NOTÍCIAS
08/04/2019 06:55 -03 | Atualizado 08/04/2019 11:05 -03

Juan Guaidó: 'Não vamos nos render nem nos entregar. Nem nos resignar'

Em entrevista ao HuffPost, presidente interino da Venezuela fala sobre a violência na Venezuela, prisões políticas e o apoio dos EUA e da Europa.

ASSOCIATED PRESS
Juan Guaidó concede entrevista exclusiva ao HuffPost.

Para conseguir uma entrevista com Juan Guaidó, presidente autoproclamado da Venezuela, são necessárias altas doses de paciência e um carregador de celular. Desde que se recebe o primeiro ok ao pedido de entrevista até chegarem as respostas dele passaram-se 13 dias, foram feitos 12 telefonemas, enviadas 40 mensagens de texto, foram negociados o formato, a extensão e o número de perguntas.

Finalmente descobrimos o mal menor: o presidente interino de 35 anos vai responder às perguntas por e-mail, sem possibilidade de réplica. Não é o ideal, mas “há centenas de pedidos” na fila e seria impensável perder o depoimento de um dos políticos mais procurados do momento.

Pessoa que tem contra ela o chavismo histórico, parlamentar que quer derrubar Nicolás Maduro, não teme por sua vida, apesar de estar em um país onde “já se produziu um derramamento de sangue”. Guaidó nega ser golpista – “quem o encara assim ou desconhece o que aconteceu na Venezuela ou diz isso de má-fé”, afirma – e rejeita categoricamente a possibilidade de sentar-se a uma mesa de diálogo com Maduro. Guaidó não hesita em definir suas aspirações: “Não queremos acabar com o chavismo nem com nenhum político. Queremos democracia”.

Leia os principais trechos desta entrevista exclusiva ao HuffPost.

HuffPost Espanha: O que o senhor pensa de quem o chama de golpista?

Juan Guaidó: Ou essas pessoas desconhecem o que aconteceu na Venezuela ou dizem isso de má-fé. Foi Nicolás Maduro quem não ouviu a vontade dos eleitores expressa nas eleições parlamentares de 2015, quem deu um golpe de Estado ao violar a Constituição vigente com a convocação ilegal em 2017 de uma Assembleia Constituinte de caráter corporativo (fascista) integrada unicamente por seus acólitos. É ele que desde o último 10 de janeiro usurpa o cargo de presidente de meu país. Meu objetivo não é outro senão restabelecer a democracia e o Estado de direito que foram violentados na Venezuela.

E o que pensa de quem diz que o senhor é agente da CIA e fantoche do establishment dos Estados Unidos?

Presido a única instituição de legitimidade democrática que ainda resta na Venezuela. Os deputados que a compomos fomos eleitos em dezembro de 2015 sob o marco da Constituição do meu país. Não fomos eleitos pelo senhor Trump, que nem sequer era presidente na época. Fomos eleitos pelo povo venezuelano, e isso deve ser respeitado. 

Meu maior medo é que nós, venezuelanos, continuemos sem ter acesso a remédios para nossos filhos. Que nossos adultos mais velhos continuem a morrer de desnutrição e doenças evitáveis.

Até que ponto existe hoje a possibilidade de ocorrer um derramamento de sangue na Venezuela?

Mais de 250 mil venezuelanos morreram no país nos últimos 15 anos devido à violência. Por outro lado, as forças de repressão que ainda se mantêm leais a Maduro continuam a cometer muitas violações dos direitos humanos, incluindo execuções extrajudiciais. Entre 2015 e 2017 houve mais de 8.200 execuções extrajudiciais cometidas pela máquina repressora, mais de 3 vezes o número de desaparecidos no Chile durante a ditadura militar de Pinochet. Já houve um banho de sangue em nosso país.

E o senhor? Teme por sua vida?

A responsabilidade que assumi implica riscos para minha integridade física e a liberdade de minha família, meus colaboradores e a minha própria. Mas meu maior receio não é esse. Meu maior medo é que nós, venezuelanos, continuemos sem ter acesso a remédios para nossos filhos. Que nossos adultos mais velhos continuem a morrer de desnutrição e doenças evitáveis. Que continue essa ditadura, que é a causa da fome e das dificuldades que os venezuelanos enfrentam.

ASSOCIATED PRESS
Guaidó sobe a carro de som para falar com seus apoiadores em manifestação em Caracas em março de 2019.

A que o senhor atribui o fato de ainda não ter conseguido o respaldo das Forças Armadas? Há algum indício de que os altos escalões militares vão migrar para seu lado?

Há uma grande repressão no interior da instituição militar, com muitos oficiais presos, torturados ou perseguidos por organismos da contra-inteligência que atuam como assessoria da ditadura cubana. Eles também querem uma mudança. O que peço a eles como instituição é respeito. Não pedimos que mudem de postura política ou de opinião. Mas lhes recordamos que seu juramento de honra é devido ao povo e à Constituição, que eles devem acatar e fazer acatar.

Não fomos eleitos pelo senhor Trump, que nem sequer era presidente na época. Fomos eleitos pelo povo venezuelano, e isso deve ser respeitado.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é um de seus firmes aliados. Qual é sua opinião política sobre ele?

Em nossa luta para restituir a liberdade na Venezuela, contamos com o apoio da maioria das democracias da América e Europa. A maioria dos países latino-americanos com os quais compartilhamos laços históricos e culturais formou em agosto de 2017 o Grupo de Lima para apoiar o esforço para redemocratizar a Venezuela. Estamos muito gratos a todos eles.

O senhor acha que seria preciso um envolvimento maior da União Europeia?

Se os governos europeus querem contribuir para uma transformação positiva na Venezuela, devem agir em bloco para que as forças que ainda apoiam Maduro sintam todo o peso da pressão diplomática e política da Europa. Isso é muito importante para a redemocratização da Venezuela.

ASSOCIATED PRESS
Presidente Jair Bolsonaro se encontra com Guaidó; o Brasil reconhece a ditadura na Venezuela e legitimidade do presidente interino.

A impressão que muita gente de fora tem é que depois de seu crescimento inicial, Guaidó empacou. A que o senhor atribuiu isso?

O caminho que nós nos traçamos não é fácil. Enfrentamos uma ditadura que se apoia em outras ditaduras do mundo e que não tem nenhum tipo de escrúpulos em assassinar os venezuelanos ou deixar que morram. Não estamos procurando “acabar com o chavismo” nem com nenhum político. Queremos democracia e queremos que nós, venezuelanos, possamos ter o direito de escolher nosso destino livremente.

Ao final de cada diálogo [com Maduro], há mais presos políticos e menos direitos para os cidadãos... É uma situação em que Maduro e a cúpula que o cerca não cedem nunca, mas sim aproveitam essa circunstância para blindar ainda mais a ditadura.

O senhor teme fazer parte da enésima tentativa de acabar com o chavismo?

Só lhe posso garantir que nós, venezuelanos, não vamos nos render. Não vamos nos entregar. Não vamos nos resignar.

Estaria disposto a sentar-se a uma mesa de diálogo com Maduro?

As forças democráticas venezuelanas já participamos de esforços de diálogo, negociação e acordo com o regime de Maduro em várias ocasiões. Nós o fizemos dentro e fora da Venezuela, de forma privada e também publicamente. Sozinhos e com representação internacional. A última vez foi em dezembro de 2017 e janeiro de 2018 na República Dominicana com o apoio do presidente desse país, Danilo Medina, e com os chanceleres do México e do Chile.

A consequência de todos esses processos tem sido invariavelmente a mesma: ao final de cada diálogo há mais presos políticos e menos direitos para os cidadãos. Ou seja, é uma situação em que Maduro e a cúpula que o cerca não cedem nunca, mas sim aproveitam essa circunstância para blindar ainda mais a ditadura. Não podemos mais nos prestar a uma nova manobra desse tipo, como vocês poderão compreender.

Se Maduro tivesse desejado facilitar um diálogo, poderia ter libertado os presos políticos. Não o fez. Pelo contrário, o deputado Juan Requessens continua privado de sua liberdade sem acusação judicial, violando seu foro parlamentar. Julio Borges, ex-presidente da Assembleia Nacional, teve que se exilar para fugir da perseguição. Outro deputado, meu companheiro da Vontade Popular Gilbert Caro, passou vários meses detido, e Leopoldo López continua em prisão domiciliar. Há outros casos de presos por causas políticas que estão atrás das grades há mais de 15 anos.

Não nos negamos a um diálogo, mas nossa posição é que qualquer acordo que não preveja o fim da usurpação será considerado uma maneira de prorrogar a situação atual para manter Maduro usurpando o poder.

ASSOCIATED PRESS
Ativista Fabiana Rosales, esposa de Guaidó, se reúne com presidente dos EUA, Donald Trump.

Parafraseando o início de Conversa na Catedral, de Mario Vargas Llosa, e seu “quando foi que o Peru se fodeu?”, quando e por que a Venezuela se fodeu?

Quando todo o poder foi entregue a um único indivíduo. A partir desse momento a democracia na Venezuela começou a morrer. A democracia não garante um bom governo, garante que se possa sair dos maus governos. Eu me lancei no ativismo político participando do movimento estudantil em 2007, precisamente quando nos demos conta da deriva autoritária que estava acontecendo.

*Este texto foi publicado originalmente no HuffPost Espanha e traduzido do espanhol.