ENTRETENIMENTO
03/04/2020 07:00 -03 | Atualizado 03/04/2020 07:00 -03

Álvaro Morte, o Professor: 4ª temporada de 'La Casa de Papel' retoma tom emocional

"Se a estreia ajudar minimamente as pessoas a passar uma quarentena um pouco mais suportável, sentiremos muito orgulho", diz o ator.

O caso de Álvaro Morte é muito particular. Quantas vezes um ator que estuda arte dramática com uma bolsa de estudos na Finlândia obtém sucesso depois dos 40 anos de idade em uma série espanhola que se torna um mega hit mundial? É bem raro. Pois é; e ele ainda é o Professor de La Casa de Papel, cuja 4ª temporada estreia na Netflix nesta sexta (3).

Em entrevista (por videoconferência) exclusiva ao HuffPost Espanha, o eterno Professor fala sobre a nova temporada da série, do estigma de seu personagem, da importância da estreia no momento difícil que a Espanha passa por conta da pandemia do coronavírus, e do tuíte polêmico do Vox, partido de estrema direita espanhol, que trava uma luta ideológica contra a classe artística espanhola no momento menos apropriado possível.

HuffPost: Quanto sentimentalismo nesta quarta temporada, não?

Álvaro Morte: “Emoção” é uma palavra mais precisa. Sim, é uma temporada muito ligada à emoção dos personagens e termina de uma maneira muito emocionante.

Embora termine de uma maneira acelerada, essa temporada pesa mais no emocional. A essência da primeira temporada foi recuperada?

Um dos pontos fortes da primeira e segunda temporadas é que, diferentemente de um filme de assalto, você tem tempo para conhecer melhor os personagens. E é aí que essa emoção entra em cena, o que não é gratuito. Os personagens estão passando por uma situação complicada e é interessante ver como isso os afeta. Essa ação emotiva é um dos pontos fortes de La Casa de Papel e acho que a recuperamos nesta temporada. É necessário que saibamos o que acontece com os personagens lá dentro, para depois nos preocuparmos com a explosão de uma bomba.

GTRES
Os atores Pedro Alonso (Berlim) e Álvaro Morte (Professor).

Em cada temporada, há personagens que ganham mais espaço que outros. Qual deles é o maior protagonista da quarta?

É difícil dizer porque eu não acho que exista um personagem mais protagonista que outro. Os roteiristas se deram muito bem para alcançar o equilíbrio quando se trata de mostrar os personagens. Eu não estaria interessado na temporada sem ver o que acontece com Denver, Helsinque ou Palermo. Se eles parassem de me mostrar algum deles, eu sentiria muita falta deles, mesmo que haja uma trama mais direcionada para um ou outro personagem porque a história pede.

A figura do Professor tornou-se icônica. Aconteça o que acontecer, você sempre será o Professor. Você gosta disso ou isso te incomoda?

Tenho muito orgulho desse trabalho, mas, além do Professor, eu gostaria de fazer outras coisas. Se você me perguntar agora se eu quero continuar fazendo La Casa de Papel, eu diria ‘claro’, mas eu gostaria de fazer outras coisas ao mesmo tempo. Não quero apenas fazer o Professor, mas ele me deu muitas coisas. Eu nunca quero dar as costas para ele.

Se a estreia da nova temporada de 'La Casa de Papel' ajudar minimamente as pessoas a passar uma quarentena um pouco mais suportável, todos nós que fazemos parte da série sentiremos muito orgulho.

Você teme ficar marcado pelo papel então?

Eu fiz [a série] O Píer, [o filme] Durante a Tempestade e outras duas séries que estão prestes a ser lançadas. Se as pessoas consideram que eu possa fazer apenas um tipo de papel, lamento muito, porque estou fazendo um esforço grande para evitar isso.

Qual é o valor de estrear a nova temporada de La Casa de Papel exatamente neste momento difícil que estamos passando — de pandemia do coronavírus e quarentena absoluta na Espanha (onde centenas de pessoas estão morrendo por dia)?

As pessoas estão passando por uma quarentena que pode ser muito difícil. Muitas outras perderam parentes e amigos com quem não poderiam estar juntos agora... Se a estreia de La Casa de Papel ajudar minimamente essas pessoas a passar uma quarentena um pouco mais suportável, todos nós que fazemos parte da série sentiremos muito orgulho.

E no aspecto sociopolítico?

LCDP fala sobre injustiças sociais que, talvez, possam se conectar ao que estamos vivendo com o coronavírus. Algo que possamos refletir sobre em nossas casas. Ver com outros olhos como estão as coisas, ter tempo para ver o que funciona e o que não funciona e, talvez, como sociedade, possamos reagir.

Há quem se aproveite dessa crise de saúde para atacar a classe artística. O Vox publicou um tuíte que dizia: “A Espanha pode viver sem seus títeres (pessoa que controla uma marionete), mas não sem seus agricultores e pecuaristas. Hoje, como sempre, agradecemos a todos os espanhóis do campo pelo seu trabalho”. E o texto vinha acompanhado de fotos dos atores Javier Bardem e Eduardo Casanova, e do cineasta Pedro Almodóvar.

Eu não respondi a esse tuíte porque eles estão procurando se promover em cima da classe artística. Eu não mordo essa isca.

Se eles [Vox] preferem optar por um país sem cultura, que é o que dá critérios e opiniões, isso só mostra suas verdadeiras intenções.

Mas o que você achou da mensagem?

Eu acredito que a cultura em geral faz qualquer sociedade crescer. Eu me considero parte da cultura, tento fazer o meu trabalho da melhor maneira possível, que é um trabalho que, para o bem ou para o mal, é visto no resto do mundo. Se lhes parece que não somos necessários... É claro que uma pessoa do campo é absolutamente necessária, como um faxineiro ou um caixa de supermercado, mas se ficarmos sem cultura, não saberemos quem somos. A cultura nos define, nos torna melhores. Se eles [Vox] preferem optar por um país sem cultura, que é o que dá critérios e opiniões, isso só mostra suas verdadeiras intenções.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Espanha e traduzido do espanhol.