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22/08/2020 05:00 -03

Kamala Harris pode ter papel importante na política externa dos EUA. Quais são suas posições?

A vice da chapa de Joe Biden tem posições centristas dentro do Partido Democrata, o que é visto como uma oportunidade para as alas esquerdistas e direitistas.

Joe Biden deixou claro que seu ou sua vice-presidente assumirá funções muito importantes caso ele seja eleito presidente dos Estados Unidos. “Você precisa ser capaz de virar para seu vice e dizer: ‘Isso é responsabilidade sua’”, afirmou Biden no ano passado. “Porque o trabalho [da Presidência] é grande demais para qualquer homem ou mulher.”

Biden teve um papel semelhante no governo de Barack Obama e frequentemente lidou com questões críticas de política externa. Dada a confusão global criada por Donald Trump, da Coreia do Norte ao Irã e à China, é inconcebível que a senadora Kamala Harris, confirmada como companheira de chapa de Biden nesta semana, não seja encarregada de tarefas externas complicadas caso os dois sejam eleitos.

Michèle Flournoy, analista de política externa e considerada favorita para assumir o Pentágono em um governo Biden, disse recentemente ao Washington Post esperar que Biden entregue a Harris questões específicas de segurança nacional.

A experiência de Harris com política internacional não chega perto da de Biden. Antes de ser vice de Obama, ele presidiu a Comissão de Relações Exteriores do Senado por muito tempo. Na verdade, ela tem muito pouca experiência em política externa, com a exceção de ser uma integrante júnior da Comissão de Inteligência do Senado.

Pressionados a esclarecer suas ideias sobre temas globais, os apoiadores de Harris respondem de forma vaga, em politiquês. “Ela é atenciosa, pragmática e orientada por seus valores, e a defesa dos direitos humanos é fundamental em sua visão de mundo”, disse Halie Soifer, que foi assessora de segurança nacional de Harris por mais de um ano no Senado e agora dirige o Conselho Democrático Judaico.

Mas uma análise cuidadosa da carreira de Harris no Senado e na recente corrida presidencial dão algumas pistas. No mínimo, ela parece estar se familiarizando com o assunto e buscando um equilíbrio entre duas forças: a dos falcões, que defendem a abordagem americana tradicional e muscular, de um lado; e os mais pacifistas, de outro. O resultado final dessa evolução é tremendamente importante, tanto para o futuro de um governo Biden quanto para o do partido ― que Harris pode estar conduzindo em quatro ou oito anos. Acompanhar essa jornada será uma ótima maneira de entender onde estarão os democratas depois de anos de debates sobre uma reformulação de sua política externa.

Para a ala à esquerda do partido – que ganhou força nas primárias com o sucesso do senador Bernie Sanders e conseguiu conquistar apoio interno em questões como a rejeição à posição favorável de Obama à intervenção saudita no Iêmen –, Harris não é uma aliada natural.

“O histórico que ela tem é consistentemente moderado e agressivo, então não a vejo como muito diferente de Biden”, disse um ativista bem relacionado que pediu anonimato. “Mas ela tem evitado se posicionar sobre segurança nacional, e só o faz quando pressionada, apesar de integrar o comitê de inteligência.”

Muitas vezes descrita como uma política cautelosa, Harris vem mostrando disposição para tender à direita do partido no que diz respeito à política externa. Ela começou sua carreira no Senado copatrocinando uma resolução que criticava um dos últimos atos de Obama sobre política externa: permitir que as Nações Unidas condenassem Israel pelos assentamentos em territórios palestinos.

Harris também tem laços estreitos com grandes empresas de tecnologia desde seus tempos de Califórnia, o que pode influenciar seu pensamento sobre assuntos internacionais. Embora algumas dessas gigantes tenham recuado em seus esforços para cortejar regimes repressivos como o governo chinês, o Vale do Silício se aproximou de outras autocracias, principalmente da Arábia Saudita. Biden e vários outros democratas de destaque prometem diminuir os laços dos americanos com os sauditas, uma relação questionada pela própria Harris, e também defender com mais vigor os direitos humanos no exterior – o que pode complicar a vida de quem tem interesses comerciais em determinados países.

Mas Harris também se alinhou com os progressistas em algumas questões internacionais. Criticada por falar off-the-record ao Comitê de Assuntos Públicos Estados Unidos-Israel (uma entidade lobista pró-Israel conhecida como AIPAC, cada vez mais associada aos republicanos), Harris juntou-se aos progressistas (e quase todos os outros senadores democratas que disputaram as primárias) contra um projeto de lei apoiado pela AIPAC que ajudaria os estados a punir quem aderisse ao movimento de boicote, desinvestimento e sanção contra Israel. A nova chefe de gabinete de Harris na campanha de Biden, Karine Jean-Pierre, ajudou a organizar um boicote à conferência AIPAC deste ano.

Harris falou em um dos primeiros comícios contra a proibição de entrada de muçulmanos de determinados países nos Estados Unidos, como apontou Yasmine Taeb, do grupo liberal Demand Progress, que tem pressionado Biden a rejeitar a tradicional política internacional agressiva do país. Outros integrantes da ala esquerdista democrata acreditam que, como Harris ainda não se definiu ideologicamente, há espaço para conquistá-la.

E o trabalho no Comitê de Inteligência lhe deu experiência em uma questão que deve ser prioritária na agenda de quase todos os democratas: impedir interferências estrangeiras nas eleições americanas, particularmente as originadas em Moscou. Como única nova senadora democrata no poderoso comitê que investigava a interferência russa na votação de 2016, Harris ajudou a supervisionar as escolhas de segurança nacional mais sensíveis do país e se familiarizou profundamente com o assunto. Sua seriedade impressionou até mesmo colegas republicanos, como noticiou o BuzzFeed News em 2019. O presidente do comitê, o senador republicano Richard Burr, afirmou que Harris “aprende rápido” e é “muito eficaz”. O também republicano Marco Rubio a descreveu como “engajada e ativa”. Mais tarde, ela elaborou um projeto de lei para aumentar a segurança eleitoral juntamente com republicano James Lankford.

Carlos Barria / reuters
Biden mencionou o trabalho de Kamala no Comitê de Inteligência do Senado durante o primeiro evento de campanha em que apareceram juntos.

“Sendo novata no Congresso e em Washington, ela parecia muito à vontade”, disse Soifer, que já havia trabalhado para dois outros senadores e também no governo Obama.

Harris expandiu sua visão dos assuntos globais assim que lançou sua campanha das primárias democratas, no ano passado. Suas ideias se baseavam no consenso do partido: retomar o acordo nuclear com o Irã da era Obama; refutar intervenções em países como a Venezuela; prometer uma retirada do Afeganistão; endurecer com a China e a Rússia, ao mesmo tempo evitando um conflito total; questionar acordos comerciais internacionais e orçamentos militares recordes de Trump e desafiar a relação historicamente próxima entre Estados Unidos e Arábia Saudita.

Essa combinação de posições é ainda mais progressista do que a do Partido Democrata de dez anos atrás ― o próprio ambiente de política externa que Biden ajudou a moldar durante seus muitos anos no Senado.

Harris se envolveu com grupos proeminentes que trabalharam na atualização das posições do partido. Quando Soifer deixou sua equipe, Harris contratou um novo conselheiro de segurança nacional, Matt Williams, com anos de experiência no Congresso e passagem pelo Pentágono. Ela é próxima de alguns outros analistas de política externa com laços com a Califórnia. Pode ser um presságio de mais influência por parte de pessoas que não faziam parte do círculo interno do governo Obama.

Sobre mudanças climáticas, Harris propôs um acordo internacional mais ambicioso que o Acordo de Paris para controlar o uso de combustíveis fósseis, negociado por Obama e Biden. A League of Conservation Voters e o Sunrise Movement, dois grupos influentes ambientalistas, mostraram mais entusiasmo por Harris que por Biden durante a campanha das primárias.

Ao examinar seu histórico no Senado, é importante lembrar que ela serviu apenas sob a maioria republicana e quando muitos dos cargos de liderança democratas ainda eram ocupados por falcões. Isso pode mudar em 2021, caso Biden seja eleito. “Um governo Biden terá um Congresso muito mais pró-diplomacia” do que o que Obama enfrentou quando teve dificuldades para vender políticas como o acordo com o Irã, escreveu no Twitter o assessor de Sanders Matt Duss.

Além disso, ela pode enxergar vantagens políticas em cortejar a esquerda no tema das relações exteriores. Nas primárias do Congresso, candidatos que defendem posições mais liberais (e controversas), como a deputada Ilhan Omar, tiveram sucesso. Já o falcão Eliot Engel foi derrotado.

Para Harris, assumir uma posição significará responder por essas mudanças e também por velhos desafios. Um exemplo é o sexismo contra as mulheres que assumem funções de segurança nacional injustamente associadas a estereótipos sobre a assertividade masculina. Hillary Clinton, primeira mulher a ser escolhida candidata a presidente, decidiu responder projetando um ar de “durona”.

As credenciais de política externa da senadora já fazem parte de sua nova função na chapa de Biden. No primeiro evento de campanha em que apareceram juntos, ele mencionou o trabalho de Harris no Comitê de Inteligência e afirmou que eles planejam “trazer de volta para os Estados Unidos as cadeias de suprimentos essenciais para que o futuro seja feito na América”. E Trump já a atacou, afirmando que ela foi a favor de cortes no orçamento do Pentágono.

Caso Harris seja eleita com Biden, ela definirá seu perfil ao abordar um mundo dominado por uma grave crise e profundamente cético em relação aos Estados Unidos.

“Ela é mais que capaz, e está pronta”, disse Soifer.

 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.