NOTÍCIAS
26/08/2019 18:24 -03

'O desmate não é inteligente. Pode causar um caos na economia', diz ex-governador do Acre

Ao HuffPost, Jorge Viana (PT) afirma que, ao dar "senhas para o desmate", Bolsonaro está na contramão dos anseios da sociedade.

EVARISTO SA via Getty Images

Falta ao governo aprender a alinhar o desenvolvimento econômico ao meio ambiente. Esta é a análise do ex-governador do Acre Jorge Viana (PT). Ao HuffPost, ele disse que “é preciso o próprio governo entender que o maior aliado do produtor é o meio ambiente”. O Acre, que esteve sob o governo do petista de 1999 a 2002, decretou estado de emergência por causa das queimadas que atingem o Estado.

“Se desmatar, o consumidor vai reagir. O desmatamento não é inteligente. Nós precisamos colocar os dois pés no século 21 e não no século 20. É preciso entender que está na hora de ouvirmos uns aos outros. Mais importante e mais rápido do que qualquer boicote formal por parte de qualquer governo é a reação do consumidor. E isso pode ser um caos para nossa economia”, disse. 

Ainda segundo o ex-governador, as pessoas não querem comida com veneno. “Não querem comida que sabem que vem de uma área que degradou, que desmatou ilegalmente.” 

Para ele, no entanto, o governo foi em direção oposta e “deu senhas para o desmate”. “Uma coisa que mudou [pois a queimada na região é comum] e que é uma tendência perigosíssima é que o governo deu sinais, deu senhas para o desmate. (...) O grande fermento dessa situação toda relacionada às queimadas é a postura das autoridades públicas, do presidente Bolsonaro.”

O ex-governador reconhece que o período atual não é o de maior de desmate na região. Ele ressalta que os índices foram altos nos governos de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Luiz Inácio Lula da Silva ―  quando índice de crescimento de destruição de florestas passou a cair. “O Brasil teve o reconhecimento internacional com isso, mas parece que nós estamos regredindo. Não aprendemos com o que foi construído”, lamenta.

Leia os principais trechos da entrevista:

HuffPost Brasil: Qual o equívoco do atual debate em relação à política ambiental?

Jorge Viana: Eu não sei se há erro. Nós estamos vivendo uma situação grave. E é mais grave pelo que ela representa de retrocesso. O pico do desmatamento na Amazônia foi nos anos 1990, ainda no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Com destaque para o ano de 1994, quando tivemos algo em torno de 30 mil quilômetros quadrados de área de floresta desmatada.

Mas esse aumento seguiu no governo Lula.

Seguiu, mas foram menores do que no governo de FHC. Nos primeiros dois anos do governo Lula, mesmo com Marina [Silva, ex-ministra do Meio Ambiente], houve desmatamento grande ainda. Mas foram construídas bases e estruturas de ação de uma política pública na área ambiental que deram resultados. Lula começa a reagir, pelo que foi construído por Marina, e o desmatamento caiu de 25 mil quilômetros quadrados de área florestal para menos de 5 mil quilômetros. Isso já na gestão da ministra Izabella Teixeira.

E o que mudou?

Uma coisa que mudou e que é uma tendência perigosíssima é que o governo [atual] deu sinais, deu senhas para o desmate. Hoje, estamos com uma tendência ao aumento já com 6, 7 mil quilômetros de florestas desmatadas. O grande fermento dessa situação toda relacionada às queimadas é a postura das autoridades públicas, do presidente Jair Bolsonaro. Nós temos um ministro do Meio Ambiente ensandecido, por exemplo, cujos gestos permitiram o retorno desse aumento. O desmatamento que tinha certo controle agora está nisso. Comparando julho de 2019 com julho de 2018, houve aumento relevante do desmatamento. É uma tendência perigosíssima.

Bruno Kelly / Reuters
No dia 23, o governdo do Acre decretou estado de emergência por causa das queimadas que atingem o Estado.

Há certa confusão entre as queimadas, desmatamento...

Há duas coisas acontecendo. A primeira são esses incêndios em áreas urbanas, com gente tocando fogo em áreas já degradadas, com o clima seco, calor. Isso é irresponsável e tem que ter fiscalização para proibir. Mas isso sempre vai ter. Incêndio é diferente de queimada. Outra coisa é o aumento do desmatamento. O pior período é setembro, a queima antes da chuva que antecede o plantio.

E o uso da tecnologia? Como encontrar alternativas viáveis, acessíveis?

Quando estive no governo, criei a Secretaria de Florestas. Pelo simples fato de que preciso perceber o lugar em que eu estou. Eu vivo no Acre, um lugar em que 88% da área é composto por floresta. Eu preciso ter uma política pública que pense isso. Não posso entender a ocupação da Amazônia valorizando apenas o uso da terra. Preciso valorizar a nossa biodiversidade. Não posso satanizar o manejo [que é a intervenção humana na natureza], por exemplo. Tenho que valorizar o manejo. Como eu não posso ter a floresta como prioridade em um lugar como a Amazônia?

O senhor acredita que haverá consequências econômicas no curto prazo nesse atual cenário?

Quando o que está em discussão é política ambiental, questões ambientais, a sociedade amadureceu muito. O consumidor amadureceu muito ao longo dos anos. As pessoas não querem comida com veneno. Não querem comida que sabem que vem de uma área que degradou, que desmatou ilegalmente. Você perguntou sobre questão da tecnologia. Olha: dos 850 milhões de hectares de área no País, cerca de 350 milhões de hectares são usadas para atividade agropecuária. Desses 350 milhões, aproximadamente 200 milhões, talvez um pouco menos é específico para pecuária. Hoje, o País tem cerca de 190 milhões de cabeças. É um rebanho responsável pela maior exportação no mundo. Isso dá uma relação aproximada de 1,1 boi por hectare. Se nós conseguíssemos, aumentar essa relação para 1,5 boi por hectare sobrariam 80 milhões de hectares que poderiam ser usados na agricultura sem precisar pressionar por mais desmate.

As pessoas não querem comida com veneno. Não querem comida que sabem que vem de uma área que degradou, que desmatou ilegalmente.

O senhor avalia que há ambiente político que busque essa agenda de consenso em torno das questões ambientais?

O que eu vi foi que o governo ficou assustado com a reação. O governo ficou apavorado. É preciso o próprio governo entender que o maior aliado do produtor é o meio ambiente. Se desmatar, o consumidor vai reagir. O desmatamento não é inteligente. Nós precisamos colocar os dois pés no século 21 e não no século 20. É preciso entender que está na hora de ouvirmos uns aos outros. Mais importante e mais rápido do que qualquer boicote formal por parte de qualquer governo é a reação do consumidor. E isso pode ser um caos para nossa economia.