30/01/2019 00:34 -02 | Atualizado 30/01/2019 11:40 -02

Juliana Maia, a mãe do projeto que faz do hip-hop uma fábrica de sonhos

Ela criou projeto que articula cultura hip-hop e educação em comunidade do Rio de Janeiro.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Juliana Maia é a 329ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Quando Juliana Maia, 34, conheceu seu atual marido, teve contato com um mundo completamente novo — ou quase: o hip-hop. Nativa do movimento do funk, ela se apaixonou pelo gênero e passou a frequentar rodas de rima e conhecer mais sobre esse universo, mas sentia-se um peixe fora d’água quando, na sua roda de amigos, ninguém conhecia as músicas. Com desejo de aproximar os moradores do bairro do Pantanal, em Duque de Caxias, à cultura hip-hop, Juliana criou o projeto Lanatanpa ― que foi batizado com trocadilho das letras do nome do bairro ―, que articula cultura e educação para os jovens da comunidade e é responsável por tirar o rap do estigma que o cerca.

Com a família — além do marido, ajudam a filha de 15 anos e o filho de 12 — ela organiza encontros periódicos para que jovens façam batalhas de rima, mas não só. Nos encontros há o debate sobre um grande tema com a presença de quem seja mais inteirado sobre o assunto escolhido, que vai desde meio-ambiente até feminismo: “Mesmo que seja algo que, pra eles, é só diversão, eu tento levar pro rumo da educação, tirar algo dali para ninguém voltar vazio.”

Eu sempre tento levar pro rumo da educação.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
"Lanatanpa" articula cultura e educação para os jovens do bairro, e foi responsável por tirar o estigma do rap para quem mora por ali.

A ideia surgiu há três anos e segue em crescimento. As tarefas do dia a dia e a rotina da família impediram do projeto de existir em um primeiro momento. Mesmo que no início fosse somente a ideia de colocar uma caixa de som na Praça do Pantanal, hoje o Lanatanpa cresceu, a cada edição, dezenas de participantes chegavam para ouvir as rimas. Juliana acredita que o que atrai as pessoas não são só os beats, mas também a discussão que se inicia a partir do encontro. “Nós somos precários de educação, então temos certa deficiência mesmo. Essa pluralidade acaba atraindo eles [os jovens] dessa forma.”

Essa pluralidade acaba atraindo eles dessa forma.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O grupo conta com 23 colaboradores fixos. Sem eles, o Lanatanpa não aconteceria.

Além dos jovens que participam, o projeto já conquistou também os pais deles, o comércio local e os outros moradores. Ela relata que um medo dos pais era a associação dos filhos com um ritmo que, ainda hoje, é visto com preconceito.

“Eles [os pais] achavam que o filho iria virar um drogado e desocupado. Eles não olhavam com valor para aquela tendência que o filho tinha de gostar de rap. Agora eles percebem que tem duas pessoas adultas no meio disso, que seus filhos não estão largados. Acabamos nos tornando referência tanto para os jovens quanto para a família, e essa articulação é importante”, afirma.

Com um grupo fixo de 23 colaboradores que fazem o Lanatanpa acontecer, Juliana confessa que demorou a delegar funções. “Hoje quando vejo tudo funcionando, sei que é porque somos uma família. É um processo mesmo”, analisa. E completa: “Eu sou mãe, e vejo o projeto como um filho.”

Acabamos nos tornando referência tanto para os jovens quanto para a família.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
“Eu quero que a Lanatanpa seja um meio deles realizarem seus sonhos."

O lado maternal de Juliana também a define. Hoje, ela estuda História na graduação e pretende ser professora. Além do filho caçula, que é o próprio Lanatanpa, ela cuida em tempo integral dos seus adolescentes. A filha mais velha é envolvida em design, fotografia, mídias sociais, e o menino tende a gostar mais da área de música. É uma família de criativos, e Juliana reconhece que eles são fundamentais para o andamento do projeto.

No futuro, a ideia é que o Lanatanpa tenha um espaço físico, uma gravadora e desenvolva ainda mais o potencial artístico dos meninos e meninas que estão ali. Enquanto isso, Juliana segue sonhando — e incentivando sonhos. “Eu quero que a Lanatanpa seja um meio deles realizarem sonhos; que alguém olhe por eles e que realmente consigam viver de música. Eu nunca prometi a ninguém que vão ter uma gravadora, fazer sucesso, mas sempre disse que eles deveriam fazer isso por eles. E e eu não quero que eles parem de buscar por isso.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Lola Ferreira

Imagem: Valda Nogueira

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.