COMPORTAMENTO
09/08/2019 17:04 -03

Vencendo a fome e a guerra no tatame

O primeiro contato da atleta congolesa Yolande Mabika com o judô foi em meio à luta pela sobrevivência em sua terra natal.

Ivo Gonzales

“Uma pessoa apareceu no campo de refugiados em que eu estava e perguntou quem queria aprender a lutar. Eu levantei a mão e disse que queria aprender a defender a minha vida”.

O primeiro contato da atleta congolesa Yolande Mabika com o judô foi em meio à luta pela sobrevivência em sua terra natal, a República Democrática do Congo, país que viveu um dos piores conflitos do mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Essa estaria longe de ser sua última batalha na vida, mas tendo o esporte como aliado, a judoca conseguiu superar todos os terríveis obstáculos até se tornar uma das atletas olímpicas do Instituto Reação.

O caminho até aqui não foi fácil. Yolande conta que chegou ao Brasil em 2013 para disputar o Campeonato Mundial de Judô. No entanto, foi abandonada pela delegação no hotel, sem documentos. “O hotel não deixou a gente entrar para comer, eu saí na rua pedindo comida para poder lutar e não consegui, porque eu estava falando francês e ninguém entendia. Eu comecei a chorar”, conta a atleta.

Sem ter como voltar para sua terra natal, Yolande viveu com ajuda de amigos que fez no Brasil, mas em condições muito pobres, até dormindo nas ruas. Em 2014, recorreu à ONG Cáritas, dizendo que gostaria de voltar a praticar o esporte e trabalhar com a profissão que escolheu. Seu relato foi publicado na internet e atraiu a atenção de jornalistas. A partir de então, a vida de Yolande mudou para melhor. No final daquele ano, Flávio Canto, um dos idealizadores e presidente do Instituto Reação, projeto apoiado pela BV, conheceu a história de Yolande e a chamou para um treino.

“Ele me perguntou onde estava meu quimono e eu disse que não tinha. Aí ele saiu com o carro dele e comprou um”, relembra. Desde então, a atleta e o colega Popole Misenga fazem parte do time de refugiados do Instituto Reação. Além de competir em disputas estaduais, ambos participaram dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, como membros do Time de Refugiados criado pelo Comitê Olímpico Internacional.

“O judô me ajudou muito na vida. Trabalho com isso até hoje, vivo disso. Estou no Brasil, comendo bem, graças ao judô. E o Instituto Reação me ajudou muito, [os membros] são minha família do coração. Minha vida está mudando graças a eles,” conta. Ela diz que segue treinando e que este ano já conquistou duas medalhas, apesar de estar se recuperando de um acidente em que machucou o pé.

A nova família de Yolande está crescendo. Com o apoio da BV, o Instituto Reação já atende a cerca de 1.600 crianças e jovens em oito polos, sendo sete no Rio de Janeiro e um em Cuiabá. Este último está sendo construído e estruturado a partir de uma iniciativa do campeão pan-americano David Moura, que também faz parte do time de vencedores apoiado pela BV.

Ivo Gonzales