ENTRETENIMENTO
14/05/2019 17:30 -03 | Atualizado 20/05/2019 14:18 -03

'Uma triste ironia', diz Karim Aïnouz sobre o Brasil no Festival de Cannes

Diretor cearense fala sobre o atual momento do cinema brasileiro, reflete sobre a paixão pela música e conta bastidores de "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", seu filme "antipatriarcal" que estreia em Cannes.

Bruno Machado/Divulgação
"Gostaria que nossa presença em Cannes servisse para reverter esse quadro", opina Aïnouz sobre a ameaça do governo atual em cortar recursos para a produção audiovisual brasileira.

O Festival de Cannes tem início nesta terça-feira (14) com uma das maiores representações brasileiras na história desse que é um dos mais importantes eventos de cinema do mundo. Algo que chega a ser irônico, pois o atual governo ameaça cortar de vez os investimento em projetos audiovisuais.

Além de Bacurau, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho que disputa a Palma de Ouro, o festival conta ainda com outros dois filmes 100% nacionais, e outros três produzidos por brasileiros. Estes últimos são O Traidor, do italiano Marco Bellocchio; Port Authority, da americana Danielle Lessovitz; e The Lighthouse, dirigido por Robert Eggers, de A Bruxa (2015).

Nessa lista também está A Vida Invisível de Eurídece Gusmão, sétimo longa-metragem do diretor cearense Karim Aïnouz, que tem estreia mundial no festival na próxima segunda (20), na tradicional mostra Un Certain Regard, a mesma em que lançou, em 2001, Madame Satã, seu primeiro longa.

Definido pelo cineasta como um melodrama tropical, a obra - uma adaptação livre do romance homônimo de Martha Batalha - traz nos papéis principais duas jovens estreantes no cinema. Tanto Carol Duarte, reconhecida por seu trabalho na TV aberta, como Julia Stockler, experiente atriz de teatro, foram escolhidas após participarem de um concorrido teste com mais de 300 candidatas.

O elenco traz ainda Fernanda Montenegro, como atriz convidada. Gregório Duvivier, Bárbara Santos e Maria Manoella.

Bruno Machado/Divulgação
Duas irmãs, Eurídice e Guida, separadas pelos preconceitos do patriarcado.

Na trama, as irmãs Guida e Eurídice são como duas faces da mesma moeda. Irmãs apaixonadas, cúmplices, inseparáveis. Eurídice, a mais nova, é uma pianista prodígio, enquanto Guida, romântica e cheia de vida, sonha em se casar e ter uma família. Um dia, com 18 anos, Guida foge de casa com o namorado. Ao retornar grávida, seis meses depois e sozinha, o pai, um português conservado, a expulsa de casa de maneira cruel. Guida e Eurídice são separadas para sempre e passam suas vidas tentando se reencontrar, como se somente juntas fossem capazes de seguir em frente.

Em entrevista exclusiva ao HuffPost, o diretor fala sobre seu novo filme e a participação brasileira em Cannes. Por telefone, direto do Líbano, o cineasta também reflete sobre sua carreira, motivações e a grande paixão pela música.

 

HuffPost: Como o cinema surgiu na sua vida? Quando e por que você decidiu fazer cinema?

Karim Aïnouz: O cinema foi me contaminando. Sou formado em arquitetura, fiz fotografia. Nunca pensei em fazer cinema. Comprei uma câmera para filmar minha avó. Ela já estava muito velhinha e eu queria ter uma recordação. Fiz um documentário despretensioso sobre elas e as irmãs, mas o filme acabou passando em festivais. Achei divertido. Fotografia e vídeo experimental não têm o alcance do cinema e eu queria falar com mais gente. Esse filme abriu as portas da potência do cinema para mim. Sou de família de classe média, nunca achei que faria cinema. Cinema é muito caro. Mas essa experiência me mostrou que era possível.

Nos Estados Unidos, em 1994, fui assistente de elenco e de montagem. Foi quando o Madame [Madame Satã, filme de 2002] veio na minha vida. Longas têm mais alcance que curtas. Mas levei oito anos pra finalizar o filme e quase desisti. É muito complicado, leva muito tempo. Só que eu não consegui parar. Veja só, agora estou em Beirute mostrando um filme que fiz na Alemanha. O cinema é, politicamente, uma das armas mais impressionantes que a gente tem. É um ofício que eu gosto muito, de criar um novo mundo, uma nova realidade, fazer retratos de personagens que você não tem acesso.

 

No começo de sua carreira, sua intenção era fazer um cinema mais de denúncia. Mas os dramas íntimos de seus personagens e suas desilusões, muitas vezes amorosas, acabaram ficando mais marcantes nos seus longas de ficção. Por que você acha que isso aconteceu?

É que eu tenho uma grande vontade de jogar luz em personagens que não eram celebrados no mundo real. Madame foi muito isso. O Céu de Suely [filme de 2006], que eu me inspirei vendo A Hora da Estrela [de Suzana Amaral], aconteceu porque eu achei que não havia muitos filmes protagonizados por mulheres. É importante dar protagonismo a personagens com essa natureza. A questão das histórias de amor aparecem meio por acaso.

O cinema traduz muito bem o estado de paixão. Um filme leva, no mínimo, 3, 4 anos para ser feito. Você precisa de motivação para levantar de manhã para fazer esse filme. Sempre me pergunto: ‘por que esse filme merece ser feito?’ Ecologicamente é um esforço gigantesco, com muitas pessoas envolvidas, que custa muito dinheiro. Madame é um grande herói, mas o que existe sobre ele? O cinema era o veículo certo para celebrar esse personagem, jogar luz sobre personagens que estão na ribalta. O cinema tem muito a ver com música, ele causa um efeito físico, ativa a memória, te deixa arrepiado. Uma história de amor chega no espectador como a música.

A música é uma cola que adentra o celulóide.

Aliás, a música tem um papel importante na construção dos seus filmes. Você poderia explicar como funciona essa relação e qual ou quais músicas foram importantes na construção de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão.

O que é bonito dessa relação com a música é que não há uma resposta clara. Por que gosta de uma música? É algo intuitivo. Talvez a neurociência explique no futuro. Ela ativa em você algo que é muito impressionante. E eu passei a entendê-la dessa maneira. Hoje tenho uma relação mais aberta com o compositor que está trabalhando a música em um filme meu. Antes, quando me pediam para explicar porque eu achava que uma música não estava funcionando no filme, eu escrevia um e-mail imenso tentando explicar. Hoje digo: ‘não sei, vamos tentar outra’.

A música é uma cola que adentra o celulóide. Tenho paixão por canção, mas como a personagem de Vida Invisível é pianista, optei por não usar uma canção como base. Diferente do Praia [Praia do Futuro, filme de 2014], que nasceu da minha paixão por Heroes, do David Bowie. Mas no fim achei que faltava uma canção em Vida Invisível. Procurei por semanas e cheguei na Amália Rodrigues cantando Uma Estranha Forma de Vida. É a canção do final do filme e que condensa a sensação que o filme tem que passar para o espectador. A música traz uma magia à imagem filmada. Ela acompanha o batimento do coração dos personagens. A música transporta o espectador para um lugar mágico. É como comer e lembrar. O paladar te leva para um lugar. Heroes me remete a lembranças especiais.

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Carol Duarte e Julia Stockler em cena de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão.

Mas em Aeroporto Central [documentário de 2018] você resgata esse desejo do cinema de denúncia. A questão dos refugiados é tão urgente que até no Brasil se discute muito sobre o assunto. Virou até tema de novela da Globo. Mesmo assim, tenho a sensação de que seu filme é um dos poucos a mostrar a ótica dos refugiados sem espetacularização, sem transformá-los em personagens unidimensionais que representam a miséria humana.

Achei que nunca era mostrado de onde eles saíam, mas sempre como hordas humanas adentrando a Europa. Meu Deus, são pessoas fugindo de uma guerra! Guerra, aliás, que em partes é culpa do Ocidente. Eu achava que precisava fazer algo a esse respeito. Tentei escrever, mas não tenho talento para isso. A câmera é a minha caneta. Quero olhar para a multidão e mostrar o drama de cada uma daquelas pessoas. Evito a palavra refugiado. Elas procuram asilo.

Há um grande desconhecimento do que acontece no oriente médio. Human Flow [Human Flow: Não Existe Lar se Não Há Para Onde Ir, documentário de 2017 filmado pelo artista chinês Ai Weiwei] me incomodou muito. Ele fica o tempo inteiro olhando para a travessia, mas não para as pessoas. Queria saber como essas pessoas vivem na Europa, como são tratadas, como foram recebidas, como é seu dia a dia. Era muito importante adentrar o universo desses personagens. O homem árabe foi demonizado. Às vezes com razão, outras não. Queria preencher algumas lacunas que não via pelo cinema. A tela grande é maior que a vida, dá uma luz importante a essa questão.

Temos que ficar muito atentos. Provar que temos uma cinematografia muito vibrante. Destruir uma política é algo muito rápido, mas para reconstruir leva bastante tempo.

Porque você resolveu se estabelecer em Berlim?

Eu adoro ficar entre lugares. Nasci no Ceará, morei com meu pai na França, fui estudar arquitetura em Nova York. Sempre quis conhecer o mundo como o meu pai, que viajava muito o mundo por conta de seu trabalho. É algo que está quase no meu DNA. A Alemanha foi um acidente. Ganhei uma bolsa depois do Madame e adorei Berlim. Me sinto muito livre naquela cidade. Uma cidade que já passou por tantos horrores e renasceu de uma forma muito bonita. Um corpo mais velho, mas com uma cabeça jovem. É uma cidade muito tolerante devido aos horrores que passou. Mas atualmente fico entre Berlim e Fortaleza. Acho que o lugar que mais me sinto em casa é em uma poltrona de avião, ônibus ou trem.

 

Cannes tem um papel importante na sua carreira. Você estreou lá com Madame Satã, já exibiu o Abismo Prateado [filme de 2011] e agora vai com A Vida Invisível de Eurídice Gusmão. Como é voltar ao festival em um momento em que o cinema brasileiro sofre ataque por parte do atual governo?

De um lado é uma alegria sem fim voltar a Cannes representando o Brasil e o mundo de uma maneira muito digna. Mas é muito triste ter tanta representação brasileira em Cannes e viver um momento tão delicado no País. Uma ameaça de descontinuidade muito perigosa. Eu já vivi isso na década de 1990. É muito triste. Gostaria que nossa presença aqui servisse para reverter esse quadro. É uma ironia muito triste. Temos que ficar muito atentos. Provar que temos uma cinematografia muito vibrante. Destruir uma política é algo muito rápido, mas para reconstruir leva bastante tempo.

 

Voltando a seus filmes de ficção, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão também traz essas questões mais íntimas, mas no contexto da discussão da condição da mulher no Brasil, assunto que agora parece mais urgente do que nunca.

Pois é, isso é uma loucura. Esse filme é uma dessas coincidências tristes e alegres. Fiz o filme pensando em minha mãe, que me criou sozinha e morreu em 2015. Ninguém tem ideia do que minha avó e minha mãe passaram no nordeste de décadas passadas criando filhos sozinhas. Quando li o livro [de Martha Batalha], achei que ele seria um veículo importante para contar a história de mulheres como a minha mãe. É um filme antipatriarcal. O patriarcado é o grande problema que vivemos no mundo, e ele tenta desesperadamente manter seu status. Cada vez que mergulhava mais no livro e nos personagens, via que esse assunto é necessário. E havia uma série de coincidências com minha história que me relacionava de maneira muito forte. Fui criado na década de 1970 e naquele período tivemos uma série de novelas muito bem dirigidas e de dramaturgia muito sólida que falava a um grande público, como Selva de Pedra. Temos de retomar o melodrama com mais respeito.

 

Na pesquisa para o roteiro de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão você entrevistou senhoras entre 70 e 90 anos, perguntando sobre suas experiências quando jovens. Queria que você contasse como foi esse processo e o quanto ele o ajudou na realização do filme.

Foi muito importante. Sobre a primeira noite de um homem há muita coisa, mas e sobre a primeira noite de uma mulher na década de 1940, 1950? Queria olhar para esse momento e entender como era para uma mulher ter uma vida sexual com quem nem conhecia tão bem assim. O livro fala de maneira muito eloquente sobre essas questões, mas essas entrevistas me deram uma visão muito importante. De conhecer essas “vidas invisíveis”, mas não menos importantes. Acabei tendo acesso a histórias que também traziam o humor, não só a dor e a resistência.

Nos primeiros filmes você tem a obrigação de acertar. Hoje sou mais livre.

Aliás, sobre as mulheres, você tinha uma preocupação de não se repetir ao retratar muito o universo feminino, mas aqui está você de volta a essa questão. É algo mais forte que você?

Pois é…É uma loucura. Filmei minha avó, depois O Céu de Suely,Alice [série para a HBO], Abismo… Achei que tinha que parar para não sair em uma fórmula. O Praia não tem nenhuma mulher. Mas com a partida da minha mãe, achei importante voltar a esse universo. Este é um filme dedicado a ela. Dá medo de ficar rotulado, entrar em uma zona de conforto, mas este filme foi uma conjunção de coisas. Outra coisa maluca é minha relação com o Rio de Janeiro. Sou Cearense e este é o meu terceiro filme no Rio. São coisas que vão acontecendo. Elas te escolhem.

 

Você revelou grandes atores, como Lázaro Ramos no Madame Satã, Hermila Guedes em O Céu de Suely e Jesuíta Barbosa no Praia do Futuro. Por que você acha que isso acontece? Essa será a vez de Carol Duarte e Júlia Stockler [protagonistas de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão]?

Eu gosto muito de trabalhar com essarelação de aprendizado entre gerações. Em Vida Invisível tem a Fernanda [Montenegro] junto com a Julia e a Carol. Tento criar essa mescla. Essa mistura é sempre muito importante para a confecção de filmes. Mas também tem a questão da oportunidade. Quando comecei não era nada fácil e acho legal dar oportunidade a quem está começando. Além disso, atores jovens têm um frescor, uma eletricidade dentro deles que me me estimulam. Eles se arriscam e contaminam os atores experientes com essa energia. Não tinha pensado nisso antes, mas você tem razão. Mas não foi de propósito.

Bruno Machado/Divulgação
"É um filme anti-patricarcado", diz o diretor Karim Aïnouz sobre A Vida Invisível de Eurídice Gusmão.

Parece que tanto você como seus personagens estão sempre “em trânsito”. Não apenas indo de um ponto A para um ponto B literalmente, mas buscando um novo lugar, uma transformação. É isso mesmo?

Acho que essa é uma questão dramática potente, a do desejo de buscar um lugar novo, de personagens que procuram um outro jeito de viver diferente do que foi designado. Esse desconforto de estar no mundo. Eles não estão em um estado de paralisia, têm aflição pela transformação. Não é fácil estar no mundo. Isso arde, não é tranquilo. Faz parte da minha vida e dos meus personagens. Nasci com um nome que ninguém entendia, de uma mãe solteira que “não era”, na Europa eu sou árabe… Daquela sensação de: “você não pode entrar aqui.” e você responder: “por que eu não posso?”. O inconformismo.

 

Por conta das plataformas de streaming, o formato das séries no Brasil está ganhando cada vez mais espaço. Você não pensa em voltar a produzir algo nesse formato?

Não penso não. Já flertei com isso. Até participei de reuniões, mas não vejo série. Prefiro estar numa festa do que ficar seis horas vendo uma série. Acho legal, incrível. Devo muito à experiência de filmar [a série] Alice durante sete meses. Aprendi muito. Mas estou mais a fim de cinema. As séries são incríveis, mas nelas você tem que cumprir um roteiro. É uma camisa de força. Tem um negócio que é o meu ofício. Sou obsessivo, mas na hora que estou filmando, preciso não saber um pouco também. O formato te permite isso. Em Alice fizemos uma loucura que hoje jamais seria permitida. Filmamos em 16 mm. Tinha roteiro, mas era intuitivo. Claro que não vou dizer não cegamente, mas acho cinema mais divertido. Minissérie em quatro episódios acho sexy, mas 15 episódios, duas temporadas… Aí já demais para mim.

 

Como diretor, o que você acha que mudou em você de seu primeiro curta [Seams] para A Vida Invisível de Eurídice Gusmão?

Acho que a aflição é a mesma. Aquilo de pensar: “será que vou dar conta?”. Nos primeiros filmes você tem a obrigação de acertar. Hoje sou mais livre, domino mais os instrumentos de produção. Consigo brincar com mais prazer. Continuo sem saber um monte de coisas, blefando muito. Me permito mais a desafinar sabendo como desafinar. Ser diretor de cinema é como ser diretor de RH. Você tem que gerenciar 100 pessoas em um filme. Antes, quando não faziam o que queria, eu saia voando em todo mundo. Hoje não. Aprendi a ouvir mais. Cinema é um trabalho de colaboração e todos os envolvidos querem dar o seu melhor para que o resultado seja o melhor possível. Hoje danço com mais ritmo, sei tocar a música melhor.

Veja aqui o trailer de A Vida Invisível de Eurídice Gusmão: