OPINIÃO
21/06/2020 15:32 -03 | Atualizado 23/06/2020 20:47 -03

'Sou gay, consegui doar sangue pela 1ª vez e mal posso esperar para doar de novo'

Mathias Menezes, de 25 anos, conseguiu doar sangue pela 1ª vez após passar por constrangimentos em experiência anterior, mesmo após decisão do STF.

Em depoimento ao HuffPost Brasil, jovem gay do Rio Grande do Sul relata a experiência de ter doado sangue durante a pandemia do novo coronavírus pela primeira vez. Após sofrer pressão, Ministério da Saúde aplicou decisão do STF publicada em maio que considerou a restrição inconstitucional.

Quando fiquei sabendo que o Ministério da Saúde havia emitido um ofício para orientar os hemocentros pelo País a cumprir a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que derrubou restrições a pessoas como eu, “homens que fazem sexo com homens”, no momento da doação de sangue, entrei em conflito. Ao mesmo tempo que senti necessidade de doar, também senti um frio na espinha ao pensar que poderia ser rejeitado e me sentir discriminado de novo.

Eu tenho 25 anos, moro em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e tinha marcado um horário pelo WhatsApp em um hospital aqui da cidade, seguindo todos os protocolos adequados impostos pelo novo coronavírus. Eu não moro com ninguém do grupo de risco para a doença, então pensei: “por que não doar?”. Eu tinha conhecimento de que os estoques em todo o País estão apertados, e é algo que sempre estão precisando. Eu pensei que doar seria uma forma de poder ajudar alguém nesse momento tão difícil.

Foi no dia 13 de maio, uma semana depois da decisão do Supremo. Me trataram super bem. Passei pela triagem, fui pesado, tive a pressão verificada e uma amostra de sangue colhida. Mas a funcionária do hospital perguntou se eu já tinha tentado doar sangue. Empolgado, eu disse que sim, mas que não tinha dado certo da primeira vez e que era um momento muito importante para mim.

Ela perguntou: ‘Mas por que não conseguiu doar antes?’. Eu respondi: ‘porque sou gay, me relaciono com homens’. Ela mudou. Só pela cara que ela fez, vi que eu não poderia doar. Depois de um tempo, ela voltou, me mostrou o artigo que o STF tinha considerado inconstitucional e disse que era aquilo que estava valendo ainda. “Queria te avisar que você não vai poder doar. Vou até encurtar o questionário”, ela me disse. Eu fiquei impotente, sem reação. De fato, apesar de notificados, naquela época, a Anvisa e o Ministério da Saúde ainda estavam mantendo a restrição. A pessoa que me atendeu disse que eu deveria ter “ligado antes” de ir até o hemocentro para saber se já estava valendo.

No momento em que me disseram que eu não poderia doar, senti que algo a mais foi recusado em mim: minha própria existência. Naquele momento, não foi fácil ouvir que eu não poderia exercitar a minha própria cidadania por ser considerado “inapto” por ser quem sou.

Agora, mais de um mês depois, eu não quis criar expectativas. Mas decidi que tentaria de novo. Escolhi ignorar aquela sensação e o medo para fazer algo que valeria a pena. Por mim, por outros.

Não é uma questão de não questionar comportamentos de risco, mas justamente saber identificar isso com objetividade e humanidade; saber diferenciar o que a pessoa faz do que ela é.Mathias Menezes, 25 anos, bacharel em relações internacionais

Novamente, seguindo os protocolos, liguei para marcar a doação no HEMORGS (Hemocentro do Estado do Rio Grande do Sul), que me enviou alguns pré-requisitos. Nenhuma nota sobre orientação sexual. Senti um alívio, ufa. Porém, havia uma observação, um aviso de que haveria mais etapas até a efetiva doação. Fiquei ansioso, pensativo, não sabia se alimentava esperanças ou não. Eu só queria poder doar sangue, só queria poder compartilhar a minha existência sem que eu fosse considerado o meu próprio impedimento. 

Chegando lá, passei pela pré-triagem, como da outra vez. Mais uma vez, meus sinais vitais não falharam. Será que depois dessa etapa, de novo, meu sangue seria inviável?, pensei. Ele, o meu sangue, não tem culpa de ser meu e não é por ser meu que ele é um “sangue ruim”, como era entendido no passado. A discriminação não enche os bancos de sangue; pelo contrário, ela mata muitos da população LGBT — e mata quem fica sem transfusão, seja quem for. 

Arquivo Pessoal
Mathias Menezes, à espera da doação, conta que teve que assinar um documento em que atestava que tinha sido idôneo no momento da triagem e entrevista.

Na triagem, me limitei apenas a responder o que me perguntaram. “Agora é só aguardar que já te chamam pra doar”, me disseram. Só ali, naquele momento, comecei a acreditar que eu realmente doaria o meu sangue.

Diferentemente da experiência anterior, não perguntaram qual a minha orientação sexual ou se eu estava dentro do grupo dos HSHs (homens que fazem sexo com homens). Ao contrário: “Você tem namorada?”, questionou o enfermeiro, ao que respondi que não. E me limitei a isso. Em seguida, ele perguntou se eu tive relações nos últimos três meses. De novo, respondi que não. 

Talvez ali, naquele momento, a minha solidão dos últimos tempos, potencializada pela quarentena, tenha me excluído de qualquer risco na visão do enfermeiro e contribuído para eu estar hábil para doar, mesmo eu sendo gay. Talvez a minha posição de um homem cisgênero e branco tenha provocado menos perguntas. Ou ainda, felizmente, talvez não importe mais a orientação sexual do doador ou sua identidade de gênero, desde que se tenha todos os cuidados para se garantir a segurança do receptor do sangue. 

Permaneci um pouco descrente até ver o final do processo, até ver a bolsa de sangue ser retirada do meu lado e ser levada.Mathias Menezes, 25 anos, bacharel em relações internacionais

Prefiro acreditar e sonhar com a última opção. Aquela em que todas as pessoas LGBTs têm sua dignidade preservada e são aptas a deixar nos hemocentros pelo País um pouco de empatia manifestada em uma bolsa de sangue. Não é uma questão de não questionar comportamentos de risco, mas justamente saber identificar isso com objetividade e humanidade; saber diferenciar o que a pessoa faz do que ela é. Nenhuma existência por si só deveria ser considerada um risco para doação de sangue; já basta o risco real de viver em um dos países com maior número de assassinatos por transfobia e homofobia. 

Permaneci um pouco descrente até ver o final do processo, até ver a bolsa de sangue ser retirada do meu lado e ser levada. Pronto. “É isso então? Eu consegui doar?”, pensei. E sorri. Parece que sim. Pela primeira vez, pude comemorar conjuntamente o junho vermelho e o mês de orgulho LGBT. Mas, agora, depois de passar por essa experiência, não sei se consigo entender por que todos os hemocentros têm baixos estoques, já que doar sangue é um processo tão tranquilo e pode ajudar tantas pessoas. Ao menos para mim foi.

Na volta para casa, as orientações de cuidados em mãos e a sensação de pertencimento moraram em mim: permaneça sentado por, pelo menos, 15 minutos, tome quantidades extras de líquidos nas primeiras 24 horas após a doação, evite subidas pesadas e exercícios físicos extenuantes por 12 horas, mantenha o curativo no local da agulha por, no mínimo, quatro horas.

Agora, após a derrubada da restrição, tenho certeza que haverá muitas pessoas LGBTs para lutar contra a escassez nos estoques. E mal posso esperar para doar daqui a dois meses de novo. Sangues como o meu já deveriam importar por si só. Porque, sim, esse sangue poderia importar para a doação, só que existências LGBTs deveriam ser validadas por si só. Ninguém deveria ter que pedir desculpas ou ter receios por simplesmente existir da forma que é.