LGBT
20/12/2019 19:41 -03 | Atualizado 22/12/2019 09:44 -03

Por que a polícia do Rio descartou que a youtuber Karol Eller foi vítima de crime homofóbico

Influenciadora digital é íntima da família Bolsonaro e já afirmou nas redes sociais que LGBTs precisam de "menos vitimismo".

Arquivo Pessoal
Karol Eller (foto acima) foi agredida em quiosque na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, no último dia 15. Polícia nega motivação homofóbica.

Após coletar imagens do local e ouvir testemunhas, a Polícia do Rio de Janeiro concluiu que a youtuber Karol Eller ― que é assumidamente homossexual, conhecida por ser pró-Bolsonaro e íntima da família do presidente ― mentiu em depoimento e aponta que ela não foi vítima de violência homofóbica. 

Inicialmente, o caso foi registrado na 16ª DP, na Barra da Tijuca, como lesão corporal e injúria por preconceito, indicando que o caso teve motivação homofóbica e tinha sido registrado de acordo com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que, em junho deste ano, equiparou os crimes de homofobia e transfobia à Lei de Racismo.

A delegada Adriana Belém, responsável pela investigação, havia dito que o caso tinha características típicas de um crime de homofobia. Mas conclusões apontam que, na verdade, a briga foi iniciada pela youtuber e motivada por ciúmes da namorada.

Ambas serão indiciadas por denunciação caluniosa e o acusado de agressão será investigado por lesão corporal e não por injúria por preconceito, como anteriormente.

“O que não podemos admitir é que você utilize a delegacia, máquina administrativa do Estado, chegue aqui e minta, utilizando-se de uma causa tão nobre, de uma grande vitória por parte dos homossexuais”, disse a delegada ao Jornal Nacional. “E ela estava aqui banalizando isso, mentindo. Isso é uma atitude criminosa e a gente não admite esse tipo de coisa.”

A investigação aponta que, segundo imagens coletadas de câmeras de segurança do local, foi Karol que começou a briga com o supervisor de manutenção, Alexandre da Silva, de 42 anos, acusado de espancá-la. Ela dá um soco no rapaz, puxa a blusa dele e, sem seguida, os dois caem no chão. 

Em depoimento à polícia, um funcionário do local disse que Karol estava alterada e mexendo em uma arma que seria propriedade de sua namorada, Suellen Silva dos Santos, que é policial civil. A testemunha afirmou que, após a briga, Karol também teria agredido a namorada. Em seguida, teria caído, batido com o rosto no chão e ficado desacordada.

A polícia ainda investigará se as lesões no rosto da jovem foram causadas pela briga no quiosque ou pela queda. No domingo (15), Karol foi encaminhada ao hospital Lourenço Jorge, na região da Barra.

Ela teve alta na última segunda-feira (16). Em seu Instagram, ela publicou uma foto de seu rosto antes das agressões e pediu que lembrassem dela com aquela imagem e agradeceu as mensagens de apoio.

“Gostaria que vcs lembrassem de mim com esse rosto! Deus tá no comando de tudo. Agora estou sem condições de falar ou fazer vídeos explicando! Mas quando eu estiver bem eu volto pra falar com vcs! Obrigada a todos pelo suporte. Orem por mim.”

Nesta sexta-feira (20), na mesma rede social, Karol publicou uma imagem em que ela e a namorada aparecem entrando na delegacia e lamentou a situação que está vivendo.

“Não tem sido fácil lidar com todas essas dores. Mas, sem dúvida, a dor da alma é maior que a dor física que estou sentindo. Sofrer uma injustiça como essa é algo difícil de suportar, mas tenho certeza que as coisas vão melhorar”.

O HuffPost Brasil tentou contato com a influenciadora digital, mas até a publicação desta mensagem não obteve resposta.

Depoimentos contraditórios sobre o caso

Em depoimento à polícia, segundo o jornal O Globo, Karol e Suellen narraram que, no momento em que a agressão ocorreu, Alexandre da Silva teria se referido à youtuber em tom provocativo usando o pronome masculino “ele” e que teria sugerido se ela tivesse vontade de ir ao banheiro “fosse atrás do quiosque mesmo”, já que, como homem, “não precisava usar o sanitário”.

Ele teria dito que ela “não era mulher, era homem” e questionado como é que ela, mulher e lésbica, “poderia namorar um mulherão desses”, se referindo à namorada da youtuber. “Está fazendo o quê com isso? Isso é um homem?”, teria questionado Alexandre. Suellen afirmou que ele começou a empurrar Karol, deu um soco nela até derrubá-la no chão e deixá-la desacordada. 

A versão do acusado é diferente. Alexandre afirmou em depoimento que chegou ao local com um casal de amigos. Os três notaram que ela estava manuseando uma arma e que isso chamou atenção. Ele declarou que Karol teria deixado a arma cair no chão e que teria se apresentado como delegada federal quando um deles foi até ela alertar sobre o uso do armamento.

Ele disse também que Karol aparentava estar agitada, rangia os dentes e estava com os olhos arregalados e alegou que a jovem fez uso de cocaína. Segundo ele, a briga teve início quando Karol agrediu seu colega e que ele entrou no meio apenas para se defender.

Criticada nas redes sociais, Karol foi apoiada por ativistas LGBT

Reprodução/Instagram
O presidente Jair Bolsonaro ao lado de Karol Eller em foto publicada no Instagram da youtuber. "Orando sempre por vc presidente e muito feliz por ver o progresso acontecendo", escreveu na legenda.

Em um dos vídeos com mais acessados em seu canal no youtube, publicado em 2016, Karol Eller afirma que está cansada de ser criticada por pessoas do movimento LGBT. Ela classifica a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, considerada a maior do mundo, de “chacota” e pede “menos vitimismo”. “Não é porque um gay morreu assassinado que é homofobia”, afirma no vídeo que até a publicação desta reportagem aparecia disponível no YouTube.

Apoiadora de Bolsonaro, Karol publica com frequência em seu Instagram fotos ao lado de integrantes do governo como a ministra Damares Alves, da Mulher, Família e Direitos Humanos, e também da família do presidente como os filhos Flávio e Eduardo. Ela é amiga íntima de Jair Renan, filho caçula de Bolsonaro.

Em seus vídeos no Instagram, ela chama Bolsonaro de “papito” e, durante a corrida eleitoral de 2018, fez campanha para o atual presidente, destacando sua boa relação com ele na intenção de descolá-lo do rótulo de homofóbico.

Natural de Minas Gerais, Karol recentemente se mudou para o Rio para ocupar um cargo público na EBC (Empresa Brasil de Comunicação), que é responsável por gerir meios de comunicações federais. No início deste mês, a nomeação dela, que ganhará R$10.700, repercutiu na imprensa

Após a notícia da agressão sofrida por Karol e a motivação inicialmente homofóbica do crime, nas redes sociais, as pessoas se dividiram entre apoiá-la ou criticá-la dizendo que ela sentiu a homofobia que ela sempre negou existir.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, mostrou apoio a ela nas redes sociais e provocou a esquerda.

“Lésbica e apoiadora do presidente Bolsonaro, ela já superou muitas situações difíceis, oro pra que logo se recupere. Pela direita, o agressor teria pesada prisão. Será que a esquerda apóia tal medida?”, questionou. 

O também deputado federal David Miranda (Psol-RJ), único assumidamente homossexual no Congresso Nacional, afirmou nas redes sociais que a violência atinge LGBTs independente de ideologia ou preferência partidária.

“A violência não faz distinção por preferência partidária e atinge a todos nós. Isso não é impeditivo pra que prestemos nossa solidariedade à Karol Eller, que se recupere logo”, escreveu.

Artistas como Bruna Linzmeyer e Zélia Duncan também demonstraram apoio à Karol. “O ódio é democrático. Ele quer odiar direita e esquerda, pra cima e pra baixo, pra frente e pra trás”, disse Duncan em vídeo publicado no Instagram. 

Ativistas do movimento LGBT também defenderam Karol Eller publicamente. A Aliança Nacional LGBTI+ emitiu nota em que presta solidariedade à ela e diz repudiar qualquer pessoa que “ouse justificar tamanha violência” sofrida e que diz não aceitar que “a vítima seja responsabilizada” por crimes como este.

A dimensão da violência contra LGBTs no Brasil

De acordo com o Atlas da Violência do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), cresceu 10% o número de notificações de agressão contra gays e 35% contra bissexuais de 2015 para 2016, chegando a um total de 5.930 casos, de abuso sexual a tortura.

Canal oficial do governo, o Disque 100 recebeu 1.720 denúncias de violações de direitos de pessoas LGBT em 2017, sendo 193 homicídios. A limitação do alcance do Estado é admitida pelos próprios integrantes da administração federal, devido à subnotificação e falta de dados oficiais.

Por esse motivo, os levantamentos do Grupo Gay da Bahia, iniciados na década de 1980, se tornaram referência.

Em 2018, a organização contabilizou 420 mortes de LGBTs decorrentes de homicídios ou suicídios causados pela discriminação. O relatório “População LGBT Morta do Brasil” mostra, ainda, um aumento dos casos desde 2001, quando houve 130 mortes.

O grupo divulgou nova pesquisa que aponta 141 vítimas entre janeiro e o dia 15 de maio deste ano. De acordo com o relatório, ocorreram 126 homicídios e 15 suicídios, o que dá uma média de uma morte a cada 23 horas por homofobia.

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em junho deste ano, que a LGBTfobia deve ser equiparada ao crime de racismo até que o Congresso Nacional crie uma legislação específica sobre este tipo de violência. Pena é de até 3 anos e crime será inafiançável e imprescritível, como o racismo.