MULHERES
23/02/2020 20:27 -03 | Atualizado 24/02/2020 11:31 -03

Julgamento de Harvey Weinstein, acusado de estupro, chega a fase decisiva

Júri já sugeriu estar próximo de um veredicto em pelo menos um dos casos de abuso sexual pelos quais o ex-produtor de Hollywood é formalmente acusado.

O futuro de Harvey Weinstein, ex-magnata de Hollywood, está nas mãos dos 12 jurados que, nesta segunda-feira (24), retomam as deliberações no julgamento em Nova York. O júri já sugeriu que está próximo de um veredicto em pelo menos um dos casos de abuso sexual pelos quais Weinstein é acusado. 

O ex-produtor, cujos filmes foram premiados no Oscar e no Globo de Ouro durante anos, é acusado pela promotoria de Nova York de ser um predador sexual: ele está respondendo por cinco crimes sexuais contra duas mulheres e alega ser inocente. Dependendo do resultado, Weinstein pode pegar prisão perpétua.

O julgamento, que teve início no dia 6 de janeiro, acontece mais de dois anos após a explosão do escândalo que resultou no movimento de mulheres intitulado #MeToo (Eu também, em tradução para o português).

Na última sexta (21), o júri questionou o juiz James Burke, que está no comando do julgamento, sobre a falta de consenso entre seus membros frente aos cinco casos em que Weinstein é julgado. Burke disse aos integrantes do júri que é comum que o grupo tenha dificuldade de chegar a um veredicto unânime, mas que a maioria acaba conseguindo fazê-lo.

Weinstein é acusado por cometer ato sexual criminal em primeiro grau e por estupro. Ele é acusado de agressão sexual predatória nos dois casos.

A condenação pelas acusações de agressão predatória, que têm uma sentença potencial de prisão perpétua, indicaria que Weinstein é um reincidente sexual. 

Ainda na sexta-feira, houve embate entre as advogadas de defesa e acusação, Donna Rotunno e Gloria Allred. A defensora do produtor acusou a promotora de divulgar fatos de sua vida pessoal com a intenção de distrair os jurados e criar constrangimentos. As duas protagonizaram um bate-boca acalorado, e Rotunno precisou ser afastada do ambiente do julgamento.

Em seguida, o depoimento da atriz Annabella Sciorra, marcado para aquele dia, foi retomado. A atriz contou em detalhes como foi violentada em seu próprio apartamento pelo produtor, em 1993. A também atriz, Rosie Perez testemunhou que Sciorra contou para ela que “achava que tinha sido estuprada”.

Essa acusação é antiga demais para ser considerada um crime separado, mas serve como fator agravante para a acusação mais grave do caso, a de “agressão sexual predatória”. O depoimento de Sciorra tem como objetivo convencer o júri da veracidade das acusações das outras mulheres.

Os depoimentos contra Weinstein em julgamento histórico

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Mesmo com a gravidade e proporção do caso, Weinstein é julgado apenas por cinco casos mais recentes ― considerando que os demais, cometidos entre os anos 80 e 90, já prescreveram.

O caso veio à tona em outubro de 2017 quando reportagens publicadas no jornal “The New York Times” e na revista “The New Yorker”, denunciaram o escândalo sexual. Mais de 80 mulheres, incluindo atrizes consagradas como Angelina Jolie, Mira Sorvino, Asia Argento e Gwyneth Paltrow, denunciaram Weinstein por assédio, agressão sexual e estupro. 

Mesmo com a gravidade e proporção do caso, Weinstein é julgado apenas por cinco casos mais recentes ― considerando que os demais crimes, cometidos entre os anos 80 e 90, já prescreveram. A sentença, que pode chegar a 20 anos de prisão ou até a prisão perpétua, deve ser divulgada em março.

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A advogada de defesa de Weinstein, Donna Rotunno.

Os jurados podem condenar Weinstein por agressão sexual predatória se entenderem que ele cometeu a agressão contra Sciorra e pelo menos um dos supostos crimes contra Mimi Haleyi ou Jessica Mann.

Mimi Haleyi, ex-assistente de produção de Weinstein, alega que, em julho de 2006, o fundador da Miramax fez sexo oral nela sem seu consentimento. A segunda vítima é Jessica Mann. Ela alega que, em março de 2013, foi estuprada pelo ex-produtor em um quarto de hotel em Nova York. 

O julgamento é amplamente visto como um marco do movimento #MeToo, por meio do qual mulheres acusaram homens poderosos do empresariado, da indústria do entretenimento, da mídia e da política de má conduta sexual.

Em seu depoimento, Haleyi chorou ao contar que aceitou um convite para a casa de Weinstein, em Manhattan, no ano de 2006. Ela afirmou que Weinstein se jogou contra ela, a empurrou para um quarto e a forçou a fazer sexo oral - ex-produtor também teria arrancando seu absorvente ao forçar a relação sexual.

Durante interrogatório, Haleyi reconheceu que aceitou viagens de Weinstein tanto para Los Angeles quanto Londres após o ataque, em parte porque ela precisava de trabalho. Ela também reconheceu que assinou mensagens para ele, após a agressão, com “muito amor”. 

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A atriz Annabella Sciorra, conhecida por seu papel em 'Família Soprano', entrando na Suprema Corte de Nova York.

Jessica Mann prestou depoimento dizendo que Weinstein a estuprou em um quarto de hotel de Manhattan em março de 2013. Ela ainda afirmou que manteve algum tipo de relacionamento com ele durante anos após esse episódio que, segundo ela, foi “extremamente degradante”.

Este depoimento foi considerado problemático para a acusação. Donna Rotunno pressionou Mann a respeito de sua relação com Weinstein. “Você nos contou que estava disposta a dormir com Harvey Weinstein porque não queria que ele arruinasse sua carreira de atriz, está correto?”, questionou Rotunno.

A defesa sugeriu que Mann tinha interesses sexuais em Weinstein para avançar em sua carreira. “Eu não queria que ele prejudicasse minha carreira de atriz”, respondeu Mann. Rotunno replicou: “Você não tinha uma carreira para prejudicar”. “Eu estava construindo uma”, disse Mann.

Entre as provas, estava um e-mail que ela escreveu em 2014 no qual descreveu Weinstein como um “pseudopai”. O julgamento teve que ser interrompido após Mann ter um ataque de pânico em meio aos questionamentos.

O crescente do #MeToo

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"Justiça para as sobreviventes", pedem manifestantes na frente da Suprema Corte de Nova York, durante julgamento de Weinstein.

Em 2017, as denúncias contra Weinstein cresceram e o movimento ganhou força. A hashtag #MeToo ganhou proporção para que outras mulheres, não só de Hollywood, mas do mundo, pudessem falar sobre os casos de assédio que já viveram ou presenciaram. Assim, a tag se tornou símbolo de uma luta.

Conforme as denúncias se tornavam públicas à época, Weinstein fez inúmeras tentativas para silenciar alguns casos e desmoralizar a imprensa. Para isso, contratou investigadores particulares para desenterrar informações sobre as mulheres e os jornalistas que escreviam sobre os crimes que cometeu.

Logo no início de 2018, as repórteres do NYT Jodi Kantor, Megan Twohey e o repórter da New Yorker Ronan Farrow receberam o Prêmio Pulitzer pelo serviço público prestado à sociedade com o trabalho realizado.

Weinstein foi demitido da produtora que ele mesmo havia ajudado a fundar, a “The Weinstein Company”, e também foi expulso de organizações renomadas do universo cinematográfico norte-americano como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, o Producers Guild of America e a Academy of Television Arts and Sciences.

Indiciado por estupro e abuso sexual em maio de 2018, o magnata foi preso, mas cumpre prisão domiciliar e faz uso de tornozeleira eletrônica. 

Quando o julgamento teve início, em 6 de janeiro, do lado de fora do tribunal, cerca de 15 mulheres que denunciaram Weinstein, incluindo as atrizes Roseanna Arquette e Rose McGowan, protestaram vestidas de vermelho e segurando cartazes que pediam “justiça para as sobreviventes”.

“O tempo acabou. O tempo do assédio sexual no trabalho, o tempo de culpar as vítimas, o tempo de desculpas vazias sem consequências e da ampla cultura do silêncio que permitiu que agressores como Weinstein agissem acabou”, disse Arquette, segundo a Reuters, nesta segunda.

“Espero que [Weinstein] fique preso até o fim de seus dias”, disse à AFP outra manifestante, Sarah Ann Masse, que afirmou ter sido agredida pelo ex-produtor em 2008 quando ele a entrevistou para o cargo de babá de seus filhos.

Além de Weinstein, os julgamentos de Bill Cosby ― que foi sentenciado a três anos de prisão por assédio sexual em 2018 ― e do cantor R. Kelly são os mais recentes envolvendo pessoas famosas e a mesma natureza: abuso sexual.