MULHERES
30/05/2020 00:00 -03 | Atualizado 05/06/2020 20:46 -03

Nasci com 'Ossos de Vidro' e me deram apenas 1 ano de vida. Hoje, aos 44, sou só gratidão

A dona do 27º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é Katya Hemelrijk, que nunca desistiu de seus sonhos: se formou, mudou de carreira, casou e hoje cria seus 2 filhos.

Divulgação/Montagem/Arquivo Pessoal
Colagem de momentos marcantes de Katya.

O dia 29 de abril é uma data muito comemorada por mim todos os anos. Nesse dia completo sempre um “ano extra”. Digo ano extra pois, quando eu nasci, em 1976, os médicos me diagnosticaram com Osteogenisis Imperfeita (OI), mais conhecida hoje como Ossos de Vidro, e me deram apenas 1 ano de vida.

Na época, o “problema” era pouco conhecido, e a maioria das pessoas não sabia informar o que fazer e como tratar uma criança com aquele diagnóstico. Meus ossos eram muito fracos e quebravam com uma facilidade impressionante.

Foi minha mãe, minha inspiração de vida, que, com apenas 21 anos de idade, começou a procurar todos os tratamentos imagináveis. Dos mais complexos aos mais simples, todas as tentativas eram válidas para provar que os médicos tinham errado na previsão. Hoje, como mãe, me coloco no lugar dela e acho que eu não saberia o que fazer. 

Além do ano extra completado em abril, tenho outra data importante na vida. Dia 30 de maio comemoramos o Dia da Família. Este ano faz 9 anos que meus filhos chegaram e que nossa família “Alien” (modo carinhoso que nos chamamos, devido à diversidade da composição) nasceu. 

Mas, antes disso, passei por outras aventuras. Cresci com a consciência do que eu tinha, do que eu podia fazer. E com a certeza de que nada me impediria de fazer o que eu queria e, assim, ser feliz. Brinquei muito, aprontei bastante e se eu quebrasse algum osso em um momento de alegria, eu não me importava... O importante era ter aproveitado aquele momento.

Passei por escolas, finalizei o colegial, fiz cursinho e, de repente, me vi na faculdade. Um mundo a ser desvendado me esperava e ali começava uma nova fase da minha vida. Cursei Administração de Empresas na PUC/SP e, lá, fiz grandes amigos, saí muito, namorei e viajei bastante.

Mas ainda havia algumas coisas que só dependiam de mim e que eu queria fazer, como tirar minha carta de motorista e a certificação de mergulho adaptado. Consegui os 2 e, apesar de minha mãe achar loucura, sempre a tive ao meu lado minha, companheira e amiga! Aproveitei cada instante como se fosse o último... Aliás, é assim que eu levo a vida, curtindo cada momento intensamente. 

Foi nessa época que comecei a me questionar sobre o futuro. Será que eu ia conseguir um emprego, achar o grande amor da minha vida, casar, ter uma família e uma vida independente? Será que eu poderia ter filhos? 

Os anos foram passando, tudo foi amadurecendo e acontecendo. Após trabalhar alguns anos na empresa do meu pai, entendi que não era esse o rumo profissional que eu seguiria. Larguei tudo para começar de novo...

Em 2000, prestei vestibular para Design Gráfico no Senac e passei. Comecei a procurar novamente estágio, mas agora na área que eu realmente queria e foi nesta fase que eu encontrei o grande amor da minha vida – afinal de contas, nada acontece por acaso. 

A possibilidade de sermos pais estava tão perto, mas ainda tão distante. Sabíamos que os próximos dias seriam de muita expectativa e que os segundos demorariam a passar.
Divulgação/Arquivo Pessoal
Katya abre sua história de superação para os leitores de HuffPost.

Eu e Ricardo casamos oficialmente no dia 13 de agosto de 2008. Foi um dia lindo e inesquecível. Sempre tivemos um relacionamento muito sincero e de muita conversa. Uma delas era sobre a constituição da nossa família. Como faríamos para ter filhos? Tentaríamos engravidar ou adotar? Nossos valores sempre foram muito parecidos, e ele nunca se opôs a adotar, já que a gravidez para mim era um risco. Ele sempre me diz que pai e mãe são aqueles que criam e não aqueles que colocam as crianças no mundo.

Logo depois do casamento, em novembro, demos entrada ao processo de adoção. Foi muita burocracia, muita papelada e a sensação de que estávamos escolhendo um filho em uma prateleira, já que, ao preencher a ficha, você pode optar desde a cor da pele até o tipo de cabelo.

Não fizemos quase nenhuma restrição e decidimos colocar que aceitaríamos irmãos, caso fosse esse o nosso destino. Foram 6 meses de espera para receber a informação de que estávamos aptos para entrar na fila. Dois anos depois, nossa vida mudou.

Eu estava no táxi, indo para uma reunião quando recebi um telefonema da assistente social perguntando se já havíamos adotado uma criança. Meu coração disparou. Foi quando ela me disse que tinha duas crianças que a gente poderia conhecer e, caso quiséssemos, era para estar no fórum no dia seguinte às 10h da manhã. Faltam-me palavras para descrever o que eu senti naquele momento. Tudo parecia um sonho, mas, apesar de tanta ansiedade, lembro que naquela noite dormi como um anjo.

No dia seguinte, às 9h30 estávamos no fórum, aguardando a assistente social. Vimos pela primeira vez a fotinho das crianças, e eu quase morri do coração. Comecei a chorar e aquele sentimento era muito forte, indescritível.

A assistente social nos contou pouco sobre da vida deles. Sabíamos apenas que eram irmãos, que tinham 5 e 6 anos e que se chamavam Yasmin e Renan. Saímos do fórum e fomos direto para o abrigo. Eu, o Ri e a minha mãe não víamos a hora de olhar o rostinho deles, poder abraçar e dar todo o carinho do mundo.

Chegamos ao abrigo e, logo ao entrar, encontramos a Yasmin, quietinha, tímida e com cara de brava. Tentei puxar papo, mas só consegui um canal de comunicação quando pedi ajuda, dizendo que estávamos perdidos e que precisávamos conhecer melhor o lugar. Ela levantou, me deu a mão e disse:

— Vamos?

Ela nos levou para conhecer o espaço e, de repente, nos vimos na sala de brinquedos, sentados no chão, brincando com ela. Em seguida, o Renan chegou da escola e a primeira coisa que ele disse ao ver o Ricardo foi:

— Êba, você vai ser meu papaizão?

Passamos a tarde quase toda brincando e saímos de lá com um sentimento inexplicável. A possibilidade de sermos pais estava tão perto, mas ainda tão distante. Sabíamos que os próximos dias seriam de muita expectativa e que os segundos demorariam a passar.

Na sexta-feira seguinte, a moça responsável pelo abrigo nos enviou uma mensagem, perguntando se queríamos buscá-los para passar o final de semana. Não pensamos duas vezes e saímos correndo. Chegamos no abrigo, eles estavam prontos, com as malinhas nas costas e com os olhos brilhando. Não pensaram nem meia vez e fomos para nosso final de semana de integração.

Em casa, nada estava preparado para recebê-los. Não tinha comida que criança gosta nem cama certinha, mas uma coisa tinha de sobra – muito amor. Passamos um final de semana incrível, fomos passear e nos conhecer melhor. Vimos que teríamos muito o que fazer para conquistar a confiança daqueles dois corações amadurecidos pelas experiências anteriores.

O mais curioso e emocionante é que a partir do momento que eles vieram para casa, eles sempre nos chamaram de mamãe e papai. Ouvir isso conforta o coração e traz uma sensação de felicidade indescritível. De noite, antes de dormirem, eles rezam e agradecem o Papai do Céu, sempre com a mesma frase:

– Obrigada, Papai do Céu, por ter me dado uma mãe que se chama Katya e um pai que se chama Ricardo.

Passamos por inúmeras situações de preconceito, de dúvida sobre a constituição da nossa família, mas nosso lema é fazer de tudo isso uma fonte de informação, para alimentar uma sociedade que não teve a oportunidade de conviver com o “diferente”.

Para meus filhos, o fato de eu ser cadeirante não é um ponto a ser discutido. É incrível perceber a assimilação deles e dos próprios colegas. A naturalidade com que o tema é tratado é tão linda!

Meu sonho maior agora é que nossa família sirva como uma boa referência de que, para conviver em harmonia, basta amor e respeito nas relações. Com o passar dos anos, tudo foi ficando mais fácil, os desafios iniciais foram superados e, agora, o maior deles é orientá-los e educá-los para este mundo tão intenso e incerto. 

Agradeço a Deus todos os dias pelas oportunidades que ele nos deu e por ter ao meu lado, pessoas tão especiais.

“Obrigada, Papai do Céu, por ter me dado uma filha que se chama Yasmin e um filho que se chama Renan.”

Katya Hemelrijk da Silva é dona do 27º depoimento do projeto “Prazer, Sou Mãe”. Ela é consultora especialista em inclusão de pessoas com deficiência, casada e mãe de 2. Nasceu com uma expectativa de vida de um ano. Hoje, com 44 anos,  se orgulha de nunca ter desistido de seus sonhos.