ENTRETENIMENTO
08/02/2020 03:00 -03 | Atualizado 08/02/2020 03:00 -03

Lakeith Stanfield fala de 'Joias Brutas' e de como dormiu em 'Coringa'

Uma conversa com o melhor ator coadjuvante da temporada.

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost; Photos: Getty/A24/Lionsgate

Lakeith Stanfield representa papéis totalmente opostos em dois dos maiores sucessos inesperados recentes do cinema. No suspense/comédia Entre Facas e Segredos, com um elenco de grandes nomes, ele é um detetive que investiga o assassinato de um escritor de romances policiais (Christopher Plummer).

Já em Joias Brutas, Stanfield é o agente arrogante de um negociante de diamantes (Adam Sandler) que faz parte de numa transação milionária desvairada envolvendo o ex-jogador da NBA Kevin Garnett. O segundo filme reflete melhor o que esperamos de Stanfield - é muito mais frenético -, mas os dois estão entre os melhores de 2019.

O ator de 28 anos é um astro em ascensão desde os papéis pelos quais primeiro chamou a atenção, em Straight Outta Compton: a História do N.W.A. (2015), Corra! (2017) e a série Atlanta (2016 - ). Suas idiossincrasias parecem feitas sob medida para a tela. Sua energia é esdrúxula, seus olhos são ternos e sua voz é um barítono rouco. O espectador nunca sabe se ele está prestes a sorrir ou soltar um grito.

A ótima fantasia distópica Sorry to Bother You (2018) confirmou que ele é capaz de ser um protagonista com muita verve, algo que deve ser confirmado em breve com The Photograph, drama romântico em que Stanfield divide a tela com Issa Rae.

Em meio ao sucesso de bilheteria de Entre Facas e Segredos e Joias Brutas, além da aclamação dada aos dois filmes nesta temporada de premiações, conversei com Lakeith Stanfield sobre os dois filmes e sua carreira de modo mais geral.

Ele acabou falando também sobre como foi trabalhar com Kevin Garnett, passar tempo com Chris Evans, cochilar durante uma sessão de Coringa e como foi escolhido o agasalho laranja com o qual ele roubou em uma cena de Joias Brutas.

Este é um grande momento para você. Você está em dois sucessos enormes. Deve estar curtindo muito.

É insano, não? É insano.

É especialmente legal poder falar de sucessos de bilheteria que não são filmes de super-herói, franquias da Disney, o tipo de coisa que todo mundo já espera que vai render uma tonelada de dinheiro.

É verdade, especialmente com Joias Brutas. Foi bacana ver isso na tela grande, cara, especialmente agora que o cinema está nessa fase tão estranha, em que tudo que sai é mais ou menos o mesmo tipo de coisa manufaturada. É bacana ter vilões do tipo clássico, cinema à moda antiga, bem feito. E não digo isso em relação a todos os meus filmes, mas é um filme muito bem produzido.

A24
Kevin Garnett, Lakeith Stanfield e Adam Sandler em "Joias Brutas".

Fiquei surpreso ao ver como é comedida sua atuação em Entre Facas. Você é o personagem convencional, sendo que geralmente te vemos em papeis muito mais dinâmicos. Depois de ouvir o sotaque estranho de Daniel Craig, você sentiu a necessidade de fazer o personagem de um jeito mais discreto, para contrabalançar?

Não, eu gostei do que ele estava fazendo. Gostei que ele estava fazendo escolhas e fazendo algumas coisas aleatórias. Mas senti que isso não era necessário para o meu personagem. Fico feliz que funcionou super bem para nós, como se fôssemos a manteiga de amendoim e a geleia – nos completamos. Deixamos isso acontecer naturalmente, só isso.

O filme tem um elenco explosivo. Com quem você se ligou mais no set?

Um pouco com todo mundo. Você passa um tempo com cada pessoa em algum momento das filmagens. Eu me dou bem com as pessoas. Deixo você ser você quem você é. Eu serei quem eu sou. E vamos fazer uma festa.

Vocês passaram bastante tempo juntos ao longo das filmagens?

Tivemos vários encontros e outras situações. Chris Evans, acho que ele mora perto de onde estávamos filmando. A não ser que aquele lugar não fosse a casa dele. Ele e Daniel Craig receberam a gente em momentos diferentes. Foi bem legal.

Chris Evans ficou tão sexy em carne e osso naquele pulôver branco quanto fica na tela?

[Risos] Não sei dizer. Eu não estava olhando muito para ele. Mas, como você disse, ele é bonitão.

Rian Johnson já falou com você sobre a sequência?

Eles anunciaram isso realmente? Porque eu ouvi falar, mas não sabia se era algo que ia acontecer mesmo. Vai acontecer?

Rian disse que sim. Vai girar em torno do personagem de Daniel Craig. Não sei bem como será o resto.

Uau. Quer dizer que Daniel anda fazendo sequências de tudo – de 007, e agora ele vai fazer uma sequência de Entre Facas. Ele é o máximo. Adorei. Se me chamarem para fazer parte, eu topo.

Entre Facas e Segredos acontece principalmente em um lugar só e tem um visual sofisticado, especialmente em comparação com o caos de Joias Brutas. Rodar um filme imediatamente depois do outro foi como penetrar em mundos totalmente distintos?

Foi, por várias razões. Para começo de conversa, os diretores são diferentes, então criam um ambiente diferente no set. A energia é diferente. Estávamos em locações diferentes. Filmamos Entre Facas em Boston, enquanto Joias Brutas foi rodado nas ruas de Manhattan. O elenco, as pessoas com quem você trabalha e os próprios personagens, tudo tem um ritmo diferente. Então tive que me ajustar a isso. Tipo “ok, o pensamento agora é outro”.

Lionsgate
Daniel Craig, Chris Evans, Noah Segan e Lakeith Stanfield em "Entre Facas e Segredos".

Você gostou do jeito dos irmãos Safdie de fazer um filme? Pelo que eu soube, o set de Joias Brutas foi tão caótico quanto o produto final ao qual assistimos.

É verdade, foi muito bacana. A energia estava sempre fluindo em todo lugar do set. Você podia estar vivendo alguma coisa interessante pelo fato de haver muitas pessoas no set que não eram atores de verdade, ou pelo menos não atores conhecidos naquela época. E muitas pessoas diferentes de Nova York se aproximavam, curiosas para saber o que estávamos fazendo. Nunca havia um momento de tédio. Foi muito legal.

Como foi seu primeiro encontro com Kevin Garnett?

Foi bacana. Encontrei Kevin no set e a primeira coisa que me veio à cabeça foi “uau, ele é alto”. Ele é um cara muito querido, inteligente, dedicado. Dava a impressão de estar realmente querendo aprender e fazer um bom trabalho, e ele fez.

Qual cena de Joias Brutas foi a mais caótica para se filmar?

A cena da boate, porque havia uns 300 figurantes.

Adoro o agasalho laranja neon com capuz que você está usando nessa cena. Como vocês escolheram esse moletom em particular? Ele se destaca tanto que é quase como se fosse um personagem por si só.

A cena foi rodada com luz negra, e a roupa original que eu estava usando ficou bacana nessa luz. Mas uma pessoa da equipe técnica estava usando um agasalho laranja no set. Um dos diretores reparou – acho que foi Josh – e disse: “Ei, tá vendo aquele agasalho? Experimente em você.” E eu falei “ok, ok”. Vesti o agasalho, e pronto.

O que você estava usando antes disso?

Acho que era uma jaqueta em dois tons ou alguma coisa assim.

Não tão chamativa, então.

Verdade.

Annapurna Pictures
Tessa Thompson e Lakeith Stanfield em "Sorry to Bother You".

Como foi aquela cena introdutória em que você leva Kevin Garnett para a loja de Adam Sandler e vocês dois estão olhando o Furby cravado com diamantes. Tudo parece espontâneo. Como essa sequência evoluiu? 

A filmagem foi toda improvisada. Estávamos inventando enquanto fazíamos – muita improvisação, os diretores se guiando pela intuição. Eles iam nos dando elementos adicionais para acrescentar à cena. Foi legal demais, foi realmente construído de baixo para cima. Os Furbies já estavam ali. Foram feitos pela produção. Estávamos só tentando encontrar um jeito de introduzi-los na cena.

Vocês realmente não estavam seguindo um roteiro propriamente dito?

Em certos pontos, sim. Tínhamos a espinha dorsal da história, sabíamos quais eram os objetivos e o que estávamos tentando fazer, mas houve certos lugares em que foi tudo improvisação.

Então naquela cena, simplesmente disseram “você precisam incorporar os Furbies de algum jeito”?

Basicamente, sim, mas já tínhamos decidido qual seria a história. Sim, houve alguns momentos na joalheria em que ficávamos andando por aí e acrescentando coisas.

Você já disse uma vez que um dos personagens que mais quer representar um dia é o Coringa, então estou curioso em saber o que você achou de Coringa e de Joaquin Phoenix nesse papel?

Fui à première do filme, mas acho que devo ter tomado uma dose a mais de bebida porque adormeci. Quando acordei, o filme tinha acabado e eu fiquei com raiva. Ainda preciso ir assistir de novo.

Mesmo agora que já há mais uma adaptação de Coringa aí fora, você continua a ter tanta vontade de fazer o personagem?

Continuo.

Não tendo assistido à versão mais recente, você tem alguma ideia sobre o personagem que ainda não foi explorada? Ou um tom para adotar sobre ele que ainda não vimos?

Tenho.

O que é?

Bom, se eu te contasse, estragaria a surpresa.

Vai ver você tem razão. Você já conversou com alguém sobre criar um filme seu sobre Coringa?

Já conversei, sim. Ando circulando por aí, conversando com gente diferente. Ando escrevendo coisas diferentes. Um dia isso vai acontecer, nem que eu tenha que fazer sozinho. Nem que tenhamos que passar o filme em cineminhas pequenos ou algo assim.

Você anda escrevendo coisas específicas sobre Coringa?

Sim, ando fazendo um pouco de tudo. Tenho escrito alguma coisa sobre Coringa, ando escrevendo alguns projetos diferentes, coisas que não têm nada a ver com qualquer coisa que eu esteja fazendo. Apenas tentando criar minha própria historinha. Mas vou precisar de ajuda – sou péssimo para escrever.

Os materiais não relacionados a Coringa que você anda escrevendo refletem o Lakeith Stanfield que vimos em Sorry to Bother YouJoias Brutas e os outros filmes mais ecléticos que você fez recentemente? Compartilham algum DNA espiritual com eles?

Não sei, mas é uma boa pergunta. Acho que provavelmente sim, porque tudo que vivencio influencia tudo. Então acho que as experiências que vivi com esses filmes provavelmente vão se manifestar de algumas maneiras no que eu escrevo. Não que isso seja algo que eu esteja fazendo conscientemente.

Se você anda trabalhando em filmes escritos por gente tão inteligente quanto Boots Riley e os irmãos Safdie, isso só pode entrar em sua corrente sanguínea de alguma maneira.

É verdade, cara. A experiência fica entranhada nas pessoas. Acho que tudo que vivenciamos se entranha em nós e conversa com nosso subconsciente. Então é uma questão de se inspirar em tudo isso.

Daqui a um mês mais ou menos vai estrear outro trabalho seu, um drama romântico, o tipo de coisa que impulsionava Hollywood no passado. Ainda é uma coisa importante ter um filme original de estúdio que vai estrear em 3.000 cinemas. Nesse sentido, com The Photograph você vai alcançar um outro nível?

Chris Evans me falou que vai ser assim, mas não sei. Nunca tive essa experiência realmente. Talvez seja assim.

O que Chris Evans falou?

Ele disse “cara, esse vai ser o seu filme”.

Depois de Entre Facas e Segredos e Joias BrutasThe Photograph vai chegar em um momento perfeito para você. 

É verdade. É realmente legal, cara. E é a outra ponta do espectro. Não sei se as pessoas que curtem Entre Facas são as mesmas que curtem Joias Brutas. Mas deve haver muitas que curtem as duas coisas. Só que para mim, parecem dois lados diferentes do mundo.

Eles realmente orbitam em mundos diferentes, por assim dizer. Agora que tudo decolou para você, um processo que começou com Atlanta e Corra!, você já tem uma visão de como está sendo visto como ator, baseado no tipo de papéis que lhe estão oferecendo?

Acho que sim, um pouco. Mas acho que essas pessoas ainda não viram nada. Elas pensam que viram, mas ainda não me viram. Até agora só coloquei uma gota de mim no balde.

Você tem uma ideia específica do que ainda não vimos? Ou você vai saber o que é quando o encontrar pela frente?

Acho que é uma combinação das duas coisas. Há um potencial que as pessoas ainda não viram e que está dentro de mim. E sinto que há mais coisas que posso desenvolver em mim mesmo e colocar para fora com o tempo. O objetivo é passar por essa experiência.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.