ENTRETENIMENTO
20/05/2019 19:59 -03 | Atualizado 20/05/2019 19:59 -03

Juliana Paes, protagonista de 'A Dona do Pedaço', fala da trajetória, feminismo e Fernanda Montenegro

Em entrevista ao HuffPost em vídeo, atriz que dá vida a Maria da Paz a partir desta segunda-feira (20) ressalta o poder do matriarcado.

Juliana Paes será mais uma vez protagonista de novela das 9. A partir desta segunda-feira (20), ela encarna a boleira Maria da Paz em A Dona do Pedaço. Em entrevista ao HuffPost, ela contou sobre o processo de composição da personagem que se torna uma empreendedora de sucesso.

Paes acredita que sua trajetória profissional guarde diversas semelhanças com a narrativa de Maria da Paz, que precisou lutar bastante para ascender. “Eu me considero uma pessoa muito bem-sucedida, mas venho de uma família muito simples, muito humilde”, disse Paes. Única da família com curso superior completo, é hoje uma das principais estrelas do elenco principal da TV Globo. “E sem ter ator na família, alguém para abrir as portas me facilitar a vida.” 

A atriz leu algumas biografias de empreendedoras para construir Maria da Paz. Uma das leituras mais marcantes foi sobre a vida de Mary Kay. “Ela foi uma mulher que vendia de porta em porta, pequenininha, e de repente criou império da cosmética”, comparou.

Ao HuffPost, Paes também sublinhou que contracenar com Fernanda Montenegro, que vive Dulce, a avó de Maria da Paz, é uma “catarse”. “Ela gosta da troca [em cena], ela gosta do play, do jogo. E eu nunca imaginei que uma mulher com 90 anos ainda estivesse tão aberta, tão disposta e ainda tateando quando se começa uma personagem”, contou.

Juliana Paes também explicou crítica ao feminismo feita em 2017. Na época, ela disse que não acreditava que homens e mulheres eram iguais. Ao HuffPost, a intérprete de Maria da Paz defendeu que o feminismo deve usar ferramentas femininas. “Acredito em um jeito feminino, do matriarcado, que é vigente e poderoso. Eu fui criada por mulheres poderosas. Eu sou quem eu sou porque o matriarcado me fez assim. É nesse poder do matriarcado que eu acredito”, concluiu.

Leia a seguir as principais declarações de Juliana Paes:

Construção das personagens Maria da Paz e Bibi (A Força do Querer)

“Diferentemente da Bibi, a Maria da Paz se torna algo um pouco mais desafiador para mim na medida em que ela se parece muito comigo. Claro que eu não tive um passado tão trágico, mas no sentido de ter se inventado sozinha. De não ter tido ninguém para dizer qual é o caminho das pedras “vá por aqui ou vá por ali”... De ter puramente seguido a intuição e ter conquistado grandes feitos. Eu me considero uma pessoa muito bem-sucedida, mas venho de uma família muito simples, muito humilde. A maioria dos meus primos e familiares não tem formação escolar completa, muito menos superior. Então, eu sou a única talvez da minha família que tenha curso superior completo. A única que talvez tenha ido mais longe nesse sentido. Me aproximo muito da Maria da Paz pela perspicácia, por nunca ter tido freio para batalhar pelo que eu queria, contra tudo e contra todos. E sem ter ator na família, alguém para abrir as portas, me facilitar a vida.”

Empreendedorismo feminino

“Eu sou uma mulher empreendedora. Li algumas biografias de mulheres que empreenderam, que criaram pequenos impérios de sucesso, grandes impérios. A biografia da Mary Kay é muito reveladora, muito surpreendente. Ela foi uma mulher que vendia de porta em porta, pequenininha, e de repente criou império da cosmética. Essas biografias ajudam muito. Para mim, a grande sacada da Maria da Paz está na capacidade dela de amar. Ela é uma mulher que não julga, não critica, ela tem uma capacidade de amar muito grande. Não no sentido piegas, mas no sentido de acreditar na bondade do outro. Acreditar que todo mundo é bom, até que se prove o contrário. Ela ganha pelo amor, pela capacidade de amar.”

Feminismo

“O que eu acredito é que a gente tem que viver o feminismo da maneira feminina de agir. Pode parecer clichê, mas homens e mulheres transitam e atuam com habilidades diferentes, com ferramentas diferentes. As ferramentas femininas são tão maravilhosas, inacreditáveis, e é por causa delas que esse momento de empoderamento chegou neste ponto. Minha ponderação, não chamo de crítica, é que o feminismo tem que continuar agindo e avançando com as ferramentas femininas. Eu não quero me apropriar de uma ferramenta masculina para conseguir o que eu quero, para conseguir me colocar. Eu quero que esse movimento continue crescente, quero criar filhos mais feministas mas com as minhas ferramentas, não com ferramentas masculinas, agressividade... Claro que agressividade não é uma característica somente masculina, mas acredito em um jeito feminino, do matriarcado, que é vigente e poderoso. Eu fui criada por mulheres poderosas. Eu sou quem eu sou porque o matriarcado me fez assim. É nesse poder do matriarcado que eu acredito.”

Fernanda Montenegro

“Deixa eu encontrar uma palavra à altura [sobre contracenar com atriz veterana]... É uma catarse gravar com a Fernanda. Ao mesmo tempo em que ela é essa mulher dona da cena, sabe o que vai fazer, o que quer propor em cena, ela é de uma generosidade, de uma simplicidade na troca muito grande... A ponto de terminar uma cena e ela perguntar: ‘você gostou do que eu fiz? Gostou do que a gente trocou?’. (risos) ‘Fernanda, você está brincando comigo.’ Ela é deste jeito; ela gosta da troca, ela gosta do play, do jogo. E eu nunca imaginei que uma mulher com 90 anos ainda tivesse tão aberta e tão disposta e ainda tateando quando se começa uma personagem. E isso me deixou muito feliz, muito serena. Porque eu sinto esse componente da insegurança sempre, quando estou começando um trabalho. Faz parte do processo criativo não saber: ‘vou por aqui? vou por ali?’. São nesses momentos de ‘cegueira artística’ que você encontra muita coisa. Mas talvez eu não imaginasse que ela também tinha um processo parecido assim.”