OPINIÃO
20/06/2019 12:18 -03 | Atualizado 20/06/2019 12:18 -03

O enfraquecimento de forças políticas tradicionais está movendo setores da sociedade civil

As Jornadas de Junho, em 2013, selaram um grande pacto do cidadão em torno da defesa dos direitos sociais e do combate à corrupção.

Sergio Moraes / Reuters
Ruas ficaram lotadas no centro do Rio de Janeiro no dia 20 de junho de 2013.

O dia 20 de junho de 2013 levou mais de 1,2 milhão de pessoas às ruas em mais de 20 cidades brasileiras. As chamadas ‘Jornadas de Junho’ não podem ser categorizadas como um evento da direita ou da esquerda. A ausência de uma articulação central e de uma reivindicação unitária, entre outros motivos, fizeram que grupos e indivíduos dos mais diferentes posicionamentos políticos fossem às ruas, muitas vezes compartilhando o mesmo espaço.

As demandas apresentadas eram inúmeras e heterogêneas, assim como a composição social dos protestos, que foi muito mais diversa do que algumas análises apresentam. Originalmente, os manifestantes se opunham ao aumento no preço das passagens de ônibus, de R$ 3 para $ 3,20. Aos poucos, em contrapartida, a pauta se ampliou para outras demandas, como educação, saúde e combate à corrupção.

Seis anos depois dos protestos que pararam o País, qual o legado deixado pela sociedade civil? A maioria das demandas não foi atendida, mas as manifestações selaram, por meio da mobilização de rua, um grande pacto do cidadão em torno da defesa dos direitos sociais e do combate à corrupção.

Para a classe política, o maior desafio à época foi tentar identificar o que desejavam aqueles grupos de pessoas que iam às ruas protestar. Governo e Congresso se viram em uma situação diferente do habitual. Isso porque as manifestações não tinham liderança nem pauta definidas. Foram, na ocasião, organizadas nas redes sociais e com vetos a bandeiras de partidos políticos ou sindicatos.

Redução de passagens no transporte público, combate à corrupção, mais segurança e serviços públicos no “Padrão Fifa” foram alguns dos temas que apareceram no mosaico de reivindicações e que ainda aguardam uma resposta contundente das autoridades.

Ao mesmo tempo, junho de 2013 escancarou uma vontade de participação popular que se encontrava dormente no peito dos brasileiros. Estimulados pelo espírito das multidões, os cidadãos deram voz a demandas por serviços públicos de maior qualidade. Este foi o maior legado dos atos: mostrar que o cidadão pode se organizar e fazer política.

Nesse sentido, 2013 foi um grande grito de insatisfação com a representação política, com as mais diferentes mensagens e sotaques. No entanto, encorajou muitos movimentos da sociedade civil, com diferentes pautas ideológicas, a se manifestar nos anos seguintes, se organizando para atuar em rede. É um marco na nossa democracia que pela primeira vez as pessoas estão saindo às ruas a favor de pautas propositivas, como a reforma da Previdência.

O ‘Apoie a Reforma’, lançado no dia 17 de junho pelo o CLP – Liderança Pública e outras 76 instituições, é um exemplo de iniciativa que pretende instigar cidadãos em favor das reais mudanças estruturais de que o País precisa. A rede está gerando uma série de conteúdos que ajuda a explicar como, mais do que nunca, o Brasil precisa de uma Previdência mais sustentável, igualitária e justa.

No caso do ‘Apoie a Reforma’, artigos, vídeos, estudos e mitos e verdades reiteram que a reforma da Previdência é uma necessidade vital nas contas do governo. Além de lutar para garantir um futuro digno para as próximas gerações de aposentados, o trabalho é oferecido gratuitamente e tem o objetivo único de melhorar o Brasil.

Outra iniciativa importante é o ‘Pacto pela Democracia’, rede formada por uma coalizão de movimentos que pede pluralismo e tolerância na política. O pacto partiu de mais de 60 organizações da sociedade civil e pretende superar diferenças para combater o desgaste das instituições e lutar pela igualdade de direitos e pelo respeito à diversidade.

Em um contexto marcado pela emergência de novas formas alternativas de participação política, são empresários, ONG’s e movimentos cívicos que estão assumindo o papel de protagonistas no sentido de atuar pelos interesses da população. Acompanhar os trabalhos dos parlamentares, debater as questões relativas aos interesses coletivos e cobrar e propor ações que contribuam para a dinâmica social são algumas das responsabilidades de um cidadão.

Ainda que exista corrupção e manipulação com o objetivo de atender interesses específicos no ato político, temos que entender que esse quadro negativo só poderá mudar quando a própria sociedade se apropriar da política, entendendo que é por meio dela que se transforma a realidade — e fazendo que esse despertar e participação sejam pilares daqui para frente.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.