LGBT
19/08/2019 03:00 -03

O que lésbicas pensam sobre a correção do algoritmo de busca do Google

Há um mês, maior buscador do mundo consertou algoritmo para que o termo 'lésbica' deixasse de ser associado a pornografia.

Malte Mueller via Getty Images
Empresa reconheceu que buscas mostravam resultados "abaixo das expectativas". 

Há um mês, o Google consertou o algoritmo de buscas relacionado à palavra lésbica e deixou de exibir o que aparecia em páginas e páginas de pesquisa: conteúdo relacionado à pornografia. A mudança ocorreu após iniciativa do grupo ativista francês SEO Lesbianne. A alteração foi vista de maneira muito positiva e como uma vitória para a comunidade LGBT.

“Acreditamos que o Google pode nos ajudar a tornar a palavra ‘lésbica’ em todos os idiomas mais respeitada e, por consequência, todas as lésbicas podem ser tratadas da maneira que merecemos”, avaliou Fanchon Mayaudon-Nehlig, criadora do SEO Lesbianne ao HuffPost após a conquista.

Desde o dia 19 de julho é que esta correção está ativa. Antes, o mecanismo de busca mais famoso do mundo trazia em seus primeiros resultados conteúdos ligados a sites pornô, mesmo se a pesquisa fosse por um conteúdo de cunho educacional ou informativo, o que contribuía para a sexualização de mulheres.

A partir de agora, na pesquisa pelo termo “lésbicas” no Google, você encontrará a página da Wikipédia e outros conteúdos informativos. No Brasil, logo na primeira página é possível chegar à Wikipédia.

Reprodução
Páginas de cunho informativo e explicativo agora aparecem na primeira página quando usuário busca pelo termo "lésbica" no Google.
 

Com a mudança em vigor desde pouco antes deste mês da visibilidade lésbica, o HuffPost Brasil conversou com algumas mulheres e perguntou como elas se sentiram com essa alteração e qual a importância dessa mudança para a comunidade LGBT e para a sociedade como um todo.

Veja a seguir os depoimentos:

“Legitimação”, Marina Fagali, 32 anos, relações públicas

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"É mais aceito porque ronda muito o fetiche masculino."

“Eu, particularmente, fiquei muito feliz com esse movimento de uma das maiores empresas do mundo. Ela é uma super referência que pauta muitas conversas hoje em dia, e a principal ferramenta de busca e a referência das pessoas; então, esse movimento é muito importante para a legitimação da homossexualidade feminina.

O que eu sinto é que até então, em diversas frentes, a gente acaba sofrendo com uma ‘fetichização’ de uma sociedade machista. Então, ao mesmo tempo que teoricamente é mais aceito, é entre aspas. É mais aceito porque ronda muito o fetiche masculino, tem muita relação com estar ligado a conteúdo pornográfico porque era dali que vinha uma aceitação, porém não legitimação.

Saímos do fetiche, da ideologia machista e extremamente fantasiosa, e entramos em uma realidade de que existe um lugar para essa relação homoafetiva entre mulheres.

E acho que a gente está em um movimento de conquistas muito importantes para legitimação dessa categoria, digamos assim; porque falta ainda olhar para esse tipo de relação como uma relação normal. Eu acho que os homens gays enfrentam outras batalhas e que a homoafetividade feminina entra em um lugar do fetiche.

Entender que são duas mulheres que se curtem e que não vão realizar os seus [dos homens] desejos sexuais e que também é importante gerar conteúdos relevantes sobre isso ― porque as próprias meninas lésbicas, toda a questão do descobrimento da homossexualidade e como lidar com isso tanto para as meninas quanto para as famílias ― por que é uma forma de a sociedade aprender a lidar com isso.

Saímos do fetiche, da ideologia machista e extremamente fantasiosa, e entramos em uma realidade de que existe um lugar para essa relação homoafetiva entre mulheres.”

“Reparação social”, Juily Manghirmalani, 29 anos, cineasta

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"O pornô é tão enraizado na nossa sociedade que é frustrante só agora, em 2019 (...) que a plataforma mais importante do mundo tenha feito essa reparação social."

“Olha, pra ser sincera foi uma novidade, mas infelizmente não foi nenhuma surpresa saber que os algoritmos do Google [funcionavam assim].

Apesar de tantos movimentos em prol dos movimentos sociais e identitários, nossa cultura ainda é organizada em muito através da perspectiva e agenciamento masculino. O olhar do homem sobre todas as esferas, inclusive e, principalmente, erotismo e expressões sexuais.

O pornô é tão enraizado na nossa sociedade que é frustrante só agora, em 2019 e através de obviamente uma mulher, que a plataforma mais importante do mundo tenha feito essa reparação social de pesquisa informativa sobre uma palavra que não é ofensiva, não é para satisfação do olhar masculino, e sim, na verdade, uma orientação sexual que os exclui.”

“Grande passo”, Jessyca Ferrari, 28 anos, comunicadora social

“Eu sempre fui uma consumidora ávida de produtos ligados a identidade lésbica, sobretudo filmes e séries. Com 14, 15 anos eu já buscava coisas com as quais eu pudesse me identificar, histórias que pudessem servir de exemplo e as buscas eram sempre as mesmas. Toda vez que eu buscava filme lésbico ou filme transexual ― até filmes gays, mas menos ―, sempre o resultado eram páginas e páginas de pornografia. É muito frustrante ter a sua identidade fetichizada 24 horas, é insuportável.

A gente acaba aprendendo a burlar isso de certa forma. No meu caso, em questões de filmes, eu aprendi alguns sites mais sérios e específicos que eu poderia recorrer ou às vezes ou continuava a pesquisa até achar alguma coisa que pudesse ser útil. Até recentemente essa dificuldade permaneceu.

É muito frustrante ter a sua identidade fetichizada 24 horas, é insuportável.

Eu esqueci ― acho que a gente esquece ― estamos em 2019 e esperamos que as coisas tenham mudado, e fiz uma busca de ‘roupas lésbicas’ e percebi que tudo, todas as buscas traziam páginas e páginas de pornografia e depois, parando para pensar, talvez na cabeça de outras pessoas seja claro que lésbica é pornografia, mas não deveria.

Para mim, eu só queria lojas especializadas em roupas com cultura LGBT. Você vai tentando mudar os mecanismos, termos em inglês... até que eu desisti. Recentemente refiz a busca e está bem diferente. É um grande passo. É triste que para algumas pessoas a primeira associação que se faça quando se pensa em lésbica não seja uma pessoa ou uma identidade, mas um fetiche. 

“Reconhecimento como ser humano”, Lívia Lanzoni, 31 publicitária

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"É um passo muito importante."

“Eu acho que, por muitos anos, o mundo LGBT foi fetichizado; onde homem com homem e mulher com mulher era uma coisa extremamente sexual no sentido pejorativo e a internet de certa forma potencializou muito todas as vontades do ser humano.

Então eu acho que esse lado aflorou de modo muito ruim pra gente. E saber que agora o maior buscador do mundo resolveu fazer alguma coisa em relação a isso, é um passo muito importante. É um reconhecimento como ser humano e não como um corpo, não como um fetiche e nada nesse sentido, mas como pessoa, respeito, sentimento e acredito que é um momento muito importante.”

“Respeito”, Bruna Ferreira, 29, recursos humanos

“Quando a gente fala do grupo minorizado LGBT e quando a gente entra no L, a mulher ela ainda está em uma marginalização até mesmo quando a gente fala da indústria pornográfica, onde o L vai muito pela linha do fetiche e quando a gente começa a ter esse reconhecimento como um grupo minorizado que tem uma representatividade de mulheres grande no mundo onde a gente tem lutado cada vez mais pelo nosso espaço e isso não diminui o ser humano que a gente é, isso trás uma força muito forte para todas as causas, e não só do L mas do LGBT como um todo.

Nesse reconhecimento de que somos mulheres e não somente mulheres lésbicas.

Acho que esse reconhecimento é um sinal de respeito e mais um espaço que estamos conquistando na própria sociedade, na própria comunidade e nas discussões em todos os debates, além da linha sexual que hoje é o que, infelizmente, a cabeça mais conservadora acaba pensando.

A gente tem um lugar de voz, um espaço de discussão muito mais aberto que é o que a gente precisa hoje em dia. Nesse reconhecimento de que somos mulheres e não somente mulheres lésbicas, mas mulheres que estão em uma luta muito maior do que [o papo de que] “hoje a gente só fala disso”. 

“Aliviadas”, Lola, 38, e Iza, 33, do Pantynova, sexshop criado especialmente para mulheres

“Nós ficamos imensamente aliviadas. São grandes conquistas e me assusto ao saber disso em pleno 2019. Imagina quantas crianças e adolescentes que se depararam com esse “conhecimento” advindo do Google?. E, na verdade, penso nas milhares de pessoas que digitaram essa palavra no google “lésbica” e aceitaram como verdade essa realidade vinda da pornografia.

Quantos homens se sentiram “beneficiados” com esse estereótipo e entenderam isso como verdade absoluta?

Quantos homens se sentiram “beneficiados” com esse estereótipo e entenderam isso como verdade absoluta? Realmente revoltante entender toda essa extensão do patriarcado nos algoritmos. Espero que o mesmo siga adiante com outras palavras como travesti que ainda está conectado a violência na primeira página do Google Home Brasil.”