COMPORTAMENTO
26/07/2019 01:00 -03

ONG apresenta 'bike trucks' estilizadas por artistas com síndrome de Down

Pensando na inclusão de jovens com Down na sociedade, a ONG Nosso Olhar criou um projeto muito especial, o Bike Art.

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ONG Nosso Olhar visa à inclusão social de jovens com Down por meio da arte e do trabalho.

Como você expressa o seu mundo? Para alguns, a arte é o melhor caminho. Pensando na inclusão de jovens com síndrome de Down na sociedade, a ONG Nosso Olhar criou um projeto muito especial, o Bike Art.

Cinco jovens com deficiência foram recebidos por artistas plásticos em seus ateliês nos últimos meses. Nas residências incubadoras, a troca entre o profissional e o aprendiz resultou em uma exposição de diversas telas criadas pelos artistas que aconteceu na Galeria Zero, em São Paulo.

Vanessa, Felippe, Joana, Bia e Mayra foram recebidos pelo grafiteiro Fernando Berg e pelos pintores Claudio Takita, Rita Caruzzo e Sylvia Soares.

Para Caruzzo, conhecer Bia e Joana possibilitou uma “sintonia” entre elas, revelada em obras com muitas cores.

“Eu amei poder contribuir um pouquinho com o projeto, aliás, eu ganhei muito mais com o sorriso, alegria, sensibilidade e sinceridade delas”, diz a artista plástica.

Além das pinturas em telas, eles também produziram bicicletas estilizadas que foram adaptadas para servirem de “bike trucks” com a inclusão de produtos para venda ou distribuição ao consumidor.

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Bike truck estilizada por grupo de artistas com síndrome de Down.

Agora, as bikes do projeto vão ser distribuídas em diversos shoppings de São Paulo e servirão de mostruário para a venda de chocolates. São eles: Tietê Plaza, Grand Plaza (em Santo André), Cidade São Paulo e Granja Vianna.

Além da venda de produtos, as bikes trucks vão possibilitar que jovens com deficiência possam entrar no mercado de trabalho. Em cada um dos pontos de venda haverá o emprego e a capacitação profissional deles. 

“Realizar esse projeto era uma forma de abrir o coração e a mente desses jovens”, conta Thaissa Alvarenga, fundadora da ONG Nosso Olhar, em entrevista ao HuffPost Brasil.

“Ao mesmo tempo, também foi um grande aprendizado. O que eu mais percebi foi o sentimento de empoderamento deles ao apresentar os quadros que eles tinham pintado. Era um grande orgulho se reconhecer no quadro e dizer ‘eu fiz isso’. Eles abriram uma janela para o mundo e demonstraram o quanto são capazes, cada um dentro do seu tempo e com sua individualidade”, compartilha.   

Leia trechos da entrevista com Thaissa Alvarenga.

Por que você sentiu necessidade de criar a ONG Nosso Olhar?

Thaissa Alvarenga: Meu primeiro filho nasceu em 2014 com síndrome de Down e a partir daí eu entrei no mundo da maternidade especial. Tudo era muito novo e eu comecei a perceber que as pessoas tinham muito interesse em saber como ele estava se desenvolvendo. Ao mesmo tempo, percebi que estava tendo acesso a muitas informações que nunca tinham chegado para mim. Foi um ano de intensa imersão nos cuidados com ele.

Em 2015, eu fiz um blog pra contar um pouco da rotina do Chico. Nos textos, eu tentava passar tudo que eu estava tendo acesso, desde tratamentos a descobertas, como forma de disseminar conhecimento. Comecei a gerar conteúdo principalmente pensando nas outras mães, porque a gente sabe quem nem todo mundo tem acesso a todos os profissionais e todos os suportes como eu tive a oportunidade de dar ao meu filho.

O blog, que se chama Down é Up, começou a crescer e em 2016 ele foi transformado em um site de conteúdo. A partir desse ponto, ele deixava de ser  só sobre a vida do Chico. Mas se tornou um espaço para a circulação de informação sobretudo para gerar mobilização e inclusão dos Downs na sociedade.

O site cresceu e, mais uma vez, senti a vontade de desvincular cada vez mais a imagem do meu filho. Ele sempre foi a minha causa e a minha motivação, mas se tornou algo muito maior. No ano passado, a ONG saiu do papel.

A Nosso Olhar nasceu para que a sociedade enxergue todas essas pessoas. O que a gente quer é uma inclusão real. De você olhar a essência da pessoa com deficiência na sociedade.

E com a ONG vieram diversos projetos; o Bike Art é um deles.

Por que vocês escolheram usar a pintura como ferramenta de expressão para esses jovens?  

Cada um expressa a arte de sua forma, e isso ficou nítido a partir da interação que os jovens tiveram com os artistas. Por meio da pintura, eles contavam da forma deles como eles viam o mundo.

Realizar esse projeto era uma forma de abrir o coração e a mente desses jovens. E ao mesmo tempo, também foi um grande aprendizado. O que eu mais percebi foi o sentimento de empoderamento deles ao apresentar os quadros que eles tinham pintado no dia da mostra. Era um grande orgulho se reconhecer no quadro e dizer “eu fiz isso”. Eles abriram uma janela para o mundo e demonstraram o quanto são capazes, cada um dentro do seu tempo e com sua individualidade.  

Quais são os próximos passos do projeto Bike Art? 

Agora, os quadros que já estão prontos vão para leilão e todo o valor será revertido para projetos da ONG. As bikes seguem expostas nos shoppings da capital, como o Tiete Plaza, Grand Plaza, Cidade São Paulo e Granja Viana.

Além disso, as bicicletas são adaptadas para serem bike trucks. Então, elas servem de pontos de vendas de chocolates e o responsável pela lojinha também é um jovem com síndrome de Down.

Esses jovens são funcionários, receberam treinamento e são remunerados. Ainda, toda a venda das bikes também será revertida para iniciativas em prol da inclusão. 

A ideia é ampliar a frota e seguir com essas bikes em outros pontos. Quem sabe fazer eventos em empresas e permitir que pessoas com deficiência possam ocupar espaço no mercado de trabalho.