OPINIÃO
03/04/2019 07:22 -03 | Atualizado 03/04/2019 07:22 -03

Kintsugi: Por que você deveria aprender a abraçar suas imperfeições

Os reparos realizados pelos artesãos deixam visíveis as cicatrizes enquanto transformam peça em obra de arte ainda mais preciosa.

riya-takahashi via Getty Images
Veias douradas e brilhantes na cerâmica são resultado do kintsugi.

Consertar algo sempre envolve uma pitada de risco.

Você até pode fazer que o objeto volte a funcionar novamente, mas dificilmente vai experimentá-lo da forma original.

Isso me leva a crer que, de algum modo, todo remendo bem-sucedido sempre será acompanhado da nossa capacidade de resiliência para lidar com as novas formas que nos são apresentadas.  

Na cultura japonesa (é claro), existe um conceito para isso. A palavra kintsugi é utilizada para explicar o ofício japonês de remendar cerâmicas com resina de ouro, de modo que as rachaduras e as fissuras sejam transformadas em uma teia de minúsculas veias douradas e brilhantes. Lindo, lindo.

Os mapas de ouro espalham-se pelas paisagens das tigelas, vasos e esculturas. Mas não é só isso. Os reparos realizados pelos artesãos de kintsugi deixam visíveis as cicatrizes enquanto transformam a peça em uma obra de arte ainda mais preciosa.

Às vezes, me pergunto se uma transformação semelhante seria possível todas as vezes que vivenciamos rupturas em nossas vidas.

Se, de algum modo, nossas feridas pudessem ser honradas dessa maneira e se as nossas cicatrizes pudessem ser entendidas como símbolos da força, e não apenas da nossa fragilidade.

E é essa a tentativa que o psicólogo espanhol Tomás Navarro descreve em seu novo livro Kintsugi: A arte japonesa de aceitar suas imperfeições e encontrar a felicidade, publicado este ano no Brasil pela editora Benvirá.

Após ter passado 20 anos atendendo seus pacientes em um consultório, Navarro ficou impressionado com a quantidade de pessoas que falaram sobre se sentirem “quebradas” depois de passar por alguma experiência dolorosa.  

Com o livro, ele espera inspirar as pessoas a aplicarem alguns dos princípios da arte japonesa em suas vidas cotidianas.

Dividido em três partes, o livro aborda o que podemos aprender diante das adversidades e como costumamos reagir frente a elas. 

Depois, introduz algumas ideias de como podemos recompor a nossa vida por meio de um método desenvolvido pelo próprio autor e inspirado no conceito japonês.

Na última parte, ele compartilha diversas histórias reais para exemplificar como podemos aplicar a ideia de kintsugi em diferentes situações.

No fim das contas, o que importa é o processo de fortalecimento que enfrentamos todas as vezes que precisamos encarar uma cicatriz.

E o primeiro passo para viver uma vida com kintsugi, segundo Navarro, é não ter medo de “quebrar”.

“Não tente viver uma vida agradável sem qualquer sofrimento, porque aí você estará se resignando a apenas sobreviver, em vez de viver plenamente”, diz ele.

“There is a crack in everything
That’s how the light gets in.”
- Leonard Cohen

“Existe uma rachadura em todas as coisas. É assim que a luz entra.” 

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.