MULHERES
13/05/2020 12:00 -03

Tenho sorte por receber este amor incondicional que eu nunca havia programado

O 12º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é da restauratrice Letícia Lopes, que engravidou em momento decisivo da carreira.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Letícia Lopes aprende muito com o amor e as vivências da pequena Isabela.

Maternidade. O que eu posso dizer sobre ser mãe?

Ao refletir sobre esse assunto, voltei ao tempo pra procurar em minha infância se eu já apresentava traços de mãe. Refletindo, brinquei de casinha, Barbie, mas nunca soube dizer os nomes dos meus futuros filhos.

Minhas amigas, desde os 10 anos, já sabiam quantos filhos queriam ter e quais nomes colocariam em seus bebês. Para mim, era algo meio maluco fazer essa escolha tão jovem e eu sempre treinada pelo meu pai para não ser uma mulher sustentada pelo marido, para estudar e trabalhar para conquistar o que quisesse... Bom, foi o que fiz.

Cresci querendo ser uma grande empresária. Desde os 5 anos, meu pai falava sobre as negociações que fazia no trabalho. Mais tarde, começou a investir em cotas de restaurante. Nessa época, eu tinha 15 anos. Fui crescendo, escutando sobre novos restaurantes. Depois, muita coisa aconteceu e mudou. Fui estudar Administração. Fiz minha faculdade, trabalhei em banco. Tranquei a faculdade no meio, viajei pela Europa e conheci mais de 14 países.

Ao voltar para o Brasil, fui ser estagiária de uma multinacional por 1 ano e saí para ser dona de uma franquia. Tinha 21 anos e meus 5 primeiros colaboradores. Depois de mais 1 ano, veio minha segunda franquia em alimentos, mas de outra marca. Aos 25 anos, abri minha primeira consultoria em alimentos e bebidas. Dei consultoria para o Ruella [bistrô em São Paulo] e, em 2011, virei sócia. 

No mesmo ano, engravidei. Vida totalmente nova, novo negócio e um ser nascendo em meu ventre. Olhava para a minha barriga e não conseguia entender como uma criança podia estar crescendo ali. Ela não foi programada e nunca imaginada em minha infância. Mas, aos 31 anos, eu me sentia preparada — para o que, não sei — mas me sentia capaz de gerir este novo projeto da minha vida.

Eu morava junto com o pai da Isabela. Mas nos separamos logo quando ela completou 1 ano. Nosso relacionamento não ia como eu esperava e sabia que a separação precisaria ser rápida, com minha filha pequena. Eu sabia, pois conheci o pai dela quando as filhas dele tinham 8 meses. Vi como as meninas não tinham memória sobre os pais juntos, então não sofriam pela ausência dele em casa.  

E foi o que aconteceu; Isa não sabe o que são pais morando juntos, pois não tem essa memória. Então, é normal para ela ter duas casas. Nós somos amigos e nunca brigamos pela guarda. Nós dividimos a semana: 3 dias em casa, 2 dias com ele e um fim de semana de cada um. Almoçamos juntos, às vezes, aos fins de semana. Passamos Natal sempre juntos. Réveillon ela viaja com quem vai viajar. Ela é feliz.

Divulgação/Arquivo Pessoal
Letícia e a filha em viagem.
Isabela me disse um dia que sabe que eu choro por dentro quando preciso ir trabalhar e ela pede pra eu ficar. Como ela pode saber tanto assim de mim, quando represento sempre ser uma fortaleza?

Como trabalho muito, minha mãe dorme muitas vezes em casa e me ajuda com ela. Vai buscar na escola duas vezes por semana. Eu pego uma vez. Mas sempre levo para a escola quando está comigo.

Nos meus fins de semana, ela viaja, vai trabalhar comigo ou fica com os avós. Nós fazemos a lição de casa juntas, assistimos a filmes juntas, viajamos juntas só eu e ela. Somos parceiras. E quem conversa com ela não acredita que ela tem 7 anos. 

Desde que ela era bebê, falo palavras difíceis, explico tecnicamente o que me pergunta. Lembro que quando ela tinha 2 anos, expliquei o que era menstruação. Depois de 2 dias, a babá me ligou desesperada dizendo que Isabela tinha entrado no banheiro, olhou e disse “hmmm menstruam” e explicou o que tinha escutado... Que realização senti ao escutar isto!

Mais recentemente, numa redação que Isabela fez no ano passado, ela escreveu que “vai abrir um restaurante bem chique quando ela crescer”. Bom, isso me deu mais certeza de que, mesmo trabalhando muito, ela admira minha profissão e a mim.  

Sou alguém muito melhor do que um dia eu fui. Isabela me ensinou que a harmonia, o amor e a resiliência valem a pena.

Me disse um dia que sabe que eu choro por dentro quando preciso ir trabalhar e ela pede pra eu ficar. Como ela pode saber tanto assim de mim, quando represento sempre ser uma fortaleza?

Um filho nos faz ver quanto somos frágeis quando eles ficam doentes, quanto somos fortes e bravos para defendê-los. Sorte a minha poder receber essa lição e este amor incondicional que nunca havia programado. Agradeço ao pai da Isa por me dar a coisa mais importante da minha vida. Repetiria tudo para ter exatamente ela. 

Letícia Lopes é dona do 12º depoimento de Prazer, Sou Mãe. Ela é restauratrice e sócia do restaurante de culinária mediterrânea Vie Rose, no Alto de Pinheiros, em São Paulo.