidade LGBT do Líbano, que fornece atendimentos psicológicos, apoio para vítimas de violência, prisão ou desabrigados, informou que perdeu duas casas na explosão e agora está lutando “desesperadamente” para fornecer a assistência necessária.

Gemmayze e Mar Mikhael, dois dos bairros mais afetados pela explosão, também era conhecido por acolher bares, cafés e um cenário cultural próspero que criou uma base crucial de convivência cultural para esta população.

“Todos esses espaços se foram”, disse Daniel Nasr, libanês expatriado na Grã-Bretanha que organizou a campanha de arrecadação de fundos Rebuilding Beirut with Pride para ajudar LGBT + vítimas da explosão. ”(Os) espaços seguros que a comunidade passou tantos anos criando fisicamente transformados em escombros”, disse Nasr.

JOSEPH EID via Getty Images

Pelo menos 163 pessoas morreram e milhares ficaram feridos na explosão do porto de Beirut, em 4 de agosto, que arrancou as fachadas de edifícios, capotou carros e deixou dezenas de milhares de desabrigados.

A iniciativa de Nasr arrecadou quase 13.000 libras (US $ 17.000) em cinco dias.

A ajuda humanitária para a comunidade transgênero libanesa, também apoiada por sua campanha, arrecadou mais de 60.000 euros (US $ 70.600) para pessoas trans que lutam para ter acesso ao trabalho e à saúde por causa de sua identidade de gênero.

OutRight Action International, um grupo LGBT sem fins lucrativos que opera globalmente, também está arrecadando fundos para ajudar o centro comunitário da ONG Helem a fornecer assistência, incluindo abrigo. “Trata-se de construir genuinamente uma rede de apoio mútuo”, disse Nasr.

“A comunidade foi atingida de forma particularmente dura pelo desastre. Muitas não podem voltar para suas famílias e enfrentam ser vitimadas nas ruas”, disse o diretor executivo da Helem, Tarek Zeidan.

“Haverá incidentes de violência doméstica para pessoas que foram forçadas a viver com a família ou em lugares onde não são seguras porque se identificam como LGBT”, disse ele à Thomson Reuters Foundation.

“Estamos falando de uma comunidade que já é vulnerável ao suicídio, depressão e problemas de saúde mental em um dia e, bom, e agora isso. É quase insuportável”, completou. 

Na última segunda-feira (10), o governo renunciou após protestos em massa de libaneses, muitos dos quais culpam as autoridades pela explosão. 

Laços familiares existem, mas nem sempre para LGBTs

ANWAR AMRO via Getty Images
Manifestantes libaneses usando bandanas coloridas seguram uma placa que diz em árabe "O que você sabe sobre ser 'normal'?", em protesto realizado em 2010.

O Líbano é visto como um bastião de relativa liberdade dentro do conservador Oriente Médio, mas muitos ainda são relutantes em estender os direitos à comunidade LGBT.

Os fortes laços familiares que caracterizam a cultura do Oriente Médio podem trazer conforto durante uma crise, mas muitas vezes estão ausentes para pessoas que pertencem à comunidade LGBT, tornando os estabelecimentos “amigáveis” ​​à esta população uma fonte crucial de apoio, disse Nasr.

Por lei, “relações sexuais contra a natureza” - muitas vezes interpretadas pelas autoridades como sexo homoafetivo - permanecem ilegais no país com uma possível pena de prisão de um ano, embora haja casos em que juízes se recusaram a fazer cumprir a lei.

Ninguém no governo provisório do Líbano respondeu aos questionamentos da Reuters.