LGBT
24/06/2019 17:27 -03 | Atualizado 24/06/2019 17:59 -03

Jup do Bairro anuncia financiamento coletivo para gravação do EP visual 'Corpo Sem Juízo'

Artista paulistana anuncia financiamento coletivo para gravação de EP visual; primeiro single traz participações da escritora Conceição Evaristo e de Matheusa, estudante carioca morta em 2018.

Divulgação/John Halles
Rap composto há mais de 10 anos é o cartão de visita do projeto de solo de Jup do Bairro.

Jup do Bairro deu o pontapé na carreira solo na última sexta-feira (21) com Corpo Sem Juízo, single no qual aborda os desafios das pessoas que têm orientações sexuais e identidades de gênero distantes da hétero e cisnormatividade.

“Foi uma das minhas primeiras composições há uns dez anos. Não teria outra música melhor para iniciar esse projeto porque Corpo Sem Juízo não fala só sobre mim”, conta Jup em entrevista ao HuffPost.

“Sempre foi uma preocupação minha fazer um trabalho que não fosse pra dentro, mas para as pessoas. E como forma de troca e cura. Acredito que consegui o resultado que eu esperava com essa faixa”, completa a artista conhecida por sua parceria no palco com a funkeira Linn da Quebrada.

Com produção musical de BadSista, a faixa traz participações especiais da escritora Conceição Evaristo e de Matheusa Passareli - estudante carioca que se identificava como não-binária -, morta no ano passado, aos 21 anos.

“Conceição é uma das minhas inspirações de vida. Tem sido a autora que mais tenho lido nos últimos tempos. Comecei a ter muito entendimento sobre negritude através dos textos dela”, diz Jup sobre a premiada autora mineira.

Ela conta que a parceria ocorreu após uma troca de mensagens com Tainá Evaristo, sobrinha e assistente de Conceição. Fã do trabalho dela e de Linn, a autora mineira fez questão de escolher o texto, gravar e enviar para Jup.

“Eu fui às lágrimas porque não esperava ouvi-la recitando um texto dela.”

Assassinada após sair de uma festa no Rio de Janeiro, a estudante carioca Matheusa aparece em Corpo Sem Juízo por meio de um áudio em que fala sobre as condições de sua sexualidade.

A participação injeta ainda mais força no discurso de Jup, que se apresenta com os atributos de artista travesti, preta, gorda e periférica.

“Ouvindo eu consigo rever a Matheusa, consigo sentir a força que ela tinha. Uma força de mudança mesmo. Porque é meio que unânime de todas as pessoas conheceram: ninguém ficou isento”, conta sobre a amiga.

“Ela sempre foi uma pessoa muito generosa, uma das das mais doces que já conheci. O que aconteceu com a morte dela foi o extermínio da humanidade, mas ela continua viva entre a gente”, completa.

Ouça Corpo Sem Juízo:

 

EP Visual

Corpo Sem Juízo é single e também o título do EP visual que Jup planeja lançar ainda no segundo semestre de 2019. Para isso, ela lança nesta segunda (24) uma campanha de financiamento coletivo na plataforma Kickante.

“Vamos fazer essa campanha porque audiovisual é muito caro, principalmente quando se é um artista independente e não se tem uma estrutura financeira de patrocínio”, explica. “E no decorrer da minha trajetória eu passei a entender que é impossível fazer as coisas sozinha.”

A partir de uma contribuição de R$ 10, o apoiador já tem direito a uma recompensa na campanha que terá duração de 60 dias. Assim como o single, o EP terá produção de BadSista, produtora musical e DJ com quem Jup tem outros projetos, como o show de experimentação e improviso Bad do Bairro.

“Sinto que com a BadSista, musicalmente, a gente vira ciborgue. Nós viramos monstras juntas”, afirma.

Sobre o trabalho que marcará sua reestreia como artista solo - condição que seguirá paralela aos shows ao lado de Linn -, Jup define que ele poderá ser um “presente para essa geração”.

“Eu vou promover encontros de artistas e colaboradores que talvez não conseguisse ver em outra ocasião. Quero fazer com que esses 12 anos de carreira tentando viver e sobreviver da arte sejam materializados em Corpo Sem Juízo.”

 

Projeção e representatividade

Divulgação/John Halles
EP visual "Corpo Sem Juízo" tem previsão de lançamento para o segundo semestre deste ano. 

Ao lado de Linn da Quebrada, Jup do Bairro circulou recentemente em uma turnê pela Europa. A dupla também acaba de estrear um talk show no Canal Brasil, o TransMissão. Em um breve balança da carreira até aqui, Jup comemora a projeção nacional, mas faz ponderações.

“É impossível fingir que nossos corpos não existem. E por isso o apelo das marcas. Nós conseguimos nos fortalecer de alguns anos pra cá e acredito que isso foi muito por conta de conseguirmos nos enxergar na internet, através de grupos, páginas e perfis. É uma representatividade potente e efetiva”, reflete.

“Porém, acredito que representatividade é uma faca de dois gumes. Porque ao mesmo tempo que a gente pode representar e fazer com que outros corpos se movam, essa representatividade pode deixar algumas pessoas estáticas também”, explica.

“’A Jup está ali, ela que vem do Capão Redondo, gorda, um corpo bicha travesti, um corpo preto, ela já está ali me representando então posso ficar aqui’”, exemplifica Jup. “É meio contraditório”, afirma a artista. 

Jup acredita ser importante que representantes de minorias e de corpos marginalizados coloquem em prática estratégias “horizontais e não verticais”.

“Acredito que é muito importante esse lugar [da representatividade], mas é preciso muito cuidado. Até porque a gente precisa saber até que corpos [essa representatividade] está chegando”, afirma.

“Temos que fazer com essa potência se prolifere de fato, para que os privilégios não fiquem centralizados naqueles corpos que conquistaram algo. Temos que fazer uma expansão de trabalho de inteligência, de estudo, de busca e, principalmente, mostrar o que é possível.”

Como exemplo de novas possibilidades dentro desses limites da representatividade, ela cita o próprio programa TransMissão, que nas palavras dela traz “duas travestis negras falando sobre assuntos variados”.

“O programa dá essa noção de que podemos falar e fazer coisas como qualquer outra pessoa. Sempre colocam o corpo travesti e as identidades marginais num lugar de estranheza. Há um certo cuidado que é um receio maquiado”, pontua.

“E não, a gente também quer amar e ser amado, quer falar de futebol, culinária, psicologia, geografia. E também estamos prontas para falar ‘eu não entendi’ se a gente não souber ou não dominar o assunto e está tudo bem.”