LGBT
05/07/2020 03:00 -03 | Atualizado 06/07/2020 11:53 -03

Jup do Bairro: 'Não acredito em representatividade única. Acredito numa grande invasão'

Em entrevista ao HuffPost, artista falou sobre os bastidores de seu EP autoral, "Corpo Sem Juízo", e sobre a questão da representatividade trans e negra no Brasil.

Em junho de 2019, Jup do Bairro anunciou em primeira mão aqui no HuffPost Brasil o financiamento coletivo para a gravação de seu primeiro EP autoral, Corpo Sem Juízo. Nascida e criada no Capão Redondo, a artista rompeu fronteiras e ganhou popularidade na cena independente ao excursionar como backing vocal de sua amiga Linn da Quebrada. A projeção nacional também ocorreu ao lado de Linn, com quem divide a apresentação do programa TransMissão, do Canal Brasil.

Junto com o anúncio do primeiro trabalho solo, a artista lançou o single autointitulado, que tem participações da escritora Conceição Evaristo e de Matheus Passareli, amiga de Jup que se identificava como não-binária e que morreu em 2018, aos 21 anos. A proposta do EP foi abraçada por fãs de todo o Brasil, ansiosos para acompanhar os passos autorais da artista performática que explora de forma singular as nuances de seu corpo de travesti de pele preta, gorda e de origem periférica.

 

Corta para junho de 2020. Em meio à pandemia, Jup do Bairro lançou o aguardado EP. A espera valeu a pena. Ao longo de sete faixas, a artista recupera memórias de infância, discute construção de identidade, elabora novas reflexões sobre afeto e expõe as dores de um corpo ainda marginalizado no Brasil. Com direção musical de BadSista, o trabalho transita por sonoridades que vão de baladas oitentistas ao funk, passando pelo heavy metal e rap nacional dos anos 90.

Em entrevista ao HuffPost Brasil via live, Jup do Bairro falou sobre os bastidores do projeto, que reúne composições feitas durante a última década. Segundo a artista, sua intenção era construir um trabalho que unisse suas referências sonoras.

“Fiz pesquisas muito intensas e revisitei minhas referências. Ouvi muito Korn, Slipknot, Rage Against the Machine. Tudo que eu ouvia na minha adolescência. Também fui rebuscando esse lugar mais nostálgico: o que meu pai e minha mãe me apresentavam, como Nelson Gonçalves e Elza Soares. Investiguei esses lugares que não me eram óbvios.”

Corpo Sem Juízo conta com colaborações de parceiros que dão ainda mais legitimidade aos temas abordados por Jup. Linn da Quebrada e Rico Dalasam aparecem na faixa All You Need Is Love, que discute o que é o amor entre pessoas negras. Deize Tigrona divide com Jup os vocais de Pelo Amor de Deize, que traz à tona a questão da depressão na população negra. Já o cantor e compositor Mulambo aparece em Luta Por Mim, espécie de desabafo que se conecta com os protestos antirracistas que tomaram o mundo depois do assassinato do segurança negro George Floyd.

“Um dos grandes desafios que eu tive foi justamente tentar colocar em prática uma dicção que eu ainda não tinha usado, um flow que ainda não tinha experimentado. O trabalho final tem muitos arranjos novos em relação ao que eu já vinha colocando nas minhas músicas”, revelou Jup.

Ouça o EP no player abaixo: 

Além de detalhar como foi a criação e desenvolvimento de cada uma das faixas do EP, Jup também falou na entrevista sobre representatividade. “Não acredito numa representatividade única. Acredito numa grande invasão”, afirmou. Ela define essa questão como “uma faca de dois gumes”. Ao mesmo tempo em que sua figura e seu trabalho podem inspirar outras pessoas com os mesmos atributos, segundo ela, podem também tornar outras pessoas “estáticas”.

“‘Ah, a Jup já está ali me representando, então eu posso ficar aqui deitadinha na minha cama depositando toda energia nela’. Eu coloco ela em um lugar de endeusamento e na primeira falha vem o cancelamento”, reflete a artista.

“Eu não consigo representar uma quantidade de pessoas. Acho que eu não consigo representar ninguém. Isso é tão uno: as camadas e características que você carrega consigo. Por isso tenho lutado muito mais por uma equalização do que para ser uma representação”, explica.

Para Jup, ainda não faz sentido comemorar que, por exemplo, existam hoje no Brasil duas “apresentadoras de televisão pretas e travestis” ou também o “ingresso de pessoas trans em campanhas publicitárias”. “Sinceramente, eu não acredito que isso seja uma revolução. Porque ainda é muito pouco. É importante a gente reconhecer esses avanços, mas ainda é pouco”, acredita.

“Vamos conseguir falar sobre revolução, de fato, quando tivermos uma maior equalização de tudo isso. Quando falar de diversidade não signifique ter uma única pessoa preta em uma campanha”, acrescenta.

Dentro desse cenário de avanços e retrocessos, Jup do Bairro parece estar muito consciente do seu papel. “Quero fazer com que o meu ingresso na arte seja um lugar de possibilidade para que as próximas gerações falem sobre outras coisas, tenham outros problemas. Não quero que a gente fique lutando para sempre e unicamente por espaço.”

Veja a íntegra da live logo abaixo: