OPINIÃO
12/04/2020 02:00 -03 | Atualizado 12/04/2020 22:41 -03

'Não é gripezinha', diz universitário paulista de 20 anos que foi parar na UTI com covid-19

Guto Franco sentiu dor muito forte nas costas e teve idas e vindas ao hospital por conta de infecção pelo novo coronavírus.

Arquivo Pessoal
Guto Franco, 20 anos, contraiu coronavírus e teve que ir para a UTI.

Por Fernanda de Almeida

A notícia de que o destino de Guto Franco na noite de 20 de março seria o leito de uma UTI fez o jovem de 20 anos segurar o choro para não assustar o pai, inconformado por não poder visitá-lo. “Passaram várias coisas na minha cabeça. Será que é a última vez que vou ver meu pai? Será que é o último abraço que eu vou dar nele?”.

O tratamento intensivo era cautela indispensável para o estudante de Rádio, TV e Internet da Faculdade Cásper Líbero, na Avenida Paulista. A médica plantonista foi firme quanto à necessidade de monitoramento. “Ela falou que, se eu estivesse em casa e tivesse alguma complicação pulmonar, eu iria morrer. Estando no hospital, ela teria chance de me salvar”, conta o jovem.

Os primeiros sintomas surgiram quatro dias antes, em 16 de março. Febre alta e calafrios. “Pela minha aparência eu sabia que não estava bem, tive muita dor de cabeça e só queria dormir”, descreve.

Em São Caetano do Sul, onde Guto mora, ainda não havia casos confirmados. Mas, ao dar entrada no hospital São Luiz, já de máscara, foi levado a uma ala isolada. “Todo mundo lá tinha gripe ou corona. Os médicos e enfermeiros usavam duas luvas em cada mão, máscara, touca, avental. Parecia coisa de filme”, lembra.

Enquadrado no grupo de pacientes que deveriam fazer o teste para coronavírus, saiu do pronto-socorro direto para casa, onde aguardaria o resultado. Só deveria voltar ao hospital se a febre continuasse alta ou se tivesse falta de ar.

Como não há remédio específico para a covid-19, a médica receitou paliativos usados em caso de gripe, como dipirona. Já em casa, a febre e o cansaço continuaram. Começou a ter dores no corpo, mais um sintoma da doença. “Eu tomava o remédio, aí passava e voltava. Ou então nem passava.”

Guto não estava nervoso em relação ao resultado do exame. “Eu fiquei muito confiante de que não era corona; não tinha tido contato com nenhum doente, para mim era só uma gripe”, conta.

Eu e meu pai ficamos em choque. Ligamos no hospital, e a médica disse para voltarmos lá.

Na quinta-feira, recebeu uma ligação do hospital com a confirmação. “Na hora, meu coração quase saiu pela boca”. A enfermeira disse que ele teria que ficar isolado por 14 dias – assim como seu pai, que estava tendo contato direto com ele e provavelmente já estaria infectado. “Eu gaguejava no telefone com ela, não acreditava”, recorda.

Apesar de não fazer parte do grupo de risco, que reúne idosos e portadores de doenças crônicas, o estudante ficou assustado com o diagnóstico. “Ninguém quer ficar doente, né? Ainda mais com uma doença que é o assunto do mundo.”

Nos dois dias seguintes, os sintomas só pioraram. Guto passou a sentir uma dor muito forte nas costas, na região do pulmão. “Eu e meu pai ficamos em choque. Ligamos no hospital, e a médica disse para voltarmos lá.” O exame de sangue estava normal. Ele fez tomografia e acabou indo para a UTI.

A noite na Unidade de Terapia Intensiva foi inesquecível. Contou, inclusive, com a morte da paciente que ficava ao seu lado [não por covid-19]. “Olhei pro teto e comecei a rezar. Muita coisa tinha acontecido naquela semana e nessa hora a gente esquece que não está no grupo de risco. Acho que meu psicológico estava pior que a minha saúde”, afirma.

Um apoio importante veio das mensagens de amigos e familiares. Na segunda-feira, quando nem tinha a confirmação da doença, postou um story no Instagram de máscara, o que rendeu muitas respostas. Sem conseguir responder todos, usou suas redes para atualizar seus conhecidos. Seu perfil ganhou proporção muito maior. “Muita gente rezava, mandava energias positivas e mensagens de força. Foi muito bom naquele momento que eu estava sozinho e com medo”, lembra.

A gente acha que não vai acontecer com a gente, mas acontece, e é uma situação muito complicada.

Já no dia seguinte passou para o quarto. Como não apresentava pioras, teve alta 24 horas depois, na segunda-feira (23). “Só de chegar em casa, tirar as coisas do hospital e tomar um banho me senti muito melhor”, conta. A disposição foi voltando, não teve mais febre e os sintomas foram desaparecendo.

Na quinta-feira (26), sentiu outra vez a dor nas costas e voltou ao hospital. Exame de sangue ok, tomografia, ok: provavelmente, dor muscular. Tomou remédio e realmente não sentiu mais nada. Hoje, já voltou a estudar e trabalhar.

“Só entende de fato a seriedade da doença quando se entra em contato com ela”, diz Guto. “Confesso que no início eu não acreditei, pensei que não era possível. As pessoas acham que é brincadeira, pensam que é só ‘uma gripezinha’. Não é. É um momento horrível para o mundo, interfere na vida de muitas pessoas. A gente acha que não vai acontecer com a gente, mas acontece, e é uma situação muito complicada. Acho que muita coisa vai ser diferente depois disso”, conclui.

CORREÇÃO: Ao contrário do que a 1ª versão deste artigo informava, os micronódulos nos pulmões, revelados pela tomografia feita por Guto, não tinham relação com o novo coronavírus.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.