OPINIÃO
02/02/2020 03:00 -03 | Atualizado 02/02/2020 03:00 -03

Mesmo favorita ao Oscar 2020, nem Renée Zellweger salva 'Judy' da mediocridade

Cinebiografia de Judy Garland já está em cartaz no Brasil.

Há muitas décadas, cinebiografias - mesmo as mais medíocres - são a plataforma ideal para atores e atrizes ganharem o tão desejado Oscar. O prêmio para Rami Malek como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody no ano passado só prova o quanto essa fórmula ainda é eficiente. 

E esse é exatamente o caso de Judy - Muito Além do Arco-Íris, cinebiografia da atriz, cantora, dançarina e entertainer Judy Garland (1922 - 1969) que estreou no Brasil na última semana.

Pobre em praticamente tudo, a única coisa digna de nota no filme do diretor inglês Rupert Goold é a atuação de Renée Zellweger como Judy. Tanto que a atriz texana vem faturando todos as premiações prévias ao Oscar e é a favorita à estatueta de Melhor Atriz em 2020.

Por mais que às vezes caia na armadilha da imitação, é inegável a entrega de Zellweger à personagem, uma das maiores estrelas da “era de ouro” de Hollywood que morreu muito cedo, aos 47 anos, vítima da indústria que fez dela uma das pessoas mais famosas do planeta, mas que cobrou um preço bem alto por isso.

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Mesmo com a maquiagem excessiva e o fator "imitação", Renée Zellweger se destaca como Judy Garland.

Os defeitos de Judy - Muito Além do Arco-Íris são muitos, da maquiagem extremamente carregada que chega a distrair o espectador, até a pobre ambientação que deixa o filme com cara de produção televisiva, no mau sentido do termo. Mas o erro crucial aqui é a escolha narrativa.

Goold opta por contar a história de Garland ressaltando apenas dois momentos de sua vida. Na adolescência, quando ela despontou como a Dorothy de O Mágico de Oz (1939), papel que a transformou em uma das grandes estrelas da MGM; e no último ano de sua breve vida, como uma entertainer decadente e de saúde mental e física frágil devido a anos de abusos de inibidores de apetite, calmantes e álcool.

O objetivo desse recorte é claro: mostrar o quanto esses primeiros anos da carreira de Judy, abusada de diversas formas pelo chefão da MGM, Louis B Mayer, foram cruciais para a construção de sua trágica existência que resultou na mulher despedaçada física e emocionalmente em suas últimos anos, por mais que fosse amada por seus filhos e seus fãs.

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Richard Cordery como Louis B. Mayer e Darci Shaw como a jovem Judy Garland em cena de "Judy - Muito Além do Arco-Íris".

Porém, para ressaltar a atuação de Zellweger, a parte que conta o período do começo de sua carreira é retratada de forma tão rasa que parece sequência de sonho. Tudo é resumido à questão das drogas e à figura vilanesca de Mayer. Um recorte extremamente superficial que uma personalidade tão complexa e rica não merecia.

No final das contas, o filme acaba se tornando uma homenagem torta. Por mais que Zellweger se esforce, quem não está familiarizado com a trajetória de Judy Garland não se conecta os dramas da personagem e, principalmente, seu “momento triunfal” de redenção, no final do filme. Será mais um daqueles vencedores do Oscar de quem ninguém lembra mais no ano seguinte.